Como boa parte de vocês, comecei a jogar videogame bem pequena e por influência do meu irmão mais velho. Ele tinha um Master System e um Mega Drive e, quando havia alguma brecha ou ele precisava de um player 2, era minha vez de segurar os controles. Crescemos assim: eu na maior parte do tempo o assistindo, dando palpites para ajudar, ditando códigos e passagens escondidas de revistas de games enquanto ele jogava. Depois, sozinha, era minha vez de, muito timidamente e sem ajuda (ou com uma ajuda rápida, típica de quem não tem paciência para quem tá começando), tentar.

Quando eu tinha nove anos, minha família foi para o interior. Fomos morar numa casa com um quintalzão e meus pais compraram um beagle, o Willy. Ele ficou com a gente por 15 anos e eu e meu irmão tivemos a sorte de crescer junto com ele. Mas o Willy já era um senhor enquanto a gente mal era adulto e, um dia, tirou um cochilo no lugar preferido dele e não acordou mais.

O Willy era um cachorro tão da família que aguentou até um dia em que a família inteira estivesse em casa para se despedir dele. Ou melhor, coincidiu de ser um fim de semana em que eu e meu irmão voltamos para Piracicaba.
Passado o choque inicial, em que me vi chorando ajoelhada ao lado do corpinho gelado do cão embrulhado num lençol branco de algodão, me peguei agora sentada no sofá da sala olhando fixamente para a parede. Não sei quanto tempo fiquei assim, mas foi uma curiosa situação em que estava triste pela morte, mas aliviada por ele ter ido tranquilo e sem dor. Eu só queria que o tempo passasse logo para enterrarmos o Willy e eu pudesse superar o fato e deixá-lo descansar.

Não sei como, mas sei que peguei meu notebook da mochila, liguei na TV da sala e voltei para Bioshock Infinite, jogo que eu havia iniciado há cerca de 12 horas. Eu só queria conseguir tirar minha cabeça da minha cabeça por um tempo e colocá-la em outro lugar, para passar o tempo rapidamente e sem pensar. Para chegar amanhã logo, nós enterrarmos o Willy, eu pegar o ônibus de volta para minha vida na capital e seguir em frente, pela primeira vez desde que me lembrava sem ter o meu cachorro.

Que erro, né? Bioshock Infinite não é nem de longe um jogo casual, do tipo que a gente busca para aliviar a mente. Tem uma história complexa, personagens profundos e que mostram diferentes perspectivas e um final cheio de reviravoltas. Mas acho que justamente por isso ele foi tão importante para mim, na época: eu tinha que prestar muita atenção em tudo, de modo que podia esquecer da na minha própria vida e a tal da catarse me atingiu de uma maneira quase violenta e definitivamente marcante.

bioshock-infinite

Na batalha final do jogo, eu já estava cansada, depois de umas oito horas seguidas jogando, de tentar montar o quebra-cabeça da história na minha mente e, claro, de estar de luto – estar triste é algo que consome suas energias de uma maneira bizarra. Depois de morrer pela terceira vez na proa do navio, eu estava derrotada. Além de frustrante, morrer no jogo me tirava do universo de Columbia e me lembrava que, por mais que eu olhasse para todos os cantos preferidos do Willy na sala e mexesse os dedos o chamando para fazer carinho durante a tela de loading, ele nunca mais estaria ali. Entre muito choro, alguns murros no sofá e alguns gritos abafados, meu irmão apareceu e sentou do meu lado. Como a boa irmã mais nova que sempre fui, entreguei o controle pedindo para ele passar.

Pela primeira vez, ele o segurou por alguns segundos e me devolveu: “vai você, você consegue”. Reclamei, chorei que não, não conseguia, estava cansada, era muito difícil, e ele insistiu, prometendo me ajudar. Foi me dando dicas, me apontando uma estratégia melhor, me mandando olhar para a Elizabeth e pedir algo novo, enquanto eu ia pondo tudo em ação.

Sem o meu irmão, eu não teria terminado Bioshock Infinite e entendido sua história, ou pensado tanto sobre todas as escolhas que fiz na vida e que, de alguma forma, me trouxeram até a redação deste texto, ou como nem eu e nem ele nem existiríamos se em algum momento nossos pais não tivessem se conhecido. E a causalidade vai ainda mais além.

