A quinta-série do Ensino Fundamental – nem tentarei classificar isso no sistema de ensino atual – não foi fácil. Eu tinha 11 anos, minha família achou que eu precisava de um colégio melhor e me matriculou em um novo que ficava em Bragança Paulista (eu morava em Atibaia, há cerca de 30 minutos). Então no começo de 1997, lá estava eu, entrando em uma sala de aula e cidade diferentes. Parecia que minha vida de 3 anos antes, quando eu estava de mudança de São Paulo para Atibaia, se repetia: não conhecia ninguém, não sabia como as regras do colégio funcionavam, não entendia a necessidade de freiras andando pelos corredores e nem de ter aula de “Religião”. Era tudo estranho.

Menos os videogames.

Após passar horas num lugar completamente alienígena para a minha cabeça de 11 anos, eu voltava o mais rápido possível para casa, sentava em frente ao meu computador e passava o resto do dia fuçando ele. Internet ainda era um rumor incompreensível, já que minha casa era afastada e Atibaia não era exatamente conhecida por sua boa conexão (ou mesmo serviços em geral). Passava boa parte dos meus dias brincando com a Enciclopédia e Dicionário Ilustrado Koogan-Houaiss – mais especificamente no verbete “Orquestra”, que dava a possibilidade de clicar em cada instrumento separado para escutar o seu som e, ao ligar todos simultaneamente, começavam a tocar uma sinfonia de Beethoven.

gabriel-knight-2-2Um ou dois meses após o início das aulas no colégio novo, meu pai percebeu a minha falta de amigos e dificuldade de me relacionar com pessoas de outra cidade, afinal, não era fácil conseguir marcar de ficar na casa de algum colega para brincar ou mesmo chama-los para minha casa em outra cidade. Ele decidiu me dar um presente de aniversário antecipado: The Beast Within: A Gabriel Knight Mystery (também conhecido simplesmente como Gabriel Knight 2 e, aqui no Brasil, A Fera Interior).

Várias coisas me fascinaram no jogo: a possibilidade de ver pessoas reais fazendo o que eu as mandava fazer (era meu primeiro contato com jogos em FMV), as legendas que me permitiam acompanhar perfeitamente o que estava acontecendo na trama e o mistério do jogo em si.

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Jogamos clássicos dos jogos em FMV em nossa série HRQ vs. FMV

Foi nessa época também que comecei a ler mais, comprar livros que não eram pedidos pela escola, e era totalmente apaixonado por publicações de terror e mistério. Aí juntamos uma criança que está se sentindo solitária, uma fascinação por mistérios e um jogo que caminha entre história real e o fantástico e pronto: eu não fazia mais nada, não lia mais nada, não queria desgrudar do meu computador nem para comer. Eu literalmente sonhava com a história do escritor Gabriel Knight e suas pesquisas sobre o ocultismo para seu próximo livro, suas viagens pela Alemanha atrás de mais detalhes sobre um possível ataque de lobisomens e como tudo isso se ligava ao Rei Ludwig II (Luís II da Baviera).

O castelo Neuschwanstein, presente em Gabriel Knight II

O castelo Neuschwanstein, presente em Gabriel Knight II

Os detalhes e cuidado com o roteiro eram tão grandes, específicos e fantásticos que comecei a questionar se a história não seria verdadeira. Vale notar que, por algum motivo, essa também foi a época na qual sofri uma paixonite aguda por todos os livros de Anne Rice e ainda era um fervoroso entusiasta de RPGs sem um grupo para poder jogar, ou seja, eu realmente acreditava na possibilidade de seres sobrenaturais existirem.

Entrei de cabeça na história do jogo e comecei a fazer anotações e encontrar conspirações durante as aulas. Enquanto a professora de matemática dava aula, eu estava escrevendo em um caderninho todas as ideias que pipocavam na minha cabeça: sempre falaram que uma chácara perto da minha casa era assombrada, mas e se ela fosse mesmo?! Outro dia escutei um barulho estranho na rua… E ERA LUA CHEIA! Lembro claramente da sensação de como um mundo novo havia sido aberto para mim e só para mim. Eu era o único habitante daquele território limítrofe entre a chatice do Colégio Coração de Jesus e as hordas de demônios, vampiros, anjos e ETs (zumbis, como todos sabem, são uma grande bobagem). Todos os seres que faziam parte dessa realidade eram páreas, condenados a vagar longe do mundo normal. Tal como eu.

Eu voltava a fazer parte de algo. E era incrível.

– Ei… Psiu… O que você tá escrevendo aí? – me perguntou o garoto que sentava atrás de mim e nunca havia sequer me cumprimentado nos três meses que eu já estava ali
– Ah! Nada… – respondi fechando meu caderno e olhando para frente nervoso
– Eu li um pouco por cima e parece legal. Posso dar uma olhada?

Virei na minha carteira e olhei para o moleque intrometido que tentava entrar nesse mundo incrível que era só meu: gordo, cabelo cacheado, os dois dentes da frente protuberantes, bochechudo e com um sorrisão no rosto. Mas o que eu mais notei era que ele não queria invadir nada, ele estava pedindo permissão para participar de algo. Sim sim… A vingança dos CDFs (na minha época não existia o culto aos “nerds”; éramos CDFs e odiávamos sê-los) e tudo aquilo.

Por mais que o meu mundo recém-descoberto e recheado de segredos fosse incrível, no fundo eu queria compartilhá-lo. Acho que toda criança quer. Mesmo porque os relatos que eu encontrava sobre vampiros, lobisomens e demônios não indicavam que eles iriam me colocar em algum clubinho quando eu os encontrasse (ah, sim, além de acreditar piamente na existência de tudo isso, eu tinha certeza de que iria encontrar todas essas criaturas e, nos dias mais otimistas, talvez me transformassem em um vampiro).

