“Your very own Pokémon legend is about to unfold! A world of dreams and adventures with Pokémon awaits! Let’s go!”

tumblr_n3zut7fBOH1ts7zvxo1_500O ano era 1998, auge da febre dos monstros de bolso, com a explosão do Tamagotchi. Durante um acampamento de férias, um dos meus companheiros de dormitório me apresentou a novidade que ele possuía: Pokémon Red. O pouco que eu joguei durante aquele acampamento foi o suficiente para cimentar minha obsessão pelos próximos (longos) meses.

Posso dizer que a atividade de jogar não era central à minha vida na época. Ainda hoje não o é. Quer dizer, a mídia de jogos passou a ser central às minhas atividades, mas não o ato de jogar. Passo mais tempo lendo, vendo ou ouvindo a respeito de jogos do que propriamente jogando-os. Meu pai estipulava horários para as atividades de lazer, e estas tinham de ser equilibradas com alguma outra atividade considerada “útil”, como ajudar com a manutenção da casa ou estudar. E mesmo que tivesse consoles na minha casa, eu possuía poucos jogos, e raramente os completava, abandonando-os assim que saciava minha sede pela “descoberta”. Preferia ir nos fliperamas ou nas locadoras e gastar um Real ou dois para jogar algum jogo por um curto período de tempo. Minha experiência com games sempre tinha hora marcada e durava apenas o suficiente para absorver as suas “possibilidades”.

Assim, ao ser apresentado a Pokémon pela primeira vez, sem nenhuma experiência prévia, como saber quem raios era o Pikachu ou que existia um anime que passava na TV, foi quase um “braingasm”. Descobrir novos Pokémons, novas evoluções, novos lugares, novas pequenas surpresas… A possibilidade de descobrir novas coisas o tempo todo era excitante, tal qual caminhar a esmo pela cidade e ir conhecendo novos lugares. Eu tinha o costume de sempre ler a plaquinha de cada cidade, para ver os epítetos. Era mágico!

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Como não tinha o jogo e era apenas uma criança idiota, era óbvio que fui encher o saco dos meus pais para comprar Pokémon E um Gameboy. Depois de encher o saco por semanas a fio, minha mãe simplesmente cedeu e comprou o maldito Gameboy (Color, uma chiqueza na época) e o Pokémon Red para mim e o Blue para minha irmã. Como já era regra em casa, tínhamos horários para as nossas jogatinas. E foi aí que os problemas começaram.

Compulsão: É a tendência à repetição, impulso ou sensação de estar sendo levado, irresistivelmente, a executar alguma ação irracional. Compulsões envolvem alterações de comportamento, deterioração física, estresse familiar, problemas financeiros, destruição da carreira profissional e crescente desintegração psicológica.

Pokémon Red era tão viciante para mim que eu comecei a burlar o sistema de horários estipulado pelo pai. Várias vezes passei noites em claro jogando debaixo das cobertas, fingindo que “esquecia” de devolver o Gameboy ou de passar a vez para a minha irmã. A situação ficou tão grave que meu pai acabou por trancar o Gameboy e os cartuchos de Pokémon em um armário com chave, de forma a melhor controlar meus horários com o jogo.

Mas um armário trancado não podia conter uma vontade obstinada.

Como a criança “inocente” que eu era, logicamente comecei a planejar formas de burlar esse novo sistema que me afastava do tão querido Pokémon. O que se segue são os planos que o pequeno Andre Asai aplicou e suas consequências.

Plano 1 – A opção stealth
Meu pai reunia todas as chaves em um único conjunto, incluindo a chave do armário. Assim, o plano envolvia pedir o molho de chaves para abrir a porta de uma despensa, utilizando a desculpa de pedir um equipamento qualquer. Me utilizava desse momento único para destrancar rapidamente o armário do meu pai, abrir silenciosamente a porta do armário e em um prazo de 30 segundos, procurar o Gameboy, a fitinha, as pilhas, fechar novamente a porta, trancar, esconder o videogame e devolver a chave ao meu pai. The perfect crime. Com esse tempo extra que tive, pude evoluir meu Squirtle para Wartortle. Pude ganhar minha Thunder Badge. Pude ficar horas escutando a música tema de Vermillion City.

O plano tinha apenas uma falha. Eu precisava retornar o Gameboy para o armário trancado antes do meu pai perceber a picaretagem, o que meu eu do passado não planejou. Assim, no primeiro momento em que meu pai ia liberar o videogame para eu e minha irmã jogarmos, a falha do meu plano me atingiu como se fosse uma bigorna. O Gameboy e o o cartucho estavam bem escondidos na minha cama, e no momento que meu pai percebeu que eles não estavam no armário, ele percebeu o que ocorreu. Só virou para mim e falou: “Onde você guardou?”

Fiquei duas semanas de castigo e por um bom tempo, quando precisava de coisas que requeriam o uso de uma chave, meu pai me acompanhava para ver se eu não ia fazer alguma coisa “estranha”. O que me levou ao segundo plano.