Existir é meramente uma causalidade e ter um irmão também. Tudo seria diferente se não fosse um e o outro. Eu provavelmente nunca teria ligado um videogame e sequer experimentado um jogo por oito horas seguidas sentada na mesma posição no sofá imersa em um mundo que não existe de verade. Não teria um melhor amigo desde que nasci e, com certeza, não teria ninguém para me abraçar e lamentar comigo a morte do nosso cachorro. Também não teria ninguém para brigar comigo a infância toda, afinal ter um irmão é osso, ainda mais quando vocês são o oposto um do outro, como nós somos.

Ter irmão é só mais uma causalidade, mas uma muito feliz, e a gente só percebe quando deixa de ser criança e entende o que, exatamente, é ter um irmão. É ter a certeza de que, quando não tiver mais o cachorro da família, casa dos pais para voltar, mais ninguém que te conheça do jeito que você sempre foi, mais ninguém para te ajudar a ver uma passagem secreta ou pensar em outra estratégia, não tiver mais sétima geração de consoles ou qualquer outra lembrança da infância que não seja mais que uma lembrança, sempre haverá, naquela árvore de causalidades, ele e você.

giovanaSobre a autora

Giovana Penatti é jornalista com foco na área de tecnologia e games. Paralelamente, estuda teatro musical, rói unhas, aperta o seu cachorro Bernardo e escreve em seu blog pessoal.

 

 

 

****

31 Gaems é uma série de 31 textos, escritos por 31 autores, sobre 31 jogos. Além da publicação no Overloadr, os ensaios também farão parte do app/zine Glitch Gazette, em desenvolvimento por André Asai, do Loud Noises.

Leia os outros ensaios do 31 Gaems já publicados no Overloadr:

Super Metroid – simulador de sobrevivência solitária – Thais Weiller
Super Mario Bros. 3 – entretenimento e magia – Marcos Venturelli
We Love Katamari – mas eu amo um pouquinho mais que você – Karen “bitmOO”
Warcraft III – herói sem luzinha – Lucas Molina
A densa névoa de Kentucky Route Zero  George Schall
Streets of Rage 2: Ruas da Treta  Danilo Dias
Não preciso de vida, já tenho Mass Effect – Bárbara Bretanha

Super Mario Bros.: The zoeira levels  Thiago “Beto” Alves
Skyrim: O Dovahkiin desperta
 – Eduardo Emmerich
Pocky & Rocky 2: shmup sem navinha – Amora Bettany
Como abri uma porta que não existia em Versailles 1685 – Mauricio Perin
X-COM: Terror das profundezas (da memória) Ivan Garde
Rez: Nós somos performers eletrônicosHenrique Sampaio
Metal Gear Rising: Valeu, Samuca – Glauber Kotaki
Donald Duck: Goin’ Quackers – Sobre não estar mais aqui – Julianna Isabele
Jet Set Radio: A paixão segundo J.S.R. – Lucas “Midio”
Vamos assaltar com Pokémon! – André Asai

Mother 3: A virtude dos defeitos – Marina Val
Super Soccer e futebol no plural – Enric Llagostera
Max Payne 2: Como pude matar um homem – Diego Castillo
Sengoku Rance: apenas um jogoBruno Bulhões
Fatal Frame II: Crimson Butterfly (ou sobre como eu nunca precisei de um irmão mais velho) – Anita Cavaleiro

  • Yasser Hanzi

    so fa da franquia, vou lê depois que terminar o jogo pois pode ter spoiller.. ;@

  • Yasser Hanzi

    Ah, se nao tiver spoiler me notifica que leio. ^^

    • giovana

      na real não tem SPOOOOILER mas pincelo de leve um dos “temas” principais do jogo. não acho que vá estragar sua experiência mas, por via das dúvidas, vai jogar logo e volta pra ler 😉

  • Bruno Oliveira

    Só falou verdades!

  • FHC

    Ah Giovana! Obrigado por contribuir nessa sequência de posts com um sobre Bioshock, esse jogo me mercou muito e estará sempre na minha Top List de jogos. Depois dele a narrativa de outros jogos se tornou fraca e sem criatividade e por conta disso busquei jogos mais específicos como Gone Home, Kentucky Route e To The Moon.
    Grande abraço!!!

  • Eduardo Machado

    Cara, me vi construindo essa mesma forma de pensar, talvez isso tenha me marcado no infinite, me fazer refletir, nos moldes que o jogo apresenta, as vidas paralelas que não existem por consequência dos somatórios de escolhas que compõe as nossas próprias narrativas. Obrigado pelo texto !

  • Adobe Hitler

    Que texto maravilhoso!

