Mudanças, por menores que pareçam, são sempre motivo de inquietude e apreensão. Grandes mudanças de vida, então, nem se fala! Novo país, novo emprego, novos amigos: foi nessa situação que me encontrei em meados de 2008, quando fui contratado pela EA e me mudei para Vancouver.

Mil questões assolavam a minha cabeça na época. O aprendizado nas universidades brasileiras e a experiência na indústria nacional seriam suficientes para ter sucesso em um dos maiores estúdios de games do planeta? A dificuldade para fazer novos amigos num novo país, com uma outra cultura, seria muito grande? Será que eu iria conseguir me expressar em inglês da mesma forma extrovertida e brincalhona que era uma parte tão importante da minha personalidade quando morava no Brasil? E os colegas de trabalho, entenderiam e ficariam à vontade com as piadas e o ambiente mais descontraído que eu tanto prezava?

Em momentos como esse, o apoio das pessoas em torno de nós pode fazer toda a diferença. E se hoje eu posso afirmar que encontrei respostas positivas para todas essas perguntas, devo isso em grande parte à ajuda de um amigo e mentor com quem tenho a felicidade de trabalhar e conviver por todos esses anos. Por motivos que ficarão claros mais adiante, decidi preservar a privacidade do meu mentor neste texto, mantendo incógnitos seu nome e cargo na empresa. Vou me referir a ele simplesmente como “P”.

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Minha história com P começa antes mesmo da minha chegada a Vancouver. Ainda no Brasil, fiz várias entrevistas por telefone com membros do time FIFA, e na última delas fui informado que um produtor que ocupava um dos cargos mais altos na hierarquia criativa do projeto iria falar comigo. Como se não bastasse a tremedeira natural de uma entrevista de emprego, fiquei ainda mais nervoso ao saber disso: era a minha chance de pôr tudo a perder! Certamente um profissional de uma posição tão alta, com muitos anos de experiência e tendo participado do recrutamento de tantos outros desenvolvedores, faria as perguntas mais difíceis de todo o processo seletivo.

Então P pegou o telefone e exclamou: “Mister Lopes!”. Dei um salto da cadeira. Gotas de suor escorriam pelo meu rosto, a expectativa pela primeira pergunta me matava. Depois de alguns segundos que mais pareciam algumas décadas, ele finalmente continuou: “O que o senhor está achando da Seleção do Dunga?”

O que se seguiu foram 40 minutos de conversa descontraída sobre futebol e videogames, sem a menor menção de qualquer questão técnica ou de desenvolvimento. Algumas horas mais tarde, recebi por e-mail a aprovação e a proposta de emprego. Anos depois, P me explicaria que o mais importante para ele durante uma entrevista era conhecer o lado pessoal do candidato, medir a sua paixão por games e pelo esporte. O questionamento técnico podia ser feito por outros membros do time mais especializados.

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Durante a minha carreira na EA, vi a franquia FIFA crescer ano a ano até se tornar o líder de vendas e qualidade dentre os games de esportes. Testemunhei também o papel crucial que P desempenhou nesse processo, definindo a visão futura, introduzindo ideias e fazendo design de modos de jogo que revolucionaram o gênero e influenciaram a indústria. E mesmo em meio a tudo isso, P sempre encontrou na sua agenda um tempinho para me orientar e aconselhar.

E olha que os problemas que eu apresentava para ele não eram nada fáceis! Contratado como programador, desde os primeiros meses eu conversava com P sobre o desejo de me tornar um game designer e produtor no time. Essa trajetória de carreira é bastante incomum e difícil de articular em uma empresa tão grande quanto a EA, com planos de cargos tão bem definidos. Não há um procedimento padrão para pular da árvore de carreira de engenharia de software para a de design e produção – tanto que até hoje o meu registro no RH da empresa consta como “software engineer” – e por isso eu sempre precisei contar muito com a ajuda de P.

