Eu não saberia dizer que dia da semana era, apenas que estava fazendo muito calor. Me sentia um pouco culpado pois eu deveria estar lá fora mas a empolgação de abrir aquela caixa era grande demais. Eu não iria poder jogar enquanto não voltasse pra casa, mas eu podia ler o livro de regras, eu podia ler uma compilação de histórias de UFOs que acompanhava o jogo, não que entendesse inglês suficiente para isso.

Não lembro exatamente porque escolhi X-COM, tinha lido em algum lugar que o primeiro tinha sido sensacional e esse no fundo do mar só poderia ser melhor. Pela caixa eu vi que você comandaria um esquadrão e montaria uma base para caçar aliens escondidos em nossos oceanos e aquilo era tudo o que eu precisava ouvir. Entrar numa loja cheia de jogos era uma experiência incrível, sair com um de lá era mais do que poderia esperar. Eu já adorava aquele jogo.

Paro de novo e penso que deveria ir para a piscina ou praia  algumas das garotas lá eram bem bonitas. Não que isso fosse mudar nada já que eu era o único adolescente acompanhado da mãe. Na verdade eu era o bode expiatório, minha mãe sempre quis ir à Disney e em 95 minha família teve dinheiro suficiente pra me usar como desculpa. Mas eu olho o mar pela sacada e só consigo pensar em todos os aliens submersos.

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348915-x-com-terror-from-the-deep-playstation-screenshot-deployingNosso computador não estava mais em casa, tinha sido levado para a gráfica pois finalmente iríamos instalar aquele software do Sebrae de controle de pedidos. Não fiquei decepcionado, sabia que isso ia acontecer e eu podia esperar… um pouco. No fim de semana seguinte, Daniel me convidou para passar o sábado na casa dele e, como sempre, iríamos jogar videogame e futebol. Torci para que chovesse e avisei que levaria o jogo novo que trouxe da viagem.

Eu, Daniel e nossos irmãos estávamos enfileirados em frente ao computador. A primeira coisa a fazer logo depois do cinematic é escolher um lugar para a primeira base e eu lera nas regras que o mar do Japão era um bom lugar para começar e foi o que fizemos. O nome da base foi Daniel que escolheu: Vaca H. É claro que rimos, é dessas coisas que você ri quando tem 14 (eu ainda nomeio algumas coisas como Vaca H).

Passamos as próximas duas horas tentando entender como o jogo funciona porque eu claramente só tinha entendido uns 15% daquele livro de regras, mas eu gostava disso, de explorar o sistema até as regras fazerem sentido, eu gosto do Messhof desde antes de Nidhogg. Passada a confusão inicial, já tínhamos uma segunda base: Wrengobrengo.

As coisas agora faziam mais sentido, eu tinha de expandir minhas bases mas tinha que manter os custos sob controle, eu tinha de escolher se iria dedicar meus cientistas à pesquisa de novas armas para os interceptores ou para meus soldados e a sensação de estar sempre desprotegido contra o desconhecido só colocava mais pressão nesse ciclo, era incrível. Voltei para casa sem saber que só tinha visto uma pequena fração do jogo.

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O caminho da minha casa para a do Luiz envolvia descer a avenida Ceará de bicicleta. Dava pra ver boa parte de Campo Grande e eu gostava muito desse cenário. Nesse dia em especial uma gigantesca nuvem de chuva se formava por trás dos prédios do centro. X-COM estava na mochila, então era bom eu me apressar. Já havia mais de um ano desde a fundação de Vaca H e Wrengobrengo, mas não tinha jogado nada que tivesse capturado tanto minha imaginação e interesse.

Luiz era um dos meus melhores amigos no segundo grau e nós compartilhávamos o mesmo gosto por videogame e música. Eu adorava poder dividir meu jogo favorito com meus amigos do mesmo jeito que eu fiz todo mundo ouvir Smashing Pumpkins nessa época. Especialmente por ser turn-based, X-COM era um pouco mais social, dava pra tomar decisões coletivamente e isso fazia tudo mais legal.

Começamos do zero e a primeira base tinha um nome genérico, mas trocamos os nomes de todos nossos soldados pelos de nossos artistas favoritos. Tinha o Kurt Cobain e o Eddie Vedder, tinha a Courtney Love e a D’arcy Wretzky. As primeiras missões foram um sucesso e em pouco tempo tínhamos trocado todas nossas armas por Gauss Rifles e Gauss Cannons. Já era de noite e a confiança estava alta.

2733-x-com-terror-from-the-deep-dos-screenshot-islands-are-one-ofDe volta para a base, fomos surpreendidos com a mensagem “Aliens estão aterrorizando áreas civis”. O alvo era Wellington, eu não tinha entendido muito bem o que acabara de acontecer mas enviamos nosso melhor esquadrão para lá. A missão era numa espécie de vilarejo no litoral, fora d’água! Não sei se consigo descrever minha surpresa, pois até então só tinha caçado aliens em escombros submersos. Eu não fazia ideia que sequer havia arte para grama, árvores e casas.

