Eu sou um grande defensor dos clichês. Quanto mais clichê, melhor. Clichês só são clichês porque são populares, porque nos identificamos com eles. Um jovem herói com uma espada? Clichê. Um demônio que deliberadamente quer destruir o mundo? Clichê. Uma princesa raptada pelo demônio que deliberadamente quer destruir o mundo, e que só poderá ser salva pelo jovem herói com uma espada? 3-hit combo de clichê. Só não vou falar que já pode pedir música no Fantástico porque seria clichê.

shining force IIMeu primeiro contato com Shining Force II foi aos 9 anos de idade. Minha tia, que era fã de RPGs, me emprestou o cartucho, digamos, por tempo indeterminado. Talvez ela tenha dito para devolver na semana seguinte e eu sem querer acabei roubando, mas isso é um mero detalhe.

Eu não sabia nada de inglês – e muito menos de RPG – mas aquele jogo colorido e bonitinho me chamou a atenção. Apertava o botão quase que em modo turbo para pular todos os diálogos e entrava em todas as casas, vasculhando baús e potes. Eu realmente não sabia o que estava fazendo. Era um cleptomaníaco em uma terra que em todo mundo falava inglês, menos eu. Por conta disso, eu ficava criando na minha cabeça os diálogos, tentando conectar as peças que tinha. Essa tática até que dava certo, até porque a dificuldade do jogo não estava na exploração dos mapas.

Falando em tática, e aí que entra a parte que transformou Shining Force II no jogo que eu mais joguei na minha vida inteira: as batalhas. As batalhas eram estilo tactics baseado em turnos. Sua equipe começa pequena, com apenas três integrantes, mas depois vários companheiros se juntam a você na sua jornada. Ao longo do jogo, você pode escolher 12 dentre 30 personagens para lutar nas batalhas, desde magos, cavaleiros, sacerdotes, monges, gladiadores, paladinos até uma fênix, um lobisomem, um robô e um golem. Era uma bagunça divertida.

E é exatamente esse mar de possibilidades que me fez viciar no jogo. Eu queria encontrar a equipe perfeita, os 12 melhores para se chegar ao final e tirar o máximo de HP do demônio que deliberadamente quer destruir o mundo.

shine2f-01Se eu fiquei dois anos jogando todo dia esse jogo, não foi exagero. Eu explorei todos os lugares possíveis. Metade desse tempo foi graças a um “bug” que descobri em um dos 30 personagens. Se eu usasse a magia Boost Lvl 2 em mais de cinco pessoas, eu sempre ganhava 49 pontos de experiência. Só que, ao contrário de todas as outras magias e ataques, que a partir de um certo nível só davam 1 ponto de experiência, essa magia sempre dava 49 pontos, não importa o nível. Foi o que eu precisava para ficar subindo de nível com a Karna, até então uma sacerdotisa bem mediana. Subi tanto de level com ela que cheguei no limite do cartucho (level 99). Ninguém era forte que nem ela. O demônio que deliberadamente quer destruir o mundo só tirava 1 de dano nela. Eu podia deixar os outros 11 parados que ela sozinha conseguia derrotar todos os monstros da última batalha. Era incrível. Tinha criado meu próprio Goku.

Se eu não aprendi inglês com Shining Force II, posso dizer que aprendi bastante sobre mitologia. Foi praticamente um curso básico for kids. Grifos, centauros, hidras, cérberos, quimeras, minotauros. etc. Aprendi que os seres da mitologia grega tinham muitas cabeças e braços, e eram muito fortes, ao contrário dos brasileiros, como o saci que não tem perna, a mula que não tem cabeça e por aí vai.

Eu amo esse jogo. Sinto falta de outros jogos com esse estilo de batalha e que também sejam focados em exploração de mapas e diálogos. Confesso que tenho medo de jogar de novo (agora sabendo inglês) e ver que os diálogos na minha cabeça eram muito mais legais do que eles realmente são. Mas deixa pra lá. Sei que, independentemente dos diálogos, o jogo bebe da fonte de velhos clichês, e eu adoro clichês. Recomendo a todos. Um pouco de clichê nunca faz mal a ninguém.

 

10981681_648753861925185_242055385813117202_nSobre o autor

Marcos Castro é comediante e matemático. Tem um canal no YouTube com mais de 1 milhão de inscritos e 100 milhões de visualizações. É criador dos webhits Um Joystick, Um Violão, Cantadas Ruins e A Lenda do Herói. Quando tem graça, é graças ao lado comediante. Quando não tem, é culpa do lado matemático.

 

 

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31 Gaems é uma série de 31 textos, escritos por 31 autores, sobre 31 jogos. Além da publicação no Overloadr, os ensaios também farão parte do app/zine Glitch Gazette, em desenvolvimento por André Asai, do Loud Noises.

Leia os outros ensaios do 31 Gaems já publicados no Overloadr:

Super Metroid – simulador de sobrevivência solitária – Thais Weiller
Super Mario Bros. 3 – entretenimento e magia – Marcos Venturelli
We Love Katamari – mas eu amo um pouquinho mais que você – Karen “bitmOO”
Warcraft III – herói sem luzinha – Lucas Molina
A densa névoa de Kentucky Route Zero  George Schall
Streets of Rage 2: Ruas da Treta  Danilo Dias
Não preciso de vida, já tenho Mass Effect – Bárbara Bretanha

Super Mario Bros.: The zoeira levels  Thiago “Beto” Alves
Skyrim: O Dovahkiin desperta
 – Eduardo Emmerich
Pocky & Rocky 2: shmup sem navinha – Amora Bettany
Como abri uma porta que não existia em Versailles 1685 – Mauricio Perin
X-COM: Terror das profundezas (da memória) Ivan Garde
Rez: Nós somos performers eletrônicosHenrique Sampaio
Metal Gear Rising: Valeu, Samuca – Glauber Kotaki
Donald Duck: Goin’ Quackers – Sobre não estar mais aqui – Julianna Isabele
Jet Set Radio: A paixão segundo J.S.R. – Lucas “Midio”
Vamos assaltar com Pokémon! – André Asai

Mother 3: A virtude dos defeitos – Marina Val
Super Soccer e futebol no plural – Enric Llagostera
Max Payne 2: Como pude matar um homem – Diego Castillo
Sengoku Rance: apenas um jogoBruno Bulhões
Fatal Frame II (ou sobre como eu nunca precisei de um irmão mais velho) – Anita Cavaleiro
Bioshock Infinite e a feliz causalidade de ter um irmão mais velho – Giovana Penatti