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José Paulo era o nome do meu novo amigo. Ele não era como as outras crianças daquele colégio: não era rico e estudava graças a uma bolsa que conseguiu com suas notas, não era popular e morava em um apertado sobrado onde também funcionava a loja de reparos de eletrodomésticos do seu pai. E como só crianças conseguem, em menos de uma semana já éramos melhores amigos, mas mesmo assim, com toda a confiança, precisei dessa semana para só depois apresenta-lo a Gabriel Knight.

Zé Paulo tinha um computador velho que seu pai havia “adotado” de uma cliente, mas suficientemente bom para rodar o jogo. “Seguinte, eu estou travado em uma parte no terceiro disco (o jogo era composto por 6 CDs), então fica com os dois primeiros e vamos evoluindo juntos”, disse para ele numa segunda-feira fria – na minha memória, todos os dias daquele ano foram frios.

Meu novo amigo era irremediavelmente mais inteligente e rápido de resolver os quebra-cabeças que eu. Em alguns dias ele havia me alcançado. Lembro de sentir um pouco de inveja do intelecto do garoto, mas também foi revigorante ter alguém com quem conversar sobre. Mas algo mais mágico aconteceu: Zé Paulo ficou tão ou mais obcecado pelo ocultismo apresentado no jogo. O moleque não só encontrou, como vislumbrava o meu mundo secreto e procurava uma maneira de entrar nele desesperadamente. Ele queria meus livros emprestados, queria ler minhas anotações. E eu, fascinado por ter cativado um aliado tão forte, tive o prazer de trazê-lo comigo.

Ele tratava essa nossa fantasia com o fervor e diligência de um catedrático: catalogava as espécies dos vampiros, raças de lobisomens, pesquisava as hordas demoníacas e esquadrinhava as legiões angelicais metodicamente. “Precisamos de mais informação, falei com a minha mãe e você dorme em casa hoje, de tarde vamos à Biblioteca Municipal (de Bragança)”, me informou durante um de nossos recreios gelados enquanto se empanturrava de Glico Ebicen de Camarão.

Pelo menos duas vezes por semana eu dormia na casa do Zé Paulo. Tínhamos muita pesquisa, muito jogo para ver, quebra-cabeças a decifrar.

gabriel-knight-2-3O ano voava entre o virar de páginas de cada volume gigantesco de “Ocultismo e outros Mistérios” que encontramos na biblioteca – inclusive, o acervo de coisas fantásticas e sobrenaturais da Biblioteca Municipal de Bragança era invejável. Passamos dias apenas lendo sobre relatos de encontros com alienígenas.

Mas quanto mais forte era o nosso fervor, mais minhas notas no colégio caiam. Eu não conseguia desligar minha cabeça das teorias, histórias e mitos que pesquisávamos. A realidade se tornava mais… Fria?

Levamos cerca de 6 meses no total para terminar Gabriel Knight 2. O Zé terminou um dia antes que eu, já que havíamos trocado de tarefas – ele ficava com o jogo enquanto eu pesquisava mais sobre a possibilidade do Rei Ludwig II ter sido de fato um lobisomem (inconclusivo).

Terminar o jogo não foi agradável, vi os créditos rolando com um aperto no coração: o jogo acabou, as aulas chegavam ao fim e eu já havia implorado para meus pais me tirarem do colégio e eles concordaram, só pediram para eu aguentar fechar o ano. Por mais que o Zé e o jogo tivessem me ajudado, eu não aguentava mais ficar tão sozinho e desconectado dos meus amigos do colégio anterior. Além disso, eu insistia que minhas notas melhorariam se voltasse a estudar em Atibaia – o que provou ser um engano nos anos seguintes.

Lembro de um dos últimos dias que passava a tarde na casa do Zé, Gabriel Knight já estava fechado, jogávamos Sunset Riders no Super Nintendo dele. “Será que você consegue vir de ônibus depois do colégio para darmos um pulo na biblioteca?”, me perguntou enquanto fazia seu personagem correr sobre uma manada de touros. Sem tirar os olhos da tela respondi de bate-pronto que “com certeza”. E eu realmente achava que daria certo. Mas o meu eu criança sempre foi péssimo em lembrar das promessas.

Nas semanas que passaram fui falando cada vez menos com meu amigo. Em algum momento ele se distanciou daquele nosso mundo fantástico, voltou a enfiar a cara nos livros; já eu estudava freneticamente para minhas provas de recuperação.

Um dia eu não voltei mais para Bragança.

Gabriel Knight 2 é o meu jogo predileto de todos os tempos não pelo seu roteiro, atuação ou quebra-cabeças, mas porque ele trouxe uma das amizades efêmeras mais interessantes que já tive o prazer de ter. O jogo é o meu predileto porque ele expandiu minha vontade de conhecer o mundo e as fantasias que criamos nele. É um jogo que me mostrou que videogame não é tudo e nem uma válvula de escape da vida, mas sim um chamariz para uma realidade que sempre esteve ali, que eu só não sabia onde encontrar.

 

Caio Teixeira

Sobre o autor

Sócio-fundador do Overloadr, Caio Teixeira é formado em jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu. Já foi editor-executivo da área de games do iG, editor da coluna de games na revista Mundo Estranho e churrasqueiro substituto de todas as festas nas quais não conhecia ninguém. Em 1994 marcou um gol contra durante um jogo amistoso em seu colégio, desde então tenta se redimir dos seus erros. Todos eles.

 

 

 

Leia os outros ensaios do 31 Gaems já publicados no Overloadr:

Super