  • Sousa

    Jogos pesado para esse momento da vida heim jovem, jogou os DLC’s?
    Se não ainda falta muito para “terminar” 🙂
    Meus sentimentos sobre seu dog, sei como é isso, mas tente acreditar que nada termina por aqui……
    Sobre seu irmão, vocês devem ser muito parecidos, diferentes apenas de um ponto de vista 🙂
    Boa sorte e Muita Força !
    Deixo aqui minha chave para fazer fusquinha 😛

  • Neto Sampaio

    Ótimo texto, me fez refletir sobre o jogo e sobre a vida também , parabéns!

  • Weslley Ngr

    ”Giovana Penatti é jornalista com foco na área de tecnologia e games. Paralelamente, estuda teatro musical, rói unhas, aperta o seu cachorro Bernardo e escreve em seu blog pessoal.” E consegue ser mais Caio Teixeira do que o próprio Caixo Teixeira.

    Sobre o texto: Tive uma reflexão muito gostosa dentro de mim, fora que eu fiquei bastante impressionado com Bioshock Infinite, a história dele me impressionou bastante e foi o que me fez ficar mal com tudo o que estava acontecendo com o que fora mostrado nos DLCs, o que aconteceu com tal personagem e ver que tais coisas conseguiram ser atingidas graças a pequenos dedinhos de personagens no meio, a ligação dele com os anteriores foi o que me deixou alegre e me fez ter uma conexão bem forte com ele, fora os personagens.

  • Elton Alves Do Nascimento

    Texto muito bom e tocante. As vezes algumas obras (jogos, filmes, livros, músicas…) marcam a nossa vida de maneira que única, o que torna tais obras mais interessantes ainda.

  • Vinicius Siviero

    Quando li os primeiro parágrafos, senti que era o tipo de coisa que minha irmã falaria para mim.

  • Kurt Rodrigues

    Não comento muito no site e não mando e-mail no podcast então fica aqui como um pedido de desculpas rs.

  • Danilo2k14

    As 13:30 do dia 31/05/2015 terminei Bioshock Infinite, aqui só tem spoiler.

    ………

    Vou embora para Columbia

    Lá eu sou o rei

    Lá tem a criança que quero

    Do berço que deixei

    Demorei muito para jogar Infinite, sempre protelei com outros jogos na
    frente, sempre o fiz pois sabia que essa experiência seria única, e foi.

    Esse jogo nos agracia, em meio ao seu brutal tiroteio, com a cena do violão
    e voz entre Elizabeth e DeWitt. Esse jogo nos lembra o quanto fomos medíocres
    acreditando que um ser humano é melhor que o outro apenas pela sua cor. Ele nos
    lembra que a fé cega, aleija o conhecimento, esvaziando o cérebro.

    Mas dentre todas as mensagens que esse jogo passa, de todos os inimigos que
    você mata, o que se encaixa perfeitamente é…”a se arrependimento
    matasse”.

    Se pudéssemos desfazer o que foi feito? Em que realidade você voltaria? O
    dia que você não deu em cima do amor da sua vida? O dia que não estudou para a
    prova? Ou o crime que você cometeu?

    DeWitt é um poço de arrependimento, cruzou realidades para entender que na
    realidade, tudo que fez nada adiantou, ele segue em seu ciclo de ações feitas e
    consequências iguais desde o dia que mergulhou e se tornou um novo homem.

    Talvez dentre as muitas realidades Comstock não tenha nascido e Anna seria
    Anna dentro daquele berço.

    Quando comecei a jogar, estava adorando tanto que bateu o arrependimento por
    não ter jogado antes, mas agora, vejo que não.

    Após complicações durante o tratamento de leucemia, minha mãe faleceu a 2
    anos atrás…abril….Bioshock saiu em março. Me arrependo por não ter dito ”eu
    te amo” mais vezes, ter faltado tantas outras…mas como toda boa mãe, o que
    fiz foi mais o que ela queria, assim me dizem, mas nunca vou saber.

    Em outra realidade há um Danilo que sabe disso, talvez haja outro que seja
    mais feliz, outro mais infeliz. Mas todos devem seguir seu caminho e levar
    consigo a menor quantidade possível de arrependimentos que puder carregar até
    seu leito de morte.

    Ao fim do jogo pesquisei sobre a música cantada por Elizabeth “Will The
    Circle Be Unbroken?”…segue o último refrão, que faz muito mais sentido para
    esse Danilo.

    “One by one their seats
    were emptied

    One by one they went away.

    Now the family is parted.

    Will it be complete one day?”

    https://www.youtube.com/watch?v=zZGOsSc5t_c