Minha mãe me disse que eu sempre desejei coisas impossíveis. Quando eu era criança, por exemplo, eu resolvi querer um irmão mais velho. Eu queria tanto, mas tanto, que eu já sabia tudo sobre ele e ele nem existia. Ele seria muito protetor e teria amigos divertidos, ele me emprestaria todos os quadrinhos e livros de fantasia que ele tivesse, me ensinaria a jogar Magic e jogaria videogame comigo todos os dias. Esse irmão me ajudaria nas lições de casa, mestraria as mesas de RPG e veria comigo filmes de terror, comendo porcarias durante as minhas madrugadas insones.

Nunca me passou pela cabeça, porém, que um irmão mais velho pudesse ter interesses completamente diferentes dos meus. Os animes me ensinaram que irmãos mais velhos são criaturas muito específicas que tem um pouco mais que a nossa idade, que nos protegem e nos ensinam coisas interessantes que os pais ou a escola não são capazes de ensinar, às vezes eles nos irritam, mas é com amor (quem não quer Touya na sua vida, né?). Mas a verdade era que, dentro do universo de possibilidades que me foi dado, viagem no tempo ainda não era viável e, mesmo se fosse possível, eu não poderia garantir que teria um irmão mais velho – poderia ser uma irmã.

Não. Não havia espaço na minha vida para uma irmã. Nunca. Para falar a verdade, eu morria de medo que minha mãe engravidasse e me desse de presente uma irmãzinha. Eu sabia que as meninas eram fúteis e invejosas e os filmes me ensinaram que irmãs não se dão bem. Elas não podem se dar bem, porque meninas competem entre si, é uma lei universal – exceto pelas mães e avós, elas não seguem a mesma regra, talvez em algum momento elas deixem de ser meninas, sei lá. Mas, já que eu havia feito esse favor de nascer menina, eu preferia não ter que lidar com outra dentro da minha própria casa, muito obrigada.

Os anos foram passando e algo estranho aconteceu: eu estava cercada por meninas e elas eram interessantes e complexas. Eu até mesmo morava na mesma casa com uma delas. Pasmem: éramos amigas, vivíamos lado a lado, compartilhávamos as mesmas áreas comuns, trocávamos livros de fantasia, jogávamos RPG e víamos filmes de terror em nossas noites em claro. Gostávamos até dos mesmos videogames e quando não estávamos trabalhando (muitas vezes no mesmo projeto), jogávamos o dia inteiro, comendo altas porcarias.

O primeiro game que jogamos juntas foi Fatal Frame II: Crimson Butterfly, era um jogo velho que resolvemos jogar porque adoramos survival horror, principalmente aqueles protagonizados por mulheres. A maior parte dos jogos de survival horror nos coloca em uma posição extremamente vulnerável: você está em um local desconhecido, precisa investigar e descobrir o que aconteceu naquele lugar e como ir embora, e muitas vezes você não tem nem mesmo a possibilidade de usar armas para se defender. Em Fatal Frame, sua única arma é uma câmera fotográfica.

Eu sempre me senti muito vulnerável, imagino que essa seja o motivo pelo qual eu quisesse tanto um irmão mais velho para me proteger. O engraçado é que, no primeiro Fatal Frame, você está no papel de uma irmã mais nova que busca pelo irmão mais velho desaparecido. Já no segundo jogo da franquia, as personagens principais são irmãs gêmeas, não há nenhuma hierarquia de gênero ou idade entre elas e, mesmo assim elas cuidam uma da outra e se protegem dos perigos.

Mayu e Mio são irmãs gêmeas: Mio é a irmã aparentemente mais responsável e racional, enquanto Mayu parece ser mais sensível e um pouco avoada. Ambas são pequenas e frágeis, não possuem armas, poderes, artefatos mágicos, nem mesmo atributos físicos ou intelectuais muito relevantes. Elas acabam se perdendo em um bosque, enquanto Mayu segue uma borboleta vermelha que a leva em direção a uma estranha e sombria vila. Antes da história começar, ficamos sabendo que Mayu sofreu um acidente e tem uma deficiência em uma das pernas, o que a faz mancar enquanto anda. Mio, por sua vez, é muito protetora de sua irmã e a espera e acompanha para todos os lugares. O fato de Mio ser a personagem jogável, estar sempre preocupada com sua irmã, me fez imaginar que ela deveria ser a gêmea mais velha, afinal o clichê da irmã mais nova é ser mais sensível, indefesa, enquanto a mais velha seria a mais responsável. Na tradução em inglês, isso não fica muito claro, mas descobri que no original, Mayu é a irmã gêmea mais velha (juro que isso é uma informação relevante).

