É curioso e ao mesmo tempo assustador como certos pontos de virada em nossas vidas parecem acontecer por uma série de acasos. Era por volta de 1997 e meu pai estava trabalhando no Japão (naquela época era muito comum os dekasegis, que significa algo como ‘trabalhar pra ganhar dinheiro longe da família em uma terra distante, tipo do outro lado do mundo’) e claro, como todo hueBR, já fomos pensando nas muambas que ele traria quando voltasse. E eu nem pensei duas vezes… VIDEOGAME!

Eu tinha uns 11, 12 anos e até então eu só conhecia a maravilhosa geração dos 16-bit. O universo poligonal era algo de outra dimensão pra mim, metafórica e literalmente. Por telefone, eu lembro dele falando que ia trazer um Sega Saturn com um montão de jogos. Fiquei maluco de ansiedade, ainda mais que meu console de infância foi o Mega Drive e o Sonic era meu herói – sim, eu sou desse tipo de gente. Porém, um tempo depois, ele disse que o plano mudou e ia me trazer um Playstation. Fiquei um pouco desanimado com a notícia, mas de qualquer maneira era um videogame novo. Ele me perguntou que jogos eu queria, mas eu não fazia ideia do que pedir. Então ele falou que ia comprar Final Fantasy pois todos por lá estavam comentando, ainda mais por ser uma época próxima ao lançamento do jogo. Confesso que aceitei meio a contra gosto, e me faltavam contra argumentos.

image00

Tenho o jogo original guardado até hoje, mas não diria que em perfeitas condições.

Enfim, finalmente meu pai voltou, e eu, criança carinhosa que era, fui correndo abraçar as malas que ele trazia. O primeiro impacto ao ver o Playstation ligado foi um sentimento incomparável. Ver aquele 3D era mágico. No início, não importava que jogo era, eu já gostava só por esse forte teor de novidade. Mas depois do calor desse momento aspirando refrescâncias, eu comecei a prestar atenção na particularidade de cada jogo (que no caso eram Bio Hazard, Rage Racer, Street Fighter Zero 2 e Final Fantasy VII). Jogo de corrida e de luta eu já conhecia e nunca foram gêneros que curti muito, então os que me ganhavam um interesse maior era o Bio Hazard (que, algum tempo depois, todo mundo começou a chamar de Residente Evil) e o tal do Final Fantasy VII.

Apesar dos jogos de JRPG existirem desde a era 8-bit, o meu primeiro contato foi ali com Final Fantasy VII. Era muita coisa nova de uma vez e eu mal podia acreditar que aquilo tudo existia junto. Magias, lutas, espadas gigantes, robôs, dragões, ninjas… era uma overdose de coisas legais na minha visão de pré-adolescente. O que provavelmente sublimou um grande entrave que passou tranquilamente na minha jogatina: o jogo estava totalmente em japonês. E eu, mesmo com a forte descendência nipônica, não entendia uma letrinha sequer ali. Então presumam como foi a minha experiência.

Apesar de ter vindo com manual, essas instruções não me ajudaram em absolutamente nada.

Apesar de ter vindo com manual, essas instruções não me ajudaram em absolutamente nada.

Sem nunca ter jogado RPG eletrônico antes e sem saber ler nada do que estava escrito ali, a minha jogabilidade foi totalmente diferente do que a proposta do game provavelmente trazia. Primeiro que, logo de início pude nomear os personagens, o que eu não estava muito acostumado a fazer. Nomeei o Barret, como Mari, nome da minha irmã mais nova, só pela zoeira. Todo diálogo era apertar bolinha constantemente e se surgia alguma escolha, a gente sempre optava pela primeira alternativa, essa era a regra. O sistema de batalhas foi penoso para entender. Sacar qual opção era item, qual era magia e qual era ataque. Um esquema de tentativa e erro que só a paciência daquela época me permitiria. Em um momento descobri que apertando um dos botões dava para fugir da luta e depois disso, fugi de todas que me apareciam na frente, o que me fez chegar num momento onde haviam chefes obrigatórios e eu não estava nem perto do nível necessário para enfrentá-los.

Os carismáticos personagens de FF VII.

Os carismáticos personagens de FF VII.

