O puxadinho no fundo do quintal. O segundo andar da casa com um quarto só e quatro membros. Na época, o primo caçula ainda era bebê. O cheiro do amaciante da roupa recém-lavada e estendida no quintal da vovó, logo ali embaixo. Os gritos da mãe, sobre horários e refeições que já estavam esfriando.

O cheiro do cigarro do impaciente tio, apaziguado pela mão da carinhosa tia. “É a última vez, tem certeza que quer tentar?”, disse o tio, já tirando o controle da minha mão. Devo ter olhado para ele com meus olhos grandões. Pontuou, constantemente, em diversas situações, que eu era muito metida a sabichona. Que usava palavras difíceis desde pequenina. Lembro quando falei que era politicamente incorreto um tio tirar o controle da mão da sobrinha. Lembro da gargalhada e da pose de dono da bola.

Eu tinha nove anos.

Não era toda vez que jogava com a gente, mas parecia que não queríamos chegar ao final sem a presença dele. Esperávamos. Morríamos um pouco mais quando não estava perto, talvez por fruto da falta de experiência da tia, do primo e da minha. No fundo da cabeça, sei que não era verdade.

Lembro de falar para a mãe que nunca fui com a cara do tio, algo despertado também no fundo da cabeça. Sabia que alguém me achar espertinha demais não era coisa boa. Normalmente achavam bonitinho. Como alguém acharia ruim?

Os sorrisos do tio para a tia quando um passava a vez para o outro. Jogavam melhor que eu e o primo. Ficávamos na torcida, quando passavam de fase parecia que era a gente. Os alívios cômicos do emburrecido patinho serviam como pausa para o tio tentar imita-lo sincronizadamente. Não era nada parecido.

Chegou até o fim um dia. O patinho salvou a patinha do mago malvado. Foi no templo, depois da fase na mansão, a mais difícil de passar. Chovia bastante e a mãe disse que podia ficar até mais tarde para não pegar a chuva do caminho curtíssimo entre um puxadinho e o outro.

O tio não estava junto.

Você não está mais junto.

Julianna-isabelle_Sobre a autora

De curadoria para portais de jogos Flash até assistência técnica especializada, Julianna Isabele trabalha em áreas correlacionadas a video games desde seus 16 anos. Atualmente, é redatora para o Grupo NZN e já passou por portais como Brainstorm9 e PlayTV.

 

 

 

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31 Gaems é uma série de 31 textos, escritos por 31 autores, sobre 31 jogos. Além da publicação no Overloadr, os ensaios também farão parte do app/zine Glitch Gazette, em desenvolvimento por André Asai, do Loud Noises.

Leia os outros ensaios do 31 Gaems já publicados no Overloadr:

Super Metroid – simulador de sobrevivência solitária – Thais Weiller
Super Mario Bros. 3 – entretenimento e magia – Marcos Venturelli
We Love Katamari – mas eu amo um pouquinho mais que você – Karen “bitmOO”
Warcraft III – herói sem luzinha – Lucas Molina
A densa névoa de Kentucky Route Zero  George Schall
Streets of Rage 2: Ruas da Treta  Danilo Dias
Não preciso de vida, já tenho Mass Effect – Bárbara Bretanha

Super Mario Bros.: The zoeira levels  Thiago “Beto” Alves
Skyrim: O Dovahkiin desperta
 – Eduardo Emmerich
Pocky & Rocky 2: shmup sem navinha – Amora Bettany
Como abri uma porta que não existia em Versailles 1685 – Mauricio Perin
X-COM: Terror das profundezas (da memória) Ivan Garde
Rez: Nós somos performers eletrônicosHenrique Sampaio
Metal Gear Rising: Valeu, Samuca – Glauber Kotaki

  • Alex Palomino

    Crônica boa. Acho que é o meu favorito.

  • Rodolfo

    O sentimento de um final de semana chuvoso com familiares em meio a Going’ Quackers é algo completamente entendível a mim. Foi numa situação praticamente idêntica (substitua os tios por mais primos) que vi minha prima virar ele.
    Estranhamente na infância, é muito fácil aproveitar esses momentos e não reconhecê-los como tão marcantes. Talvez exatamente por que somos tão mal experimentados do mundo, que essas menores felicidades entram em nós e depois de adultos e mais vividos não as conseguimos reproduzir plenamente.
    Me pergunto se para minha prima, essa era uma lembrança presente, se essa, a fazia se sentir bem também.

  • Charmichael

    NOOOSSSAAA ESSSE JOGGOOO

  • Deu até um aperto na garganta. Texto excelente.
    Aliás toda essa série 31 Gaems é incrível. Uma ideia maravilhosa para se chegar a perspectivas diferentes da abordagem mais tradicional dos joguinhos. Cês são tudo amor <3

  • Eduardo Samoggin

    Super Metroid me traz uma sensação parecida. Um pai de um amigo meu que ensinou a jogar e SEMPRE que a gente estava jogando, ele ficava lá junto, fumando, falando pra gente fazer assim ou assado. Ótimo texto, me fez lembrar essa época.

    PS: Vai VT.