Vancouver, meados de julho de 2014. Uma das noites mais quentes do ano resolveu cair justamente num sábado. Resultado: restaurantes e bares de Downtown, todos lotados. Essa diferença gritante entre estações do ano é algo que eu nunca tinha vivenciado no Brasil, mas aqui no Canadá ela influencia praticamente tudo: os planos de férias, o humor das pessoas, as opções de lazer. Alguns comerciantes fecham as portas durante o inverno por falta de clientela. Bandas de rock evitam turnês pelo país em dezembro e janeiro.

Já esperando que as ruas do centro estivessem apinhadas como um formigueiro nessa noite quente de sabadão, minha esposa e eu escolhemos o nosso cantinho preferido em Yaletown para jantar com um casal de novos amigos. Ela, uma dona-de-casa que conheceu a minha esposa em uma convenção sobre o hobby que ambas compartilham: colecionar bonecas japonesas Blythe. Ele, um profissional com 15 anos de experiência na indústria do cinema.

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BlytheCon Seattle 2014: Convenção de Colecionadores de Bonecas Blythe

Não demorou muito para que os dois homens da mesa, pouco interessados em discutir as bonecas cabeçudas, descobrissem que tinham muito em comum, devido às suas carreiras em áreas semelhantes. Quinze minutos de conversa fiada e duas taças de vinho depois, meu novo colega finalmente se sentiu à vontade para falar de um assunto que o estava incomodando.

Há alguns anos, confessou, ele vinha questionando para si mesmo, em uma espécie de “crise de meia-carreira”, o real valor das nossas profissões enquanto provedores de entretenimento. Na sua concepção, o legado que ele estava deixando para a humanidade através do seu trabalho tinha um valor insignificante quando comparado, por exemplo, ao de médicos, engenheiros e cientistas, que na opinião dele exerciam um papel muito mais fundamental na sociedade. Salvar vidas, construir coisas, avançar o conhecimento humano – meu colega estava sendo atormentado pela noção de que essas atividades eram infinitamente mais importantes para o mundo do que a sua própria contribuição, na forma de filmes, de entretenimento.

Não há dúvidas que esse seja um questionamento bastante válido, mas apresentei a ele alguns argumentos contrários aos seus que acabaram tornando a nossa discussão bastante acalorada. Esse episódio me instigou a pensar mais sobre o assunto, e eventualmente escrever sobre ele.

* * *

A busca pelo auto-entretenimento, bem como o prazer em promover a diversão de terceiros, são aspectos observados na humanidade desde o tempo antigo. Na era medieval, o bobo da corte era considerado um personagem fundamental na sociedade, gozando de privilégios junto à realeza e exercendo um papel crucial de apoio moral durante as guerras e momentos de maior crise. Diz a lenda que, durante a Guerra dos Cem Anos, o bobo do Rei Philippe VI da França era o único membro de sua corte a quem era permitido conversar com o monarca. Coube a ele dar ao Rei a terrível notícia da derrota de sua frota marítima, dizendo: “os marinheiros ingleses nem mesmo tiveram colhões para se jogarem ao mar como os nossos bravos franceses”.

A importância do ato de brincar e da busca humana pelo auto-entretenimento também é o argumento central do livro Homo Ludens. A obra seminal de Johan Huizinga, também citada aqui no Overloadr no artigo sobre a palestra da Kellee Santiago no SBGames 2014, estabelece o ato de brincar ou jogar como um comportamento natural e instintivo do homem e de outros mamíferos, e um componente necessário para a existência da cultura e, por extensão, da civilização.

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Cabe salientar também que o ser humano é uma criatura insatisfeita por definição, um ponto amplamente discutido na literatura de psicologia. Não importa o quanto as suas necessidades mais básicas estejam sendo supridas, sempre haverá algo a almejar, algum objetivo fora do alcance a ser buscado. Esse eterno anseio é parte do que nos faz humanos e um fator fundamental da nossa motivação para viver. Uma das teorias mais aceitas sobre esse assunto é a Hierarquia das Necessidades de Maslow: a classificação das necessidades humanas em formato de pirâmide, na qual o nível mais baixo representa os requisitos fundamentais para a sobrevivência do homem, e cada nível superior denota anseios menos básicos, mais “supérfluos” do que os abaixo.

