Lá pelos idos de 2000 um amigo muito querido havia trazido o seu Dreamcast em casa para que eu o conhecesse, e lembro com clareza de como e experiência me foi paradigmática: não havia nada no meu N64 que se equiparasse à experiência do console da SEGA. Tá, o controle era muito grande, os tempos de loading também, e não havia nenhum personagem da Nintendo naquele console, mas ele tinha uma intro linda com uma espiral vermelha hipnótica – como não amar?

Eventualmente eu e meu irmão acabamos nos apaixonando pela ideia e nossos pais quiseram nos dar um DC de presente. Por muito tempo eu joguei repetidamente Sonic Adventure e um CD com demos que vinha com o console, já que minha família não era lá muito abastada e era “o que tava tendo (sic)”.

Essa limitação se permaneceu por um bom tempo até que, certa vez, andando pelo centro de Campinas (minha cidade natal), encontrei um camelô que vendia jogos pra Dreamcast e resolvi procurar alguma coisa pra levar pra casa. Lembro-me como se fosse hoje da sensação de ter descoberto uma verdadeira arca do tesouro. Era um guilty pleasure, eu sabia disso, mas havia tanto jogo bacana que acabei levando um monte! Lembro de ter escolhido Sonic Adventure 2, 18 Wheeler Trucker, Crazy Taxi, Shenmue, e acabei levando um por indicação do vendedor. Um jogo do qual eu nunca havia ouvido falar. Ele só me falou que era muito bom e no CD havia as incrições “JGR”.

Decidi levar, afinal.

jet-set-radio-3O jogo era sobre um bando de adolescentes (um pouco mais velhos que eu, na época) que, sofrendo com a repressão policial de Tokyo-to (uma cidade baseada levemente em Tóquio, mas num futuro próximo), resolvia clamar pelo seu espaço nas ruas. Junto à trama principal, você tinha que cuidar de eliminar rastros de gangues rivais que pichavam seu território, tudo isso usando patins e latas de spray.

A mecânica era simples, um gatilho pra acelerar, um botão pra pular e outro pra pichar, enquanto o stick movia os personagens e fazia manobras. Em cada missão, uma gangue diferente cobria seus graffitis e você tinha que “limpá-los” com os seus próprios. O limite de tempo era curto, e a força policial, bruta. Nada, absolutamente NADA impedia os comandantes da polícia de chamarem tanques e helicópteros para perseguir os adolescentes. A história evoluía para a descoberta de uma seita secreta comandada por um grande magnata, Goji Rokkaku, e ela se destrambelhava um pouco, mas nada me impedia de ver o charme inexorável de cada um dos personagens e de me conectar profundamente com cada um, mesmo sem saber de coisa alguma da história pessoal deles. A música tinha uma pegada urbana maravilhosa, e o estilo visual era único. Jet Set Radio (nome que foi levemente alterado para Jet Grind Radio nos EUA) não só tinha sido um dos primeiros jogos a usar cel-shading, mas o havia feito de maneira bem feita.

Era oficial, eu estava apaixonado!

jet-set-radio-2O que eu não sabia, entretanto, era que a experiência de jogo teria uma série de outros desdobramentos afetivos que desembocariam, inclusive, na minha escolha profissional. A minha percepção sobre o espaço urbano e construído sempre foi uma percepção marginal, da exclusão, ou dos que vivem fora do limite regularizado da cidade. Por muito tempo sonhei em visitar Tóquio, me apaixonei pelo industrial wasteland de Kogane e até comecei a estudar japonês. Acabei optando por estudar arquitetura e me focar em ruínas industriais, teorizar sobre os que usam a cidade de maneiras desviadas, obscuras, os que enriquecem o espaço com a ocupação indevida ou impensada na sua concepção: loucos, transeuntes, gangues, tipos que normalmente nos ensinam a evitar.

Acabei me apaixonando pelo estudo da paisagem urbana, e muito disso tenho a agradecer ao cara que me recomendou JGR.

