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Capa japonesa de Kiki Kaikai: Tsukiyozōshi

O segundo jogo da série Kiki Kaikai que a Natsume fez, com o subtítulo Tsukiyozōshi, conta a história da pequena sacerdotisa Sayo, que, junto com seu amigo Manuke, precisa derrotar demônios usando elementos típicos do xintoísmo, como cartões de Ofuda e um bastão de Oharai.

Esse foi um dos jogos que mais joguei na vida, mas eu não sabia de nada disso até poucos anos atrás. Pra mim sempre foi Pocky & Rocky 2, aquele jogo da menina porra-louca que atira cartinhas, se defende com um varinha mágica e tem um guaxinim meio tosco (que era sempre o meu irmão quem controlava).

Quando o Rique e o Asai me convidaram para escrever sobre algum jogo que tivesse sido importante pra mim, é claro que o primeiro que me veio à mente foi The Legend of Zelda: Ocarina of Time. Se você me conhece pessoalmente, provavelmente deve ter reparado que sou meio Zelda freak: tatuagens, bolsa, colarzinho, mochila, tudo de Zelda. Mas Pocky & Rocky 2 foi importante de outras maneiras, e achei que faria mais sentido falar sobre ele porque os efeitos que Zelda OoT tiveram sobre mim já são conhecidos por mais ou menos 80% do restante das pessoas que cresceram jogando videogame.

Muitos dos meus amigos dizem que o primeiro Pocky & Rocky (que na verdade é o segundo Kiki Kaikai, ou terceiro se for contar a segunda versão do primeiro – confuso?) é muito melhor, e realmente, hoje vendo com olhos de desenvolvedora chata de jogos, concordo. Ele é mais direto, muito mais desafiador e tem umas mecânicas a mais como escorregar no chão (mas sempre tentando não esbarrar no amiguinho senão dá ruim) e jogar bombas. Mas não consigo ver nele o charme e a delicadeza do segundo, sem contar que a trilha sonora nem se compara. Recomendo jogar os dois e tirar suas próprias conclusões. Só não consigo falar do primeiro, de arcade, porque nunca joguei.

Quando eu era criança, só alugava jogos “de dois” porque jogava com o meu irmão mais novo, o Marcelo. Só no final dos anos 90, com jogos como Super Mario 64, Banjo-Kazooie e claro, Zelda OoT, foi que a gente aprendeu a magia de jogar “de um”, com o outro só assistindo e palpitando (e de vez em quando tomando o controle à força).

A primeira vez em que vi a fita do Pocky & Rocky 2 foi numa Blockbuster aqui de São Paulo. Meu pai ia olhar filmes e deixava a gente na seção de Super Nintendo. Lembro de segurar a capinha e gostar do desenho, pois era assim que sempre escolhia o jogo que levaria pra casa. Lá só tinha o 2, mesmo.

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Capa americana de Pocky & Rocky 2

Não consigo dizer exatamente como foi nossa primeira experiência com o jogo, mas tenho certeza de que adoramos, pois foi um dos que mais alugamos de novo depois, junto com Goof Troop, The Pirates of Dark Water e The Great Circus Mystery Starring Mickey and Minnie. Na época, eu não sabia as diferenças de gameplay entre esses jogos, pra mim eram todos sobre andar pela fase e destruir inimigos, mas com personagens e histórias diferentes.
Mal sabia eu que, apesar de detestar ~jogos de navinha~, na verdade estava jogando (e ADORANDO) um.

Em Pocky & Rocky 2, o player 1 é sempre a Pocky, e o player 2 pode escolher entre três outros personagens. Esse segundo personagem tem uma habilidade única que pode ser usada quando combinado com o player 1, virando uma Pocky estranha, controlada por duas pessoas. Se a combinação foi com a Little Ninja, agora a Pocky pode abrir baús sem precisar de chaves. Se foi com o Bomber Bob, pode levantar rochas etc. Mas claro, não dá pra ficar muito tempo assim e a personagem morre se os jogadores não voltarem às suas formas originais depois de alguns segundos. A jogabilidade do segundo player também é um pouco diferente da do primeiro, pois sua mira é fixa e sua vida não tem valor nenhum. Pode morrer à vontade, voltando logo em seguida, sem punição (tem até fases em que o segundo jogador nem entra). A vida que conta mesmo é da Pocky e, se ela morre, o segundo personagem morre junto. Então dá pra imaginar o tamanho da responsabilidade que é ser a Pocky e o porquê de eu não querer deixar isso para o meu pequeno irmão (que, na verdade, eu tinha medo de que seria uma Pocky muito melhor do que eu).

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Tela de seleção de personagens de Pocky & Rocky 2

Eu gostava de ser a personagem principal e poder ser uma personagem feminina ao mesmo tempo. Isso era muito raro. Eu não sabia o significado da palavra “representada”, mas era isso que sentia. Eu era a menina e eu estava no poder.

