Aprendi duas lições importantes sobre a vida jogando The Legend of Zelda: Majora’s Mask. A primeira é uma obviedade, mas vale a pena explicitar: bem sucedidos são aqueles que sabem escolher suas máscaras.

O Goron só vai parar de rolar caso você também seja Goron. O Zora mais popular dos mares só deixa outros Zoras entrarem na banda. O Rei Deku não vai dar ouvidos para qualquer um que não seja um Deku. Essas situações de Majora’s Mask são apenas caricaturas da nossa própria vida. Seja no sorriso forçado para o cliente babaca ou na neutralidade de nossos rostos ao pegar o metrô após um dia difícil, sempre carregamos algumas máscaras conosco. Se não acredita nisso, torça para nunca precisar abrir seu menu de inventário. O choque de realidade é doloroso e a inocência é uma máscara bastante frágil.

Mas, como disse, tudo isso é uma imensa obviedade. A lição mais importante que Majora’s Mask me ensinou é mais facilmente refutável e muito mais assustadora: a de que o maior inimigo que encaramos ao longo de nossas vidas é absolutamente imbatível. Não há grind, ponto fraco ou cheat code que supere esse chefão final, esse monstro cruel e impiedoso, que se chama tempo.

Tinha 12 anos quando comecei a jogar Majora’s Mask. Na primeira vez que coloquei o cartucho no meu Nintendo 64, estava com os olhos inchados. Havia acabado de descobrir que uma pessoa muito próxima de mim estava doente e corria o risco de não se recuperar. “Posso ter meses, Marcus, posso ter anos. Não tem como saber”. Essas eram as exatas palavras que martelavam minha cabeça quando liguei o console e peguei o controle.

Tudo o que queria naquele momento era reencontrar o velho amigo de túnica verde que havia se tornado, com minha ajuda, um grande herói anos atrás. Queria, em troca de minha ajuda, que aquele herói me salvasse por alguns dias do mundo real. Precisava sumir, esquecer da vida, e um novo Zelda parecia o destino de férias ideal.

Tudo o que não esperava era ter que encarar dentro do jogo o inimigo do qual estava tentando fugir naquele momento. Majora’s Mask, afinal de contas, é pontuado por tique-taques e tragédias anunciadas. É um jogo que começa no fim do tempo, e o fim do tempo era o monstro que mais me aterrorizava naquele momento.

Talvez isso não seria um problema se, como em Ocarina of Time, eu pudesse controlar o passado e o futuro tocando algumas notas em uma flautinha. Mas o Herói do Tempo que ajudei a criar pouco conseguia influenciar os relógios de Termina. Amaldiçoado a assistir o fim do mundo repetidamente, Link, assim como eu, estava sendo punido por tentar fugir de sua própria linha do tempo.

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Muitos acham Majora’s Mask um game assustador. Dizem que ele, por alguma razão, causa certo desconforto. Eu mesmo lembro de ter pesadelos com a expressão de agonia insana da lua, o sorriso macabro da réplica de Link, a risada aguda do Skull Kid ou os olhos vidrados da máscara de Majora. Mas hoje em dia acredito que a principal causa de medo e incômodo do game está na mensagem transmitida através de suas entrelinhas. Corremos, desesperados, para terminar um dos templos enquanto o nariz da lua quase toca o solo, sabendo que em breve teremos que pegar a ocarina, regredir três dias no passado e encontrar tudo o que fizemos desfeito. Essa impotência perante o tempo, tão verdadeira e constante em nossas vidas, é o que torna Majora’s Mask realmente aterrorizante.

Meu medo do jogo, no entanto, não era maior do que meu medo da vida real naquele momento. Decidi, então, transformar o terror em ódio e encarar a missão de salvar Termina com um fervor religioso. O tempo não cura nada, repetia para mim mesmo enquanto ouvia os sinos do relógio batendo o aviso de que tinha apenas 72 horas para salvar o mundo. Dar tempo ao tempo é dar trégua para um inimigo que nunca irá retribuir o favor. 48 horas. Quem espera nunca alcança. 24 horas. Aceite, se conforme, se acomode e aquela lua ensandecida vai rapidamente destruir tudo o que você ama. 12 horas. O tempo é o seu chefão final, e você deveria começar a olhar para o relógio com um pouco menos de passividade. Song of Time. 72 horas. O tempo não cura nada.

Foram semanas do mundo real que passei preso naquele ciclo repetitivo de três dias virtuais. Foi só quando terminei Majora’s Mask que percebi a ironia amarga dos meus atos. Não queria deixar a lua cair porque não queria aceitar que não havia nada que poderia fazer para evitar aquilo na vida real. Mas dessa experiência, da minha jornada de ódio e negação naquele reino estranho onde a lua tem rosto e máscaras tem poderes, tirei ao menos algumas boas dicas sobre como encarar o tempo — tudo graças ao garotinho de túnica verde que, mesmo diante do impossível, nunca desistiu de lutar.

