Agora você lê o quinto e último dos textos escritos por Alexandre Nix, produtor do Overcast (pai de programas como os podcasts Verdades Absurdas [apresentado por Caio Teixeira], Muito Amor e vídeos como Rompantes, com Nigel Goodman), sobre a sua experiência com o (beta do) jogo Elite: Dangerous. O conteúdo é autoral e será publicado semanalmente, todas quartas-feiras. Acompanhe conosco o que sai da mente doentia – ou robotizada – do Nix. Caso queira mais informações sobre o jogo, acesse o site de Elite: Dangerous que o Nix criou.

– Caio Teixeira

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Data Estelar 5113300-6

O vórtice do salto hiperespacial entre sistemas paralisa os controles das naves. Por alguns instantes eu reflito sobre meu pequeno deslize. As Eagles eram apenas naves de escolta da Hauler e eu assassinei as três. Juro que foi sem querer, mas eu assassinei as três. Pior. Eu pilhei a Hauler. No meio da confusão ela se livrou de parte da sua carga na esperança que isso me distraísse o suficiente para ela fugir. Eu não havia percebido. Eu sou um pirata.

O salto entre o sistema cessa e entro automaticamente em velocidade hiperespacial para ajustar meu curso para a estação espacial. Antes de qualquer coisa verifico o compartimento de carga da nave e constato a burrada. As três toneladas de ouro estão lá. O computador de bordo as registra como mercadoria roubada. Foi por essa razão que eles não apareceram na lista do mercado oficial. Será preciso vender isso no mercado negro. Será que a estação daqui tem um mercado negro? Preciso primeiro ajustar o curso para… que vapor é esse? Tem fumaça no cockpit. Que diabos! Solto a tela de menu do cargo e noto a mensagem em vermelho na tela principal: “Perigo. Temperatura Crítica.”.

– O que?

Sim. Fumaça. Verifico o termostato que está vermelho e piscando. Eu posso não ser o melhor comandante da galáxia, mas sei que coisas piscando em vermelho não são bom sinal. O casco passou da marca dos 200ºC! O que está acontecendo? Oh, não! Uma anã-branca na minha frente! Ela é tão pequena. Eu não imaginava que…

– Droga, Nigel! Custava ter dito o endereço onde você fritou?

Manobro na direção oposta com a nave fumegando e acelero na direção ao vazio. Calor. Calor. Tudo o que importa no espaço é calor. Eu não estou pilotando uma Sidewinder, como a do Comandante Nigel.  Eu vou conseguir. Eu tenho um escudo levemente melhor do que o padrão de fábrica da Cobra MK III. Eu vou conseguir. Eu tenho um pouco mais de experiência pilotando que o Comandante Nigel. Eu vou conseguir.

E consigo. Com exceção da pintura nova, a Cobra MKIII está intacta. Quando a temperatura começa a cair respiro aliviado e marco o curso para a estação mais próxima: Anderson Escape.

Anderson Escape não é a estação mais próxima. É única estação de CM Draco e não está próxima. Na verdade é muito longe. Entenda: a maioria das estações fica a 10, 300 ou até 2.000 segundos luz de distância da estrela principal do sistema. Anderson Escape não. Ela prefere ficar a 200.000 segundos luz. Mesmo acelerando meu hiperdrive, é possível que eu demore mais de 10 minutos para chegar lá e perca o contrato de entrega. Acelero. 100c, 200c, 300c… eu nunca viajei tão rápido e tão longe em um sistema…. 400c, 500c, 600c… isso está ficando preocupante. Em 670c o computador de bordo reduz levemente a velocidade prevendo o ponto de destino. É uma estimativa grossa, mas útil. Retomo os controles de velocidade e observo depois de 8 minutos o círculo de órbita de Anderson Escape surgir diminuto através do vidro frontal. Mais uma estação medíocre em um sistema pobre e anárquico. Por que alguém construiria uma estação tão distante do ponto de entrada do sistema? Do que esse Anderson precisa escapar?

 Intervenção de hiperdrive.

– Ah, sim.