O jogo conta com várias personagens femininas, aliás. Além da Pocky como personagem principal e da Princesa Luna (que claro, foi sequestrada e precisa ser resgatada), tem a Little Ninja como uma das opções de player 2 e a Impy como uma miniboss muito importante.

Hoje em dia sei que isso é até que bem comum para jogos japoneses, principalmente cute ‘em ups, mas pra mim isso na época era incrível. Eu não tinha acesso ao maravilhoso universo japonês dos jogos e animação, era tudo filtrado pelo ponto de vista americano antes de chegar nas minhas mãozinhas, ou nem chegava. Estava assistindo à Pequena Sereia enquanto do outro lado do mundo existiam princesas infinitamente mais badass como a Nausicaä, do Hayao Miyazaki. Os americanos não viam com bons olhos personagens femininas com alguma atitude. Pra você ter uma ideia, o Kiki Kaikai (primeiro jogo da série, pra arcade, antes de ser da Natsume) foi traduzido como Knight Boy.

Sim, BOY.

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Personagem feminina vira um garoto na capa da versão americana

E na capa do Pocky & Rocky 2, a Little Ninja é retratada como um moleque.

Shinobi sem seu cabelão e lacinhos, tudo para o jogo parecer mais “de menino”. Pra quê, né? Provavelmente pelos mesmos motivos babacas que os levaram a colocar uma cara de bravo no Kirby e uma pistola na mão do Mega Man. Mas admito que sou grata por esses jogos terem sido ao menos adaptados para inglês e chegado aqui.

De qualquer maneira, eu nunca entendia nada do que estava sendo falado. Eu gostava de criar as histórias dos jogos na minha cabeça, como tantas outras crianças faziam. Traduzia uma palavra ou duas e inventava o resto pro meu irmão, que acreditava em tudo.

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Fanart minha de 2005 da Pocky

A cultura também era uma barreira. Não tinha como eu saber o que eram aqueles papeizinhos que a Pocky jogava, por exemplo. Hoje em dia, o que é obviamente uma homenagem ao folclore japonês e ao xintoísmo, era, na época, completamente nonsense pra mim. Lembro de ter retratado a Pocky como uma viciada em jogos de carta num fanzine que esbocei no começo da minha adolescência, que só estava indo atrás da princesa porque a recompensa em dinheiro era muito generosa.

Uns 10 anos atrás um amigo encontrou a fita de Pocky & Rocky 2 à venda na Santa Ifigênia, aqui em São Paulo, por R$ 35 e me ligou correndo pra avisar. Fui comprar no mesmo dia e a tenho até hoje. O jogo é referência para inúmeras de nossas decisões sobre game design na MiniBoss e ano passado até fizemos um jogo de game jam baseado nele, chamado Kiki and the Monster.

De vez em quando jogo Pocky & Rocky 2 de novo e devo dizer que depois de velha ficou bem mais fácil zerar, apesar de às vezes ainda empacar na fase do dragão.

 

 

Sobre a autora

amoraAmora Bettany é co-fundadora da MiniBoss, equipe independente responsável pelo jogo Out There Somewhere e pela arte dos jogos TowerFall e Skytorn.

Imagem de capa: Vincent Batignole

 

 

 

 

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31 Gaems é uma série de 31 textos, escritos por 31 autores, sobre 31 jogos. Além da publicação no Overloadr, os ensaios também farão parte do app/zine Glitch Gazette, em desenvolvimento por André Asai, do Loud Noises.

Leia os outros ensaios do 31 Gaems já publicados no Overloadr:

Super Metroid – simulador de sobrevivência solitária – Thais Weiller
Super Mario Bros. 3 – entretenimento e magia – Marcos Venturelli
We Love Katamari – mas eu amo um pouquinho mais que você – Karen “bitmOO”
Warcraft III – herói sem luzinha – Lucas Molina
A densa névoa de Kentucky Route Zero – George Schall
Streets of Rage 2: Ruas da Treta – Danilo Dias
Não preciso de vida, já tenho Mass Effect – Bárbara Bretanha

Super Mario Bros.: The Zoeira Levels – Thiago “Beto” Alves
Skyrim: O Dovahkiin desperta
Eduardo Emmerich

  • Platynews

    O Dwayne McDuffie (escritor de metade dos episodios do desenho da Liga da Justicça) tem algo que ele chama de “Regra dos 3” sobre como se tiver em destaque 3 personagens de uma minoria aquilo vira um produto de minoria.
    https://www.youtube.com/watch?v=u16sKK-1oLQ
    Mas quanto mais eu penso mais isso se encaixa em exemplos de mudanças de sexo/raça em localização de jogos

  • metasexual

    AMORAAAAAAA

  • Samuel Madeira

    Excelente jogo e mais excelente ainda o texto. Fale mais sobre outros jogos que você gosta e eu tirarei meus 10 minutos para lê-los com todo prazer 🙂

    • Amora Bettany

      Muito obrigada!

  • Hernesto Vautero

    Esse (ou outro da série, sei lá) foi um dos primeiros jogos que joguei no snes, até hoje não sabia o nome.