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Aquela porta. Por trás daquela porta, uma escada sobe espiralando até o quarto do Lalande.

Era meu quarto, e mesmo assim já precisei arrombar o baú dentro dele usando uma tesoura. Não fez muito sentido na época, mas conheço o quarto, conheço a escada, conheço a porta. Perto dela agora tem outra, diferente. É mais nova, coberta de espelhos além da esperada tinta branca e dourada. Mesmo assim consigo imaginar o que vou encontrar do outro lado: uma janela com vista pro telhado.

Reconheço aquele ângulo do telhado e a primeira porta, mesmo sem ter visto os dois antes. Ou melhor, vi sim: uma réplica, uma simulação. Telhado e porta feitos de bytes e pixels de um vídeo comprimido num monitor CRT em 1998, no jogo Versailles 1685.

Conhecia aquele ângulo do telhado e conhecia a primeira porta, mesmo sem ter visto os dois antes. Ou melhor, tinha sim: uma réplica, uma simulação. Telhado e porta feitos de bytes e pixels de um vídeo comprimido num monitor CRT em 1998.

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Essa sensação engraçada de conhecer cada sala antes de pisar nela se repetiu várias vezes ali. Procurando com cuidado a falha no papel de parede daquele salão que disfarça uma portinhola oculta, a pintura no teto de outra sala com uma data que serviu de senha pra algum segredo — qual desses painéis de espelhos abre para aquele outro quarto mesmo?

Fora do CRT tem essa nova e inesperada porta impedindo meu caminho até a vista do telhado, e uma foto de lá seria massa. Não devia abrir, tem uma barreira na frente, daquelas que usam pra organizar filas, mas eu preciso confirmar o que tem depois dela. Não podia, mas, como Neil Gaiman me ensinou, o segredo é fingir ser uma pessoa que pode abrir a porta, e abrir. Do outro lado encontrei exatamente o que esperava: janela e telhado.

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Tropecei naquele jogo desconhecido numa lojinha de material de informática que já fechou faz tempo. Por acaso, era o dia do meu aniversário de dez anos. Não fosse nesse dia, provavelmente nunca teria conseguido o jogo. Não fosse o jogo, não conheceria todas aquelas portas, salas e pinturas. Não fosse conhecer, dificilmente teria, 14 anos depois, separado um dia só pra visitar aquele prédio.

Nesses 14 anos tive tempo de conhecer vários outros prédios, pesquisar mais um monte, e acabei colocando um pouco deles nos meus próprios bytes e pixels. Uma vez foi o Kremlin de Moscou, em outra, dois palácios em ruínas no Deserto da Síria. Mesmo nas construções inventadas, impossíveis com suas portas não euclidianas e cheias de criaturas fantásticas, alguma coisa eu peguei desses prédios, feitos de pedra e tinta e vidro, como o Versailles.

mauricioSobre o autor

Mauricio Perin é designer visual freelancer, ajudou a fundar a Aduge e a Zueira Digital e foi diretor de arte do jogo Qasir al-Wasat. Só zerou Versailles 1685 vários anos depois porque a versão pt-br era bugada no final.

 

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31 Gaems é uma série de 31 textos, escritos por 31 autores, sobre 31 jogos. Além da publicação no Overloadr, os ensaios também farão parte do app/zine Glitch Gazette, em desenvolvimento por André Asai, do Loud Noises.

Leia os outros ensaios do 31 Gaems já publicados no Overloadr:

Super Metroid – simulador de sobrevivência solitária – Thais Weiller
Super Mario Bros. 3 – entretenimento e magia – Marcos Venturelli
We Love Katamari – mas eu amo um pouquinho mais que você – Karen “bitmOO”
Warcraft III – herói sem luzinha – Lucas Molina
A densa névoa de Kentucky Route Zero  George Schall
Streets of Rage 2: Ruas da Treta  Danilo Dias
Não preciso de vida, já tenho Mass Effect – Bárbara Bretanha

Super Mario Bros.: The Zoeira Levels  Thiago “Beto” Alves
Skyrim: O Dovahkiin desperta
 – Eduardo Emmerich
Pocky & Rocky 2: shmup sem navinha – Amora Bettany

  • Alex Palomino

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