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Pirâmide de Maslow, uma classificação hierárquica das necessidades humanas

Abraham Maslow argumenta que o ser humano, ao sentir que as necessidades de uma camada mais básica foram supridas, imediatamente anseia pela realização dos objetivos da camada superior. Da mesma forma, a falta repentina de realização de uma necessidade mais básica torna muito difícil ao indivíduo se dedicar a saciar os desejos mais altos. Na maioria dos casos, diferentes aspectos da vida de uma pessoa se enquadram em níveis distintos da pirâmide: por exemplo, seus desejos de estima pode estar perfeitamente saciados no âmbito profissional (respeito e confiança dos colegas, amizades no trabalho) enquanto que no lado pessoal as necessidades de segurança ainda estejam subdesenvolvidas (falta de casa própria, dinheiro, saúde).

Em uma análise mais direcionada da teoria de Maslow, podemos propor que as duas camadas mais baixas sejam agrupadas sob o termo “sobrevivência”: são as necessidades mais fundamentais, sem as quais não é possível a vida em sociedade com um mínimo de saúde física e mental. Podemos inclusive argumentar com alguma propriedade que a terceira camada de baixo para cima, Amor e Relacionamento, seja também enquadrada entre as necessidades de sobrevivência. A conclusão a que chegamos com esse pensamento é que os dois níveis superiores representam a nossa busca humana por viver e não apenas sobreviver. E é exatamente nesses níveis que o entretenimento tem um papel crucial como fim – proporciona conquista, melhora a auto-estima, promove a espontaneidade, criatividade e solução de problemas, explora questões de preconceito e moralidade. E eu ainda iria mais além: como meio, as formas de entretenimento como os games podem servir às camadas mais básicas, promovendo o reforço da amizade e das relações sociais, e melhorando a saúde mental.

Imagine um mundo onde todos são médicos, cozinheiros ou coveiros; onde as únicas profissões existentes são aquelas que proveem os serviços mais básicos, aquelas consideradas mais “valiosas”. Provavelmente, as chances de sobrevivência mínima de cada ser humano seriam maiores, mas de que adiantaria apenas sobreviver sem viver? De que valeria a vida prolongada sem um propósito para ela, sem os valores que transformam a luta por sobreviver no prazer, alegria, angústia, desespero, decepção, realização de viver?

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Equilibrium (2002), um mundo distópico onde todos (sobre)vivem muito bem, obrigado

Enfim, todos esses argumentos servem para me convencer de que o papel do provedor de entretenimento na sociedade é tão fundamental quanto o de tantas outras profissões, e deveria ser motivo de orgulho e motivação para que nós, profissionais dessa área, entreguemos ainda mais obras maravilhosas à humanidade. Espero que, depois da nossa acalorada discussão em uma noite igualmente quente de verão canadense, meu amigo cineasta já consiga dormir um pouco melhor à noite.

Sobre o Autor

gilliard-lopesGilliard Lopes é produtor dos games da série FIFA na Electronic Arts, em Vancouver, Canadá, e colabora de forma independente com o Overloadr, além de participar do PodQuest, um podcast sobre desenvolvimento de games na indústria internacional. As opiniões expressadas aqui são unicamente do autor e não representam necessariamente a visão da Electronic Arts ou do Overloadr.

  • rodrigo

    inspirador

  • Odilon Junior

    Que texto, cada vez que leio um post novo do Gilliard aqui eu vejo que ta faltando texto no podquest =D

  • Gabriel Pinheiro

    Sem dúvida, a melhor curadoria de fotos para capa de matérias. Fazendo jus aos textos, por sinal. Obrigado por compartilhar com a gente tanta coisa foda!

  • Antonio Carlos Bleck Bento

    Texto sensacional, a referencia a Equilibrium fechou com chave de ouro

  • Gustavo Freitas

    Muito bom exposto. Acredito que todas as profissões, em algum momento, influenciam na piramede de maslow de outrem.

    Não existe trabalho inutil.

  • Guilherme

    Simplesmente sensacional, Gilliard. Eu havia pensando muito sobre isso, mas através deste texto pude aprimorar minha visão em relação a indústria.

  • Raff Ribeiro

    Ótimo ponto de vista, obrigado!

  • É evidente que existem pessoas, profissões, carreiras e áreas do conhecimento mais relevantes para a humanidade do que outras. Refutar isso me parece apenas um ledo exercício de auto-engano… ou auto-indulgência.

    • Gilliard Lopes

      Fiquei curioso para saber a quais profissões você se refere, e qual critério poderia ser utilizado para determinar suas relevências relativas. O artigo trata especificamente do provedor de entretenimento, e talvez o argumento possa até ser extrapolado para outras profissões por associação, caso o leitor as conheça melhor do que eu. Não houve nenhuma pretensão minha de falar de outras carreiras das quais não sei nada.

      Sobre pessoas serem mais relevantes que outras, dentro de determinada profissão ou não, também não foi falado nada no artigo.