Ao entrar na vila misteriosa, descobrimos que Mayu é capaz de contatar os espíritos dos moradores que assombram o lugar. Várias vezes durante o jogo, ela se perde correndo atrás de borboletas e de fantasmas que estão presos nas casas e Mio precisa encontrá-la, enquanto desvenda o mistério do local, utilizando pistas deixadas por outras pessoas que estiveram por lá e armada apenas com a Câmera Obscura, que a permite enxergar e aprisionar espíritos.

No primeiro Fatal Frame, assim como na maior parte dos jogos de survival horror, você é um personagem que, além de indefeso e amedrontado, está sozinho em cena, tentando descobrir informações sobre você mesmo ou em busca de alguém que raramente aparece. Já em Fatal Frame II, Mayu e Mio estão quase sempre juntas em cena, então você se vê precisando esperar por uma pessoa que anda mais devagar, acolher alguém mais vulnerável e que, se pensarmos objetivamente, atrapalha a jogabilidade, mas isso não é importante de fato. Jogando como Mio, eu me senti muitas vezes no papel de protetora de uma irmã que eu nunca tive. Essa foi a primeira vez que eu consegui entender mais ou menos como seria uma relação entre irmãs.

Como Mayu consegue se comunicar com os espíritos, ela acaba sendo ludibriada a replicar um ritual que foi mal executado anteriormente e por isso os espíritos ficaram presos àquele lugar. O Ritual do Sacrifício Vermelho consiste em, a cada década, duas irmãs gêmeas passarem por um processo de purificação no qual ficam reclusas por um ano. Logo após esse processo, a irmã gêmea mais velha estrangula a irmã mais nova para trazer prosperidade à vila. Enquanto a mais velha se torna uma sacerdotisa da cidade e recebe a marca de uma borboleta no pescoço, a mais nova morre e se torna uma borboleta vermelha, o que significaria que elas haviam se tornado uma só (yup, that’s fucked up).

fatal-frame-iiSae e sua irmã Yae eram as gêmeas que deveriam realizar o ritual, porém Yae não concordava com os métodos da cidade e não queria sacrificar sua irmã. Enquanto estavam presas para a purificação, elas conhecem um garoto que as ajuda a fugir da vila na véspera do ritual. Sae não consegue acompanhar Yae e acaba ficando para trás. Com medo da ira dos deuses, os moradores sacrificaram Sae mesmo assim. Porém, o espírito de Sae não se tornou borboleta e trouxe a ira dos deuses à vila, assombrando eternamente o local.
Obcecada por se libertar, Sae possui o corpo de Mayu e resolve sacrificar Mio. O jogo em si é bem bizarro e muita coisa acontece que não dá para contar aqui, mas no final existem algumas possibilidades e, no “bom” final, Mio aparece com a marca da borboleta vermelha no pescoço, e persegue uma borboleta vermelha para a qual pede desculpas. Podemos concluir que a irmã mais nova matou a mais velha e o sacrifício foi bem sucedido mesmo assim. Como? Sei lá. Só sei que foi assim.

Tirando o fato de que as irmãs se matam no final, pois é um jogo de terror e não esperaríamos um final feliz dessa história, Fatal Frame II foi a minha primeira experiência em ter uma irmã. Não só porque o jogo é sobre irmãs e tudo gira em torno deste assunto, mas porque foi o primeiro game que eu joguei com a primeira irmã que eu tive. E jogamos morrendo de medo, nos apoiando uma na outra (principalmente quando o controle do PS2 começava a vibrar e dava vontade de gritar e jogar no chão), até o dia clarear.