Que se dane isso tudo. Que se dane isso tudo. Sou pego novamente na intervenção e me preparo para o pior.

– Ativar armas.

– Armas ativadas.

Dois segundos depois o radar detecta uma nave solitária. Ela é grande… ela é… uma Federal Dropship! De novo não.

– Saltar! Saltar!

– Não entendi, Comandante.

Os primeiros lasers atingem meu escudo. Preciso me acalmar. Será a mesma Dropship? Preciso falar com calma.

– Saltar.

– Salto cancelado. As armas estão ativadas.

Perco meus escudos e 2 por cento de funcionamento do casco.

– Oh, droga! Desativar armas.

– Armas desativadas.

– Saltar.

Fugi. Dessa vez fugi mesmo. Que se dane! Eu não posso com uma Federal Dropship. Não é vergonha nenhuma, ok? Perdi um tempo precioso no processo e chego à conclusão que não simpatizo com esse sistema também. Pelo menos tenho tempo de pesquisar e descubro que Anderson Escape possui um mercado negro. Menos mal.

Quando finalmente chego na estação acelero ao máximo para repetir a manobra que fiz em Freeport. Com sorte…

– Scan detectado.

Ah, droga. Recebo multas da estação espacial: uma por transportar ouro roubado, outra por transportar peixe roubado. O que? Ah, não. Não cheguei a tempo. Verifico que perdi uma grana séria por quebra de contrato. O que me resta é pagar as multas, vender as mercadorias no mercado negro e tentar esquecer que tudo isso aconteceu, mas não consigo. O peixe estragado é vendido, mas aparentemente ninguém está interessado em ouro roubado. A população aqui é pequena e vive de mineração também. Não precisam lidar com minério roubado. Eu preciso. Preciso vender toda essa carga no mercado negro mais próximo daqui. Tenho de me livrar disso tudo na primeira estação que puder. Eu tenho uma reputação! Eu precisarei entrar rapidamente e sem ser detectado. Terei de desligar todos os sistemas não-essenciais e correr muito… Eu poderia estar em Styx agora recebendo minha recompensa de 60.000 créditos, mas eu fui ganancioso. Eu fui burro. E agora preciso encontrar outro mercado negro próximo daqui. Eu só conheço um lugar: Freeport. Eu odeio Freeport.

FIM

 

 

 

 

(Quarta parte)

  • Pingback: DIÁRIO DA ELITE: Erro de cálculo()

  • rodrigo

    Que doido, rapaz eu quero mais, dava facil um bom livro de conto, daquele de bolso e com historia fechadinha…. parabains!!!! … Mas o que aconteceu entre você, o ouro e Freeport?

  • Gau, o Gárgula

    Caraca, realmente uma ótima conclusão!
    Todos os textos são excelentes, os clímax bem planejados, o Nix mandou muito bem mesmo nesse Diário de Bordo.
    Agora estou ainda mais instigado a jogar Elite: Dangerous!

  • Agradeço todos os que me parabenizaram e só me registrei agora para esclarecer algumas coisas:

    1- Quando fiz esse diário o jogo estava no beta. Algumas coisas mudaram e muitas melhoraram desde então. Infelizmente Chu Hub não existe mais. Chuif.

    2- Tudo o que foi relatado aconteceu realmente no jogo. Eu só dividi as partes.

    3- Nessa última parte do texto em que falo sobre Anderson Escape, leia “segundos luz” ao invés de “anos luz”. Foi um descuido meu. Sorry.

    4- Para manter os ganchos e o tamanho das 5 partes eu dividi o diário em 5 pedaços e reorganizei a ordem. Prestem atenção nas datas estelares.

    5- Se vocês quiserem ter uma pequena mostra de como é a voz da I.A., eu fiz um pequeno vídeo com o primeiro teste de feedback dela aqui: http://youtu.be/DfnaUg0tEwQ

    • Rafael Rigon Maier

      Rapaz, se tu fizer steamings desse jogo…

  • Rafael

    sério, essa é a melhor parada que vcs já fizeram no Overloadr, que tenha mais, POR FAVOR!