Tempos depois, desisti da vida de arquiteto, mas a arquitetura não desistiu de mim. Acabei, por acaso, começando a trabalhar com desenvolvimento de games, e fui me levando ao caminho independente, pra onde me encontro hoje, focando na criação de cenários. É curioso pensar que, mesmo dentre a infinidade de coisas que já joguei, Jet Grind Radio despontou como uma das minhas principais referências visuais, de jogabilidade e de riqueza de conteúdo.

Me pergunto frequentemente se os motivos de ter-me apaixonado por JGR teriam sido a ausência de referências e leituras/reviews prévios sobre o jogo, ou se, dada a minha situação de adolescente (sob controle parental constante) eu vi no jogo uma possibilidade de libertação. O que mais me importa, entretanto, é que o percurso decorrente do afeto me levou a estar onde eu estou, e isso eu identifico com uma certa clareza. Para alguns, talvez JGR não tenha subsistido tão bem ao envelhecimento e a fórmula tenha encaducado consideravelmente, mas pra mim é um daqueles timeless pieces que merecem ser jogados. A boa notícia é que a versão em full HD, está disponível para compra em qualquer loja online. Enquanto isso, espero pelo dia em que a SEGA lançará Jet Set Radio Future da mesma maneira ou uma sequência oficial para a série.

Ou ainda, de só aprender a andar de patins.

midioSobre o autor

Midio tem 27 anos, é arquiteto urbanista e artista 2D. Trabalha de maneira independente fazendo arte pra jogos (na maioria das vezes em pixel art) focado no desenvolvimento de cenários e backgrounds. Tem ratos de estimação e seu trabalho pode ser encontrado em http://midio.co. Trabalha atualmente em Metro Clash.

 

 

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31 Gaems é uma série de 31 textos, escritos por 31 autores, sobre 31 jogos. Além da publicação no Overloadr, os ensaios também farão parte do app/zine Glitch Gazette, em desenvolvimento por André Asai, do Loud Noises.

Leia os outros ensaios do 31 Gaems já publicados no Overloadr:

Super Metroid – simulador de sobrevivência solitária – Thais Weiller
Super Mario Bros. 3 – entretenimento e magia – Marcos Venturelli
We Love Katamari – mas eu amo um pouquinho mais que você – Karen “bitmOO”
Warcraft III – herói sem luzinha – Lucas Molina
A densa névoa de Kentucky Route Zero  George Schall
Streets of Rage 2: Ruas da Treta  Danilo Dias
Não preciso de vida, já tenho Mass Effect – Bárbara Bretanha

Super Mario Bros.: The zoeira levels  Thiago “Beto” Alves
Skyrim: O Dovahkiin desperta
 – Eduardo Emmerich
Pocky & Rocky 2: shmup sem navinha – Amora Bettany
Como abri uma porta que não existia em Versailles 1685 – Mauricio Perin
X-COM: Terror das profundezas (da memória) Ivan Garde
Rez: Nós somos performers eletrônicosHenrique Sampaio
Metal Gear Rising: Valeu, Samuca – Glauber Kotaki
Donald Duck: Goin’ Quackers: Sobre não estar mais aqui – Julianna Isabele

  • rodrigo

    devolve , este jogo era do Erik Gustavo, alias todas as copias de Jet Set Radio do mundo ..

  • Alex Palomino

    É o cara que fez a imagem do Animal Crossing?
    Oh menino talentoso.

  • Manoel Ricardo

    nossa eu amo de paixão esse jogo também, mas a minha história foi um pouco mais triste: eu sempre queria jogar, SONHAVA com o jogo (sério), mas não tinha com comprar um DC. eu ficava ouvindo a trilha sonora repetidas vezes imaginando as fases, os personagens etc.. fui jogar só depois de anos que lançaram essa versão HD, e acabei comprando duas vezes, pro PS3 e pro Vita 😛

  • Tais

    tenho JSR no steam e, meo, que negócio sofrível pra jogar. fazer a maior parte das manobras é tão difícil que pouca gente conseguiu terminar o tutorial, heh =P super quero ver o Future receber uma versão pra PC também, li que melhoraram bastante coisa em comparação ao antecessor (não ter tempo limite já me ganha).