A verdade é que eu descobri que eu não precisava de um irmão mais velho, nunca precisei. Descobri que eu era capaz de cuidar de mim mesma, de proteger quem eu gostava e de ter relacionamentos complexos e interessantes com as irmãs, mães, avós que eu tenho na minha vida – e com meu gato, que está aqui do lado enquanto eu escrevo. Descobri que eu não era tão vulnerável quanto eu pensava e, mesmo se fosse, eu tinha amparo nas pessoas que de fato existiam na minha vida. Sem precisar de uma máquina do tempo, de relações imaginárias ou modelos pré-concebidos de como essas relações deveriam ser, nós compartilhamos histórias, experiências e opiniões (além de muitas noites insones e comidas pouco saudáveis).

anitaSobre a autora

Anita Cavaleiro é formada em Artes Visuais pela UNESP, é curadora do FILE Games e faz mestrado na Universidade de São Paulo sobre games e arte. Ela gosta de desenhar, tomar café, dinossauros, estampas de animaizinhos e tem um gato chamado Paçoca.

 

 

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31 Gaems é uma série de 31 textos, escritos por 31 autores, sobre 31 jogos. Além da publicação no Overloadr, os ensaios também farão parte do app/zine Glitch Gazette, em desenvolvimento por André Asai, do Loud Noises.

Leia os outros ensaios do 31 Gaems já publicados no Overloadr:

Super Metroid – simulador de sobrevivência solitária – Thais Weiller
Super Mario Bros. 3 – entretenimento e magia – Marcos Venturelli
We Love Katamari – mas eu amo um pouquinho mais que você – Karen “bitmOO”
Warcraft III – herói sem luzinha – Lucas Molina
A densa névoa de Kentucky Route Zero  George Schall
Streets of Rage 2: Ruas da Treta  Danilo Dias
Não preciso de vida, já tenho Mass Effect – Bárbara Bretanha

Super Mario Bros.: The zoeira levels  Thiago “Beto” Alves
Skyrim: O Dovahkiin desperta
 – Eduardo Emmerich
Pocky & Rocky 2: shmup sem navinha – Amora Bettany
Como abri uma porta que não existia em Versailles 1685 – Mauricio Perin
X-COM: Terror das profundezas (da memória) Ivan Garde
Rez: Nós somos performers eletrônicosHenrique Sampaio
Metal Gear Rising: Valeu, Samuca – Glauber Kotaki
Donald Duck: Goin’ Quackers – Sobre não estar mais aqui – Julianna Isabele
Jet Set Radio: A paixão segundo J.S.R. – Lucas “Midio”
Vamos assaltar com Pokémon! – André Asai

Mother 3: A virtude dos defeitos – Marina Val
Super Soccer e futebol no plural – Enric Llagostera
Max Payne 2: Como pude matar um homem – Diego Castillo
Sengoku Rance: apenas um jogoBruno Bulhões

  • rodrigo

    bom…… mas tenho cagaço de fatal frame

  • Ren

    Foi uma puta análise. Parabéns. Sou super fã da franquia é Fatal Frame é um dos melhores games se tratando de imersão.

  • Patrick Ribeiro

    Análise muito bacana. Curti. Essa trilogia foi uma das primeiras que me deixou realmente assustado, especialmente o II.

  • Weslley Ngr

    Minha experiência com Fatal Frame foi uma coisa bem desagradável, eu sabia que era um jogo com uma atmosfera um pouco mais pesada dos jogos que eu estava acostumado mas quando fui experimenta-lo em mãos pela primeira vez, foi um susto atrás do outro e um desconforto enorme.

    É.. um game brilhante e eu acho que se manteve na essência até os dias de hoje, diferente de outros jogos ai *cof* resident evil *cof*.

    Ótima análise, adorei, meus parabéns.

  • Tais

    Que texto maravilhoso! Fico muito contente por vê-lo publicado aqui. Obrigada.

  • Juliana Foini

    Muuito bom!!

  • Samuel Madeira

    Realmente é um jogo excelente, e a experiencia que você passou e compartilhou com a gente através desse texto foi ótima! Muito obrigado Anita 🙂

  • carla kelvanny costa saraiva

    Na verdade,tem um final melhor do que esse que você citou,no qual Mio e Mayu saem vivas.
    Esse final se chama :The Promise. Para consegui-lo,você não pode ver as cenas extras no Ch.8 e também deve derrotar o Kusabi em menos de um minuto. Realmente,eu prefiro o final The Promise,pois,as duas percebem que não podem se tornar uma só,mas apesar disso,elas sempre ficarão juntas!