A situação era completamente nova e nossos soldados até estavam sem os escafandros. Uma granada deixou Kurt Cobain sangrando e inconsciente mas eu já tinha gasto o único Medkit do esquadrão. Eddie Vedder correu para tentar neutralizar o agressor mas até encontrar o alien escondido entre as sombras das palmeiras, três turnos se passaram. Kurt Cobain morre e algum outro soldado entra em pânico, atirando para todo lado e matando D’arcy no processo.

Tínhamos perdido alguns dos nossos melhores soldados, mas ganhamos uma história da qual conversaríamos por um bom tempo.

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Em 97 passei a ajudar meus pais na gráfica. Eu vetorizava imagens no Corel Draw e ganhava um dinheirinho que eventualmente seria convertido num baixo e num Nintendo 64. Algumas tardes eram tranquilas o suficiente para continuar minha campanha no X-COM embalada ao ritmo das impressoras e do cheiro de tinta.

Eu continuava a encontrar missões e situações completamente novas, novas raças de aliens como o Lobster Man e desenvolvia armas que pareciam mudar tudo. Era como seu eu continuasse a mergulhar e ainda não achasse o fundo.

Eu amava a aparente falta de estrutura do jogo, e sentia como se o jogo tivesse regras para a geração de atividade dos aliens, algumas regras de como eu poderia intervir e pronto, o resto era com o jogador.

x-com

X-COM: Terror from the Deep não era sobre um herói e sua historia, sobre como cada fase contava parte de sua narrativa e como a luta com o chefão final seria catártica. Era sobre mim, sobre minhas bases e os soldados que eu nomeava, sobre as grandes escolhas que eu fazia acerca do que eu queria pesquisar e sobre as pequenas escolhas que fazia a cada movimento do meu esquadrão.

Eu estava dentro daquele sistema e estava tecendo a história junto dessas regras. Apenas eu tive o Coronel Eddie Vedder e sua acurácia lendária, mas sabia que no mundo cada um teve sua história. Videogames não precisavam ser filmes, eles eram melhores que isso.

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Em 2012 eu amava meu trabalho, era produtor de um MMO que eu adorava mas que não teve sucesso comercial e em agosto a Junebud, empresa que trabalhava na Suécia, teve de pedir falência.

Sem saber muito bem o que fazer e entre uma entrevista e outra, peguei o trem para Cologne a fim de conversar com algumas empresas na Gamescom. Estava sendo um mês difícil e os diálogos lá estavam infrutíferos. Mas a Firaxis estava na exposição e Malu, minha esposa, estava comigo o tempo todo. Peguei-a pela mão e fomos jogar XCOM: Enemy Unknow, Eu tinha alguém especial para dividir um dos meus jogos favoritos. A vida iria ficar melhor.

 

ivan-garde-thumbSobre o autor

Ivan Garde é Game Lead na Wooga em Berlin, Alemanha. Junto com um time de gente de tudo quanto é país ele está tentando criar um hit para mobile, mas até agora só conseguiu assassinar uns quatro protótipos.

 

 

 

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31 Gaems é uma série de 31 textos, escritos por 31 autores, sobre 31 jogos. Além da publicação no Overloadr, os ensaios também farão parte do app/zine Glitch Gazette, em desenvolvimento por André Asai, do Loud Noises.

Leia os outros ensaios do 31 Gaems já publicados no Overloadr:

Super Metroid – simulador de sobrevivência solitária – Thais Weiller
Super Mario Bros. 3 – entretenimento e magia – Marcos Venturelli
We Love Katamari – mas eu amo um pouquinho mais que você – Karen “bitmOO”
Warcraft III – herói sem luzinha – Lucas Molina
A densa névoa de Kentucky Route Zero  George Schall
Streets of Rage 2: Ruas da Treta  Danilo Dias
Não preciso de vida, já tenho Mass Effect – Bárbara Bretanha

Super Mario Bros.: The Zoeira Levels  Thiago “Beto” Alves
Skyrim: O Dovahkiin desperta
 – Eduardo Emmerich
Pocky & Rocky 2: shmup sem navinha – Amora Bettany
Como abri uma porta que não existia em Versailles 1685 – Mauricio Perin

  • Tais

    quanto texto bom, viu! uma das melhores coisas do site :)))

  • Ótimo texto! Sobre X-COM, joguei o Enemy Unknow ao lado da minha namorada durante as férias de dezembro. Assim como o jogo desse texto, ele também é baseado em turnos o que facilita a jogatina em dois. Entre os momentos mais memoráveis, estão uma “briga” que tivemos por conta da estratégia que um tomou, fazendo que soldados valiosos como Coxinha, Páprica e Curry (demos nomes de alimentos para nossas tropas) morressem em campo. Apesar disso, curtimos DEMAIS X-COM: Enemy Unknow