Certa vez, durante os primeiros meses em que comecei a exercer o papel híbrido de programador e designer no FIFA, P me convidou para uma reunião com outros produtores a portas fechadas. Seu primeiro slide dizia: “o que for dito nesta sala, fica nesta sala”. (Desculpe por quebrar essa promessa, P, mas é por uma boa causa). Ele passou então a próxima hora compartilhando conselhos e boas práticas conosco sobre o relacionamento entre o designer e cada um dos outros papéis dentro do time de desenvolvimento.

Por exemplo, P falou com muita veemência sobre a relação com os gerentes de projeto, sempre preocupados com o prazo e o custo das tarefas, e que podem algumas vezes enxergar o designer e produtor como adversários, já que estes estariam sempre trazendo mudanças e novos requisitos para o game. P nos ensinou que cabe a nós trabalhar por uma relação positiva e saudável com os gerentes, procurando sempre trazer argumentos para justificar cada nova proposta, abolindo completamente a atitude “é assim porque eu quero”. Graças a ele, aprendi a transformar os gerentes em grandes aliados dos produtores, garantindo juntos as entregas das milestones do projeto dentro do prazo e com a qualidade esperada.

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Há pouco mais de um ano, achei estranho quando percebi que P estivera ausente do trabalho por várias semanas. Dias depois, minha esposa e eu estávamos em uma confraternização da empresa quando um colega, sem saber o quanto éramos próximos, nos revelou de forma abrupta que P estava recebendo tratamento para uma doença fatal e incurável. Sem palavras, minha esposa olhou pra mim apenas a tempo de vermos as primeiras lágrimas escorrendo no rosto um do outro.

Há duas semanas, reencontrei P depois de vários meses. Os traços da luta contra a doença estavam estampados na sua fisionomia de forma assustadora, mas ainda assim fiquei feliz pela oportunidade de estar com ele e ter uma breve conversa. E mais uma vez, mesmo em meio ao seu turbilhão de preocupações e dores cujo tamanho não posso nem começar a imaginar, P demonstrou ser um mestre, um mentor até o fim. “Cuide de si mesmo, você só tem uma chance. E continue fazendo do mundo um lugar mais feliz”, foram as suas palavras.

Num momento em que seria completamente normal que ele estivesse preocupado apenas consigo e com a sua saúde, P ainda encontrou espaço para me dar mais conselhos de vida e carreira, para me lembrar novamente da importância do nosso papel no mundo como produtores de entretenimento. Pode deixar, P. Se eu conseguir cuidar de mim como você cuidou, se contribuir para a indústria com apenas uma fraçãozinha do que você nos dá, já terei atingido esse objetivo.

P está vivo, sagaz, e muito lúcido. Sua luta contra a doença continua. Este artigo é dedicado a ele. Que nós possamos ter muitas e muitas conversas ainda, sobre a Seleção. Do Dunga.

gilliard-lopesSobre o autor

Gilliard Lopes é produtor dos games da série FIFA na Electronic Arts, em Vancouver, Canadá, e colabora de forma independente com o Overloadr, além de participar do PodQuest, um podcast sobre desenvolvimento de games na indústria internacional. As opiniões expressadas aqui são unicamente do autor e não representam necessariamente a visão da Electronic Arts ou do Overloadr.

  • rodrigo

    levarei comigo, a frase dita a ti… belo texto, inspirado….

  • Gabriel.psd

    Que texto sensacional, inspirador em vários sentidos. Além disso tenho certeza que P não se importará com o resumo da conversa que ele teve com você e outros desenvolvedores em uma reunião de portas fechadas publicado em um texto em sua homenagem, continue com o trabalho incrível.

  • Grillo

    Só neste site eu consigo ver o lado humano da indústria de games, parabéns à todos que contribuem para isso 🙂

  • Alexandre Cassemiro

    Gosto tanto de ver esse lado humano. Parabéns por compartilhar essas palavras 🙂

  • Bruno Petrochelli

    Parabéns pelo texto meus caros, acompanho vocês desde o Arena, principalmente, pelas fortes opiniões próprias e “humanização” da indústria de games, como disse o Grillo abaixo. Continuem com o ótimo trabalho.

  • Madureira

    Muito bom o texto, espero um dia ter a oportunidade de ter um mentor tão inspirador quanto o “P” parece ser 🙂