Link me mostrou, enquanto ajudava os habitantes de Termina a solucionar seus problemas, que há muito o que fazer com o tempo que nos é dado. Que apesar de nem sempre ser possível mudar o fim, podemos ao menos conquistar pequenas e gloriosas vitórias contra esse inimigo imbatível. Majora’s Mask termina em redenção. A lua não cai, o Skull Kid se livra da maldição e nosso Herói do Tempo aceita, enfim, o fim de seu próprio tempo. Então talvez haja uma terceira lição que podemos tirar desse jogo, menos amarga do que as duas primeiras e bem mais fácil de esquecer.

Já faz 15 anos que joguei Majora’s Mask, e aquela pessoa próxima de mim ainda não nos deixou. Passamos por vários alarmes falsos e muitos sustos, mas ela ainda está aqui, rindo de cada pequena vitória contra o tique-taque da vida. Um dia a lua há de cair. Sabemos bem disso. Ela sempre, sempre cai. Mas há sempre espaço em nossos relógios para um pouquinho de esperança.

 

marcusSobre o autor

Graduado em letras pela USP, Marcus Oliveira é jornalista, escritor, tradutor e lembra de cor o monólogo de abertura de Full Throttle. Ex-Kotaku e idealizador do portal Last Hit, atualmente trabalha como repórter para o IGN Brasil.

Crédito da pintura: Spire-III

 

 

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31 Gaems é uma série de 31 textos, escritos por 31 autores, sobre 31 jogos. Além da publicação no Overloadr, os ensaios também farão parte do app/zine Glitch Gazette, em desenvolvimento por André Asai, do Loud Noises.

Leia os outros ensaios do 31 Gaems já publicados no Overloadr:

Super Metroid – simulador de sobrevivência solitária – Thais Weiller
Super Mario Bros. 3 – entretenimento e magia – Marcos Venturelli
We Love Katamari – mas eu amo um pouquinho mais que você – Karen “bitmOO”
Warcraft III – herói sem luzinha – Lucas Molina
A densa névoa de Kentucky Route Zero  George Schall
Streets of Rage 2: Ruas da Treta  Danilo Dias
Não preciso de vida, já tenho Mass Effect – Bárbara Bretanha

Super Mario Bros.: The zoeira levels  Thiago “Beto” Alves
Skyrim: O Dovahkiin desperta
 – Eduardo Emmerich
Pocky & Rocky 2: shmup sem navinha – Amora Bettany
Como abri uma porta que não existia em Versailles 1685 – Mauricio Perin
X-COM: Terror das profundezas (da memória) Ivan Garde
Rez: Nós somos performers eletrônicosHenrique Sampaio
Metal Gear Rising: Valeu, Samuca – Glauber Kotaki
Donald Duck: Goin’ Quackers – Sobre não estar mais aqui – Julianna Isabele
Jet Set Radio: A paixão segundo J.S.R. – Lucas “Midio”
Vamos assaltar com Pokémon! – André Asai

Mother 3: A virtude dos defeitos – Marina Val
Super Soccer e futebol no plural – Enric Llagostera
Max Payne 2: Como pude matar um homem – Diego Castillo
Sengoku Rance: apenas um jogoBruno Bulhões
Fatal Frame II (ou sobre como eu nunca precisei de um irmão mais velho) – Anita Cavaleiro
Bioshock Infinite e a feliz causalidade de ter um irmão mais velho – Giovana Penatti
Shining Force II – Um jogo brilhante, com o perdão do trocadilho – Marcos Castro

 

  • Cesar Vital Crivelaro

    Meu Deus, terminei de ler com os olhos marejados! :’-)
    Que texto brilhante e bem escrito! Que storytelling! Nunca mais vou conseguir olhar o jogo novamente como antigamente depois desse depoimento.

    *clap* *clap* *clap*

  • Felipe Brito

    E essa é a história em que o Majora’s Mask 3D vai pro topo da minha lista de prioridades.

  • Victor Domiciano

    Caralho! A coluna 31 Gaems tá cada semana numa crescente incrível! Não são apenas relatos sobre seus jogos, mas verdadeiras histórias e lições de vida.

  • Igor Freire

    que belo texto, amigos. que belo texto.

  • Fabio Picchi

    Finalmente consegui ler! Muito bom o texto ;_;

  • Cara, muito bom! Parabéns!

  • Samuel Madeira

    Excelente texto Marcus, obrigado por compartilhar conosco. Meus mais sinceros agradecimentos.