O ano de 2013 foi particularmente difícil para mim. Sem emprego, longe da família e com receio de ter falhado na minha busca por independência, eu estava me questionando e me culpando por todas as minhas escolhas.

Meus próprios defeitos pareciam gigantescos, e mesmo entre os amigos que tentavam fazer com que me sentisse melhor, eu não conseguia me encaixar. A mudança precisava partir de mim e eu simplesmente não tinha ânimo ou energia e me sentia estranha de uma maneira difícil de explicar.

OK desu ka?

Foi nessa época que um amigo me apresentou àquilo que seria o começo do processo de recuperação: Mother 3. O jogo se passa em um mundo tranquilo que está virando uma grande bosta porque os humanos são egoístas, mesquinhos, gananciosos e não se importam com a natureza. Parece vida real ou um RPG japonês qualquer, mas é só uma casca que envolve algo muito mais bonito: os personagens, suas dores e todos os seus defeitos.

Ao longo da aventura você assume diversos papéis e tem diferentes perspectivas da mesma história, talvez um dos RPGs mais inclusivos por oferecer nos personagens jogáveis homens, mulheres, crianças, pessoas deficientes e até animais. Além de trazer alguns NPCs sem gênero definido, mas que apresentam características físicas masculinas e roupas femininas.

Cada um dos personagens, jogáveis ou não, é quebrado de alguma maneira e traz um passado de perdas. Mas foi justamente Duster, o ladrão com halitose e com um problema na perna, quem me chamou atenção nesse grupo. Apesar da deficiência, ele é o segundo mais rápido da equipe, perdendo apenas para o cachorro, e sua arma são sapatos. Ou seja, ele consegue usar sua perna para lutar, mesmo com uma deficiência física que afeta justamente essa parte do corpo.

You bet on me… but it seems you lost, huh?

Contudo, assim como um defeito físico ou mental pode virar uma arma, ele também pode voltar para te assombrar de tempos em tempos. E, por conta de uma viagem de cogumelos (acidental), o grupo começa a sofrer com o pior tipo de alucinações: pessoas amadas falando coisas horríveis e reabrindo feridas que estavam quase esquecidas.

No caso de Duster, seu próprio pai surge relembrando eventos do passado e acusando o ladrão de ter sido o único responsável pelo acontecimento que resultou na deficiência que o faz arrastar a perna.

Esse tipo de sentimento de culpa, que afeta diretamente as pessoas que amamos e a forma com que elas nos veem, pode ser mais doloroso que um golpe dos inimigos, mas é algo que todos nós precisamos aprender a lidar ao longo da vida.

You must be tired…

Mother 3 culmina em uma série de eventos em que, basicamente, todo mundo perde e ninguém está totalmente certo. Entretanto, muito mais do que procurar uma justificativa para os vilões, é um jogo que mostra que os humanos são muito mais complexos do que aparentam, e que mesmo as pessoas mais detestáveis podem ter um lado doce.

Este é um jogo estranho e difícil. Porém, ele ensina a lidar com perdas, com seus próprios defeitos e é capaz de criar momentos em que você pode só apreciar a solidão, como simplesmente andar por muito tempo sozinho em um campo de girassóis.

E era exatamente isso o que eu precisava naquele momento.

 

ninaSobre a autora

Marina Val é formada em publicidade, fez pós-graduação em design e no momento atua como redatora, mas o que gosta mesmo é de engordar pessoas com o Insert Cookies e de fazer jogos com os amigos em Game Jams.

 

 

 

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31 Gaems é uma série de 31 textos, escritos por 31 autores, sobre 31 jogos. Além da publicação no Overloadr, os ensaios também farão parte do app/zine Glitch Gazette, em desenvolvimento por André Asai, do Loud Noises.

Leia os outros ensaios do 31 Gaems já publicados no Overloadr:

Super Metroid – simulador de sobrevivência solitária – Thais Weiller
Super Mario Bros. 3 – entretenimento e magia – Marcos Venturelli
We Love Katamari – mas eu amo um pouquinho mais que você – Karen “bitmOO”
Warcraft III – herói sem luzinha – Lucas Molina
A densa névoa de Kentucky Route Zero  George Schall
Streets of Rage 2: Ruas da Treta  Danilo Dias
Não preciso de vida, já tenho Mass Effect – Bárbara Bretanha

Super Mario Bros.: The zoeira levels  Thiago “Beto” Alves
Skyrim: O Dovahkiin desperta
 – Eduardo Emmerich
Pocky & Rocky 2: shmup sem navinha – Amora Bettany
Como abri uma porta que não existia em Versailles 1685 – Mauricio Perin
X-COM: Terror das profundezas (da memória) Ivan Garde
Rez: Nós somos performers eletrônicosHenrique Sampaio
Metal Gear Rising: Valeu, Samuca – Glauber Kotaki
Donald Duck: Goin’ Quackers – Sobre não estar mais aqui – Julianna Isabele
Jet Set Radio: A paixão segundo J.S.R. – Lucas “Midio”
Vamos assaltar com Pokémon! – André Asai

  • Puruluchu

    Texto sensacional. Estou aproveitando pra jogar RPGs antigos que pessei direto por eles, e Mother 3 é um doa itens da lista. Ele tem relação com Earthbound ou é independente?

    • Gabriel Savioli

      É uma sequência não-direta. Não é necessário jogar o Earthbound/Mother 2 antes pra entender a história como um todo mas eu recomendo não só pelo background mas porque como o 3 é mecanicamente um jogo mais intuitivo, é um cado frustrante ir pro antecessor depois, que é mais travado em comparação (mas ainda assim é fantástico).