Eu, como uma grande parcela das crianças que cresceram com videogame e televisão demais, e, principalmente, por pertencer a um perfil privilegiado e imune a muitos tipos de preconceito da sociedade – classe-média, homem, branco, heterossexual e magro – por muito tempo fui um alienado a coisas sociopolíticas. Felizmente, ao decorrer dos últimos anos, fui conhecendo pessoas incríveis que enfim me mostraram que nem tudo são pixels.

Foi mais ou menos na mesma época que ganhei Metal Gear Rising de presente e, para não ser um grande mal-agradecido, joguei de prontidão. E que jogo de ação incrível, que vai se despindo e revelando mecânicas cada vez mais complexas e interessantes, respeitando a inteligência e habilidade do jogador. E quanto mais teatrais suas manobras para cortar e picar seus oponentes, mais recompensado você é – e, obviamente, quanto mais recompensas, maiores as possibilidades, e melhor você se sente.

Bom também era se sentir como o herói da história, o qual possui poder o suficiente para colocar em prática seus pensamentos e opiniões. “Sim, vamos salvar as crianças!”, era o que o Raiden (eu, né?) tinha em mente enquanto passava a lâmina mais afiada do planeta no meio de uns (muitos) caras maus. Parecia razoável, mesmo.

Até o Sam – ah, o Samuca – aparecer. Samuel Rodrigues. Jetstream Sam! Samuquinha já tinha fatiado o Raiden bem feio antes, e agora ia me fatiar também. Nós dois, mas por dentro. Ele começa:

— Vai consertar tudo, só você e sua espadinha aí. […] Todos os ciborgues que você matou até agora, talvez não fossem crianças, mas eles eram pessoas. Você pensa neles, quando os fatia igual hambúrguer?
— […] Eles fizeram a escolha deles.
— […] Ah, claro que eles escolheram isso, bem na linha pontilhada do contrato deles. Muitos já não são estranhos à guerra. Na real, muitos já perderam um braço ou uma perna. Muitos estavam na rua, desempregados, passando fome. Então, sim, inscreveram-se para lutar sabe-se lá onde… Como mais sustentar sua família quando seu país está emaranhado numa guerra civil? […] Mas eles fizeram a escolha deles, certo?

Em seguida, dois desses ciborgues vem ao meu encontro. Enquanto tomam as medidas necessárias (gritar, intimidar, agredir, mobilizar etc.) para lidar com a ameaça iminente – eu – é possível ouvir seus pensamentos: “Por favor, Deus… Não me deixa morrer”, “Eu tenho uma família!”, “Vi minha mulher e filho morrerem… Isso é tudo que me restou”, “Não sabia que teria que passar por isso”, “Tô quase conseguindo o suficiente pra trazer a mãe para os Estados Unidos…”

O jogo volta pro meu controle. Uma sessão que duraria menos de 1 minuto para passar, dadas as minhas habilidades até ali adquiridas durou… uma eternidade. Enquanto você não destrói os dois, o jogo não avança. Sem outra opção, fui lá, mais uma vez usar a espadinha.

— Eu achei que eles tinham uma escolha. Uma escolha justa.

Eu também, Raiden, eu também. E era incrível como a barreira entre eu e o meu avatar – devo mencionar, exatamente na metade do jogo – já havia praticamente desaparecido. Assim como ele teve que abraçar o gosto por sangue enquanto odiava o fato de ser apenas mais uma peça do sistema cumprindo seu papel, eu me sentia numa confusão entre prazer e culpa. O maldito jogo ficava cada vez mais divertido, envolvente e desafiador – ao mesmo tempo que a realidade batia à porta toda vez que eu parava de jogar.

É bizarro imaginar que, em meio a tantos acontecimentos e influências dentro e fora da minha vida pessoal, precisou um jogo resumir tudo em uma cinemática para eu ligar os pontos e entender melhor o mundo, a vida (vai ver é sequela de tanto videogame na infância). E hoje eu faço o que posso por grupos menos favorecidos, marginalizados, discriminados e, principalmente, aqueles que não tem ou tiveram tantas escolhas quanto eu tive, tenho e terei. Seja criticando, discutindo, ensinando ou criando, agora essa é a minha espadinha que corta tudo sem cortar nada.

P.S.: O Samuel é brasileiro.
P.S.2: Quem me deu o jogo é um dos caras mais engajados no assunto que já conheci. Não sei se foi de propósito, mas obrigado.
P.S.3: Pelo menos, depois desse baque, no dia seguinte (quando eu consegui jogar de novo) o jogo me mandou para a melhor luta contra chefão do jogo todo (que por sinal defendia “as leis da natureza”, tipo aquela do mais forte, pra justificar seus atos). Obrigado, também.

Sobre o autor

Glauber Kotaki é artista de pixels e animador para games há mais de 10 anos. Já trabalhou em projetos como Rogue Legacy, Chasm e Duelyst. Ouça o podcast MotherChip #18, com sua participação.

 

 

 

 

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31 Gaems é uma série de 31 textos, escritos por 31 autores, sobre 31 jogos. Além da publicação no Overloadr, os ensaios também farão parte do app/zine Glitch Gazette, em desenvolvimento por André Asai, do Loud Noises.

Leia os outros ensaios do 31 Gaems já publicados no Overloadr:

Super Metroid – simulador de sobrevivência solitária – Thais Weiller
Super Mario Bros. 3 – entretenimento e magia – Marcos Venturelli
We Love Katamari – mas eu amo um pouquinho mais que você – Karen “bitmOO”
Warcraft III – herói sem luzinha – Lucas Molina
A densa névoa de Kentucky Route Zero  George Schall
Streets of Rage 2: Ruas da Treta  Danilo Dias
Não preciso de vida, já tenho Mass Effect – Bárbara Bretanha

Super Mario Bros.: The zoeira levels  Thiago “Beto” Alves
Skyrim: O Dovahkiin desperta
 – Eduardo Emmerich
Pocky & Rocky 2: shmup sem navinha – Amora Bettany
Como abri uma porta que não existia em Versailles 1685 – Mauricio Perin
X-COM: Terror das profundezas (da memória) Ivan Garde
Rez: Nós somos performers eletrônicosHenrique Sampaio

  • Poxa, amei o texto.
    Parabéns

  • Alexandre Lima

    Caraca… deu até vontade de rejogar e tentar enxergar com essa visão mais crítica. Antes o jogo pra mim era só corta corta corta, divertido, mas sem nada demais

  • Manoel Ricardo

    muito bom o texto, eu também me senti mal matando as pessoas nesse jogo depois dessa parte do Sam. foi a mesma sensação que tive qnd comecei a jogar RE4 anos atrás. “essas pessoas não fizeram nada contra mim, estão agindo sem vontade própria, pq eu tenho que mata-las!?”. mas depois, sei lá, acho que por ser um jogo e, se você não matar, eles vão te matar, eu comecei a aceitar melhor meu papel dentro do jogo. será que videogame consegue fazer a violência justificável de uma forma que a gente não se sinta mal matando tantos “inimigos”? eu comecei a questionar isso em todos os jogos, até os mais inocentes, como os da série Mario e acho que sim, videogame consegue fazer a gente ser extremamente violento sem perceber. ainda bem q (comigo) violência é só dentro do videogame 😛

  • Samuel Madeira

    De nada cara, tamo aê!

    PS: excelente texto, foi uma das primeiras coisas que li que me deu vontade de tentar jogar a sério esse jogo 😀

  • Celso Peeta

    E tem gente que ainda fala mal desse jogo só pq tem metal gear no nome, esse jogo é foda em todos os aspectos