Plano 2 – “Keep drilling, you piece of shit!”
“Se eu não posso abrir a porta, farei uma abertura que eu possa usar” pensou meu eu-criança. Assim, peguei as ferramentas disponíveis em casa e resolvi simplesmente desmontar a porta. Munido de uma furadeira, fui raspando vagarosamente a parte de madeira onde fica o trinco, de forma que com um pouco de força, dava para deslizar a porta trancada. Assim, podia sempre pegar o Gameboy e o Pokémon Red, e devolvê-lo antes que meu pai percebesse o ocorrido.

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Consegui me utilizar desse truque, e chegar até a Victory Road, por dois meses. Testei o truque do Missigno para multiplicar minhas Rare Candies. Explorei a Safari Zone. Derrotei a Equipe Rocket. Ao fim dos dois meses, acho que consegui ver todas as possibilidades do jogo. Já não tinha mais o senso de novidade e exploração, tinha literalmente investido muito no Pokémon para não terminá-lo agora, mas agora tinha virado só um hábito, uma repetição.

Quanto ao plano de fazer a porta abrir mesmo trancada, ela tinha uma grave falha. Quando você força um trinco de metal em uma madeira repetidas vezes, ela acaba criando um sulco, e a tranca vai afrouxando. Meu pai percebeu que a porta do armário estava estranha, e numa ironia do acaso, em um momento em que o Gameboy e o Pokémon estavam em minha posse. Quando meu pai se deu conta do que se passou, ele ficou em choque. Eu também me dei conta de que a compulsão fugiu completamente do controle, e parei de jogar Pokémon por um bom tempo. Eventualmente depois eu o terminei, só para ter um senso de completude do jogo, mas já não tinha mais aquela compulsão de jogar por horas a fio e descobrindo novas coisas. Cheguei a jogar o Pokémon Gold/Silver, mas depois nunca mais me interessei novamente pela série.

A lembrança de toda a epopéia e os “heists” para conseguir jogar um jogo tão banal sempre me vêem à mente de tempos em tempos. Tal qual um fantasma do passado, o fato de eu literalmente ter arrombado um armário com uma furadeira só para poder jogar algo funciona como um alerta pessoal de que existe um lado sombrio nos jogos, que não deve ser desmerecido como algo “menor” ou “não-problemático”, embora também não exista nenhuma “resposta fácil”.

andre-asaiSobre o autor

Andre Asai é desenvolvedor de jogos, produtor de eventos de games e criador de caos profissional. Também é o que algumas pessoas classificam como “artista”, tendo obras expostas em lugares como MIS-SP e FILE. É também ⅓ da Loud Noises. Ele que ajudou a organizar esse projeto aí dos 31 Gaems.

 

 

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31 Gaems é uma série de 31 textos, escritos por 31 autores, sobre 31 jogos. Além da publicação no Overloadr, os ensaios também farão parte do app/zine Glitch Gazette, em desenvolvimento por André Asai, do Loud Noises.

Leia os outros ensaios do 31 Gaems já publicados no Overloadr:

Super Metroid – simulador de sobrevivência solitária – Thais Weiller
Super Mario Bros. 3 – entretenimento e magia – Marcos Venturelli
We Love Katamari – mas eu amo um pouquinho mais que você – Karen “bitmOO”
Warcraft III – herói sem luzinha – Lucas Molina
A densa névoa de Kentucky Route Zero  George Schall
Streets of Rage 2: Ruas da Treta  Danilo Dias
Não preciso de vida, já tenho Mass Effect – Bárbara Bretanha

Super Mario Bros.: The zoeira levels  Thiago “Beto” Alves
Skyrim: O Dovahkiin desperta
 – Eduardo Emmerich
Pocky & Rocky 2: shmup sem navinha – Amora Bettany
Como abri uma porta que não existia em Versailles 1685 – Mauricio Perin
X-COM: Terror das profundezas (da memória) Ivan Garde
Rez: Nós somos performers eletrônicosHenrique Sampaio
Metal Gear Rising: Valeu, Samuca – Glauber Kotaki
Donald Duck: Goin’ Quackers: Sobre não estar mais aqui – Julianna Isabele
Jet Set Radio: A paixão segundo J.S.R. – Lucas “Midio”

  • rodrigo

    troca a foto Asai, esta com cara de quem faz arte com cachimbo de durepox

  • rodrigo

    Agora quanto a pokemon, até hoje ainda me pego jogando Esmerald ou Pearl ( que considero os melhores), e quando o faço, percebo quando já estou na decima hora de jogo …mas vale muito a pena..

  • Grillo

    Excelente 😀

  • Puruluchu

    Lembro que na época do Ensino Médio, eu estudava pela manhã, mas acordava às 4 da manhã pra poder jogar Pokémon até às 06:30 antes de ir pra escola.
    Ainda hoje é minha série favorita, mas jogo menos obsessivamente.

  • Antonio Carlos Bleck Bento

    Caras cada vez me surpreendo mais com a serie 31 gaems, mas não sei se algum dos próximos textos vai superar as aventuras do pequeno Asai, excelente texto.

  • Luiz Augusto Pereira Rodrigues

    E eu já me achava vida loca jogando de noite debaixo do cobertor para que nem soubesse que eu tava acordado.

  • Henrique Ribeiro

    Que história triste ..