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Leelah Alcorn

No dia 27 de dezembro, Leelah Alcorn, uma jovem transsexual de 17 anos, tirou sua própria vida. No último post de sua conta no Tumblr, agendado para ser publicado após sua morte, Leelah aponta os pais conservadores religiosos, que a obrigavam a fazer uma “terapia cristã de conversão” e tratamentos abusivos, como principal razão para seu suicídio. Seu último pedido foi que sua morte significasse algo. “Corrijam a sociedade. Por favor.”

Hoje, uma coisa está clara: sua morte não foi em vão.

Além de ter causado comoção ao redor do mundo, a morte de Leelah gerou uma grande pressão pública nos EUA para a aprovaçao da Lei de Leelah, que torna crime a terapia de conversão, considerada pela ONU uma forma de tortura e abuso infantil. Além disso, entre os dias 17 de janeiro e 22 de fevereiro foi organizado a JamForLeelah, uma game jam com o intuito de atrair atenção para questões relacionadas à transsexualidade na infância e adolescência. A jam também serviu como uma grande homenagem à Leelah, que frequentemente demonstrava interesse em trabalhar com o desenvolvimento de games.

Um dos melhores jogos que joguei neste ano nasceu da jam para Leelah. SEAQUEST1992 é uma das mais ricas e emblemáticas representações do vaporwave e seapunk, movimentos culturais nascidos na internet e disseminados em redes sociais como o próprio Tumblr, onde Leelah encontrava conforto. É uma alegoria à busca pela própria identidade e os sacrifícios decorrentes desta jornada.

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Com um visual noventista, que assume a baixa resolução e o lowpoly rudimentar da era 32-bit (tendência que está sendo cada vez mais explorada no campo dos jogos experimentais, como Fract OSC, Grow Home e Perfect Stride), SEAQUEST1992 carrega em seu próprio título o ano de lançamento do jogo que lhe serve de base: Ecco the Dolphin. Não por coincidência, o jogo da Sega para o Mega Drive e a nostalgia também são peças centrais dos universos vaporwave e seapunk. O álbum Chuck Person’s Eccojams Vol. 1, criado pelo talentoso Daniel Lopatin (do duo Ford & Lopatin e também conhecido pelo nome artístico Oneohtrix Point Never), pica e distorce a capa de Ecco the Dolphin tal como faz com hits dos anos 80 e 90, remixando-os em uma neblina sonora estranha e contemplativa.

Veja também:
– Metroclash: a cidade, as pessoas e o metrô
– Windows 93 é uma volta lisérgica à infância nos anos 90

Dito isto, SEAQUEST1992 é inevitavelmente nostálgico para quem cresceu jogando videogame. Seguindo a estrutura de um jogo de aventura antigo, a experiência é composta majoritariamente por exploração, guiada pela coleção de pequenos triângulos dourados (e seus característicos e agradáveis “plik” ao coletá-los) em labirintos aquáticos psicodélicos e, vez ou outra, chaves que dão acesso à certas áreas, onde você se transforma e adquire novas habilidades. Eventualmente, sequências de fuga, furtividade e combates contra chefes, tornam a jornada muito mais tensa e árdua do que inicialmente prevista, mas carregam um poderoso efeito alegórico.

SEAQUEST1992

SEAQUEST1992

É uma jornada de transformação. O humanoide aquático cujo controle assumimos em SEAQUEST1992 sonha em transformar suas pernas em uma nadadeira, como a de uma sereia. Iluminado por um ídolo indiano, ele parte em busca de seu sonho. A transformação, embora lhe dê mais liberdade de movimentos em seu mundo marítimo, contudo, lhe custa a identidade original: seu povo, incapaz de reconhecer sua nova forma, o impede de retornar à sua vila, restando vagar pelo mundo em busca de um novo lar. É aí que o jogo se torna bem menos pacífico, injetando uma boa dose de adrenalina à experiência inicialmente plácida e hipnotizante.

A impressionante trilha sonora eletrônica segue a linha da estética vaporwave, intercalando um chillout hipnótico com elementos sutis de jazz e R&B. O cenário de cores berrantes, que se distorce conforme o jogador se movimenta, dado o efeito da “lente” olho de peixe da câmera, pulsa e vibra ao ritmo das batidas dançantes, te sugando para um mundo poligonalmente plástico e ácido. É uma experiência narcótica, uma espécie de sonho febril concentrado no encantamento da alucinação, sem o desconforto do estado.

Em sua jornada transformativa, o humanóide passa a ser perseguido aos primeiros traços de substituição de suas pernas por uma calda. Se antes apenas precisávamos desviar de espinhos pelo caminho, agora temos que ativamente fugir de um tubarão vermelho, incansável em uma tentativa de nos devorar. Felizmente, o processo de transformação agora nos permite longos impulsos em nossa movimentação.

A sequência de perseguição remete às mais difíceis, velozes e impiedosas fases dos videogames, como a aterrorizante Turbo Tunnel, de Battletoads. Mas aqui o mal não é apenas um tubarão vermelho. É a representação de todo o sofrimento que Leelah tentou evitar em sua vida. De um instante a outro, a sequência torna o onírico e relaxante SEAQUEST1992  em um jogo perverso, que nos obriga a tentar, tentar, tentar e tentar de novo, memorizando os padrões da fase sufocante que parece nunca terminar. Um único erro e você terá que recomeçá-la desde o início.

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Leelah, infelizmente, não pôde recomeçar. Seu tubarão vermelho foi mais veloz, mais cruel.

Além de ser uma experiência única, nostálgica e fascinante, SEAQUEST1992 é uma bela alegoria à jornada transformativa enfrentada por jovens transsexuais. Embora a vida real possa ser muito mais dura do que fugir de um tubarão vermelho em um video game, a metáfora é capaz de transmitir uma mensagem poderosa: o esforço compensa. Há mais perigos após o tubarão vermelho, mas há também algo muito mais belo.

Você pode (deve) jogar SEAQUEST1992 gratuitamente em seu browser.

  • rodrigo

    caramba, que texto…

  • André Vasconcelos

    Parabéns pelo texto incrível! Infelizmente não pude experimentar o jogo, pois ele ainda não dá suporte ao linux, mas quando houver a possibilidade com certeza jogarei.

  • Eu não estava sabendo dessa triste história. Uma pena que o mundo ainda esteja longe de entender as diferenças e aceitá-las com respeito.

  • João Paulo Carrara

    Infelizmente não consigo jogar. Ele pra instalar Unity Player. Baixo, instalo e acesso novamente o jogo e ele ainda diz q precisa instalar….

    • riquesampaio

      Já viu se não é o antipop que está impedindo o jogo de carregar?

      • João Paulo Carrara

        Na lata amigo! Estava impedindo o plugin de ser executado no Google Chrome. Muito obrigado!

  • Nafi_ssura

    Rique, me beija por me apresentar vaporwave e seapunk.

    • riquesampaio

      :*

  • Vinicius Siviero

    A gente acha que as coisas melhoraram e de repente somos jogados cem anos para trás.

    • João pedro

      você quer dizer que só por que tem um jogo com estética retrô as coisas ficaram pior?

      • Vinicius Siviero

        Estava falando do preconceito, bullying, essas coisas. Nada contra os retrôs.

  • Mysterion

    Não consegui passar do tubarão vermelho 🙁