A internet ainda engatinhava, então nossa grande fonte de informações eram as revistas, que nos salvavam muitas vezes e nos confundia em outras. Lembro de anotar cada ideograma das magias e sacar qual era raio, fogo, gelo, etc. A emoção de ver as cutscenes (que a gente chamava de ‘filminho’ ou ‘CG’) e as invocações compensavam qualquer esforço. Pela primeira vez eu tinha essa sensação de grandiosidade nos elementos do jogo, que iria se repetir algumas vezes depois com Shadow of Colossus, God of War e Dark Souls por exemplo.

Era um fascinante mundo novo, repleto, infinito. Era como cair num planeta extraterreste. E só depois dessa fantástica experiência que fui me dar conta de aspectos dos jogos que me passavam batido, mas que eu já adorava, como as trilhas sonoras, os artistas envolvidos, o level design, as artes e os conceitos. Sem dúvida isso me influenciou muito em escolhas profissionais futuras, seguindo rumos dentro da computação gráfica e da belas artes.
Além disso, o jogo me trouxe o maravilhoso mundo dos JRPGs e também minha primeira percepção em estar dentro de um nicho, em que eram raros os coleguinhas que compartilhavam da empolgação fervorosa com esse gênero.

Até hoje não rejoguei Final Fantasy VII em um idioma compreensível, e ainda assim ele continua sendo um dos meus games favoritos. Claro que, para muitos, ele não é tudo aquilo que falam. Mas para mim, e principalmente pra esse eu de 12 anos em 1997, é sem dúvida uma fabulosa obra prima. Afinal, a arte é assim, vai além das fronteiras que a delimitam e se vale muito mais da fusão com o universo dentro de cada um. E ainda tem gente que diz que video game não é arte…

ryotSobre o autor

Ricardo Tokumoto, ou Ryot, é quadrinista, ilustrador e animador. Trabalha com ilustração para fins científicos, didáticos, literários e de entretenimento. É também autor das tiras no site ryotiras.com e gosta mais de video game do que de batata.

 

 

Leia os outros ensaios do 31 Gaems já publicados no Overloadr:

Super Metroid – simulador de sobrevivência solitária – Thais Weiller
Super Mario Bros. 3 – entretenimento e magia – Marcos Venturelli
We Love Katamari – mas eu amo um pouquinho mais que você – Karen “bitmOO”
Warcraft III – herói sem luzinha – Lucas Molina
A densa névoa de Kentucky Route Zero  George Schall
Streets of Rage 2: Ruas da Treta  Danilo Dias
Não preciso de vida, já tenho Mass Effect – Bárbara Bretanha

Super Mario Bros.: The zoeira levels  Thiago “Beto” Alves
Skyrim: O Dovahkiin desperta
 – Eduardo Emmerich
Pocky & Rocky 2: shmup sem navinha – Amora Bettany
Como abri uma porta que não existia em Versailles 1685 – Mauricio Perin
X-COM: Terror das profundezas (da memória) Ivan Garde
Rez: Nós somos performers eletrônicosHenrique Sampaio
Metal Gear Rising: Valeu, Samuca – Glauber Kotaki
Donald Duck: Goin’ Quackers – Sobre não estar mais aqui – Julianna Isabele
Jet Set Radio: A paixão segundo J.S.R. – Lucas “Midio”
Vamos assaltar com Pokémon! – André Asai

Mother 3: A virtude dos defeitos – Marina Val
Super Soccer e futebol no plural – Enric Llagostera
Max Payne 2: Como pude matar um homem – Diego Castillo
Sengoku Rance: apenas um jogoBruno Bulhões
Fatal Frame II (ou sobre como eu nunca precisei de um irmão mais velho) – Anita Cavaleiro
Bioshock Infinite e a feliz causalidade de ter um irmão mais velho – Giovana Penatti
Shining Force II – Um jogo brilhante, com o perdão do trocadilho – Marcos Castro
The Legend of Zelda: Majora’s Mask – O inimigo é o tempo – Marcus Oliveira
Sobre mundos ocultos e Gabriel Knight 2 – Caio Teixeira

  • Yoshimitsu Pink

    Essa foi a melhor publicação impressa de games que eu já vi.

    • Eu cheguei a ter 3 edições, a primeirona que vi, uma que comprei pra guardar e uma terceira que vi anos depois.

    • rrryot

      caraca, era essa mesma a revista!!!!

  • rodrigo

    devo ter na casa da minha mãe, minhas midias de FF VII, perdi o case e o encarte…. e acho que o cd 2 esta riscado, mas da para jogar naquela parte