O último ano da graduação foi particularmente complicado. Entre o trabalho, as aulas e o projeto de conclusão de curso, a habitual ansiedade escalou ao ponto das tragédias mais insólitas me reduzirem a uma poça de lágrimas e autocomiseração. Quebrei a ponta do lápis? Claro, afinal sou um desastre, estou fadada ao fracasso e tudo desmorona ao meu redor – seguem quinze minutos de choro convulsivo. Não me restava estabilidade mental ou emocional para muito. Foi um ano de poucas leituras (não acadêmicas, isso é – de tanto bater cartão, a recepcionista da biblioteca já me chamava até por apelido), poucos filmes e poucos games.

Não achei que fosse gostar muito de Mass Effect – tinha a impressão de que era um shooter genérico, algo que pudesse me distrair por cinco minutos e dar um descanso ao meu cérebro superaquecido. Que não fosse consumir muito do tempo que se tornara uma commodity valiosa em sua escassez. Foi uma escolha impulsiva. Tudo que eu sabia sobre a franquia, até então, era que você podia dar uns amassos numa alienígena azul – o que, para ser sincera, foi mais que suficiente para atiçar meu interesse. Instalei o jogo e varei o que seria a primeira de diversas noites em claro, sono ou descanso reduzidos a uma necessidade menor que aquela de saber o que viria a seguir. Passei tantas horas com o controle na mão que meus dedos estavam permanentemente doloridos.

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Sempre amei videogames. Quando criança, eram uma maneira de compartilhar algo, um terreno comum, com meu irmão mais velho. Depois se tornou uma atividade em torno da qual reunir os amigos e, mais tarde, um ato de exploração introspectiva. Assim como filmes e livros me permitiam escapar para outros universos, o mundo dos games introduzia um elemento de exploração mais complexo: eu deixo aquela cidade construída em uma bomba explodir ou salvo os habitantes, resgato aquela menininha sinistra ou a uso, escolho o starter de fogo ou grama (fogo, claro)?

De acordo com estatísticas compiladas pela Entertainment Software Association, em 2014 as mulheres já constituem 48% dos gamers – uma demografia superior àquela dos meninos adolescentes. No entanto, a vasta maioria dos protagonistas ainda segue o mesmo template de homem caucasiano de meia-idade, provavelmente com a barba por fazer. Neste mesmo ano, a Ubisoft anunciou que deixaria de incluir mulheres no Assassin’s Creed pela dificuldade maior em animá-las. Porque nós aparentemente temos uma composição lovecraftiana ou algo assim. Me pergunto de que maneira as coisas teriam sido diferentes caso, naquela época em que andava para lá e para cá empunhando uma vassoura denominada Master Sword, eu tivesse a Comandante Shepard de exemplo. Sei que, mesmo adulta, foi uma experiência empoderadora.

Mass Effect

Pela primeira vez, pude assumir as rédeas do protagonismo dentro do meu gênero sem que o mesmo fosse digno de nota. Mesmo em seus piores momentos, ninguém sugere que FemShep esteja agindo de determinada maneira por ser uma mulher – ela é julgada exclusivamente por suas ações e, mesmo sendo por vezes falha, cabeça dura – e uma péssima dançarina – ela conquista o respeito de seus pares. Shepard não foi escolhida por deuses, sua missão não está predestinada ao sucesso e suas ações, muitas vezes equivocadas, tem consequências reais. Apesar de suas limitações (fico imaginando os muitos processos por assédio sexual que constam nos registros da aliança humana) e seus erros, ela é, fundamentalmente, uma pessoa que está tentando da melhor maneira que sabe fazer o que considera mais certo.

Não foi apenas a atuação incrível de Jennifer Hale que me ganhou. Assim como Neil Armstrong, ao olhar pela escotilha da Normandy e contemplar todo aquele universo lindamente renderizado, eu não me senti uma gigante, eu me senti muito, muito pequena. A ficção científica é importante porque, em última análise, é mais sobre a sociedade e o comportamento humano do que viagens mais rápidas que a luz ou ameaças cósmicas. Por mais exageradas ou simplistas que algumas opções de diálogo possam parecer, as suas escolhas tem peso – e não são nada fáceis. Assim como a Shepard, toda a tripulação se tornou importante para mim. Nessas muitas noites em claro eu não aprendi apenas sobre uma predileção sexual latente por alienígenas azuis, mas também sobre o tipo de pessoa que quero ser.

liaraOs tempos áureos de “uma vida/uma fase” com meu irmão ficaram no passado. Não consegui interessá-lo em ME, apesar de seu amor assumido por óperas espaciais. Ainda assim, tivemos uma briga feia, que terminou em lágrimas de frustração e uma mágoa mais que superficial quando ele, que vinha acompanhando minha saga, criticou a decisão de curar o genophage. Em outro momento, tentei explicar para um namorado porque a decisão de praticamente castrar toda uma raça me cheirava a eugenia. A total falta de interesse na discussão devia ter sido um alerta: no fim, esse relacionamento durou menos que meu romance com o Garrus.

Desde meu primeiro contato com a série, joguei a trilogia do começo ao fim, e fora de ordem, diversas vezes. Sobrevivi à faculdade, mudei de cidade, de emprego, de corte e cor de cabelo. No entanto, aquela sensação de possibilidade e capacidade permaneceu comigo. Não sei que tipo de aventura épica me espera, nem quando virá. Sei que vou errar muito e que as recompensas muitas vezes parecerão insatisfatórias. Que as pessoas ao meu redor valem a pena. Que o mundo reserva monstros terríveis (e que os piores se parecem conosco), mas que existem paisagens fantásticas a descobrir. E, finalmente, sei que, quando esse momento chegar, estarei preparada para assumir o comando. Até lá, me contento com dancinhas ridículas.

Sobre a autora

barbaraBárbara Bretanha é jornalista, mas jura que não é mau-caráter. Se tivesse que se definir com um rótulo, provavelmente usaria “velha louca dos gatos”. Escreve para o Estadão e para os moradores da sua vila no Animal Crossing.

Crédito da imagem: muju

 

 

 

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31 Gaems é uma série de 31 textos, escritos por 31 autores, sobre 31 jogos. Além da publicação no Overloadr, os ensaios também farão parte do app/zine Glitch Gazette, em desenvolvimento por André Asai, do Loud Noises.

Leia os outros ensaios do 31 Gaems já publicados no Overloadr:

Super Metroid – simulador de sobrevivência solitária – Thais Weiller
Super Mario Bros. 3 – entretenimento e magia – Marcos Venturelli
We Love Katamari – mas eu amo um pouquinho mais que você – Karen “bitmOO”
Warcraft III – herói sem luzinha – Lucas Molina
A densa névoa de Kentucky Route Zero – George Schall
Streets of Rage 2: Ruas da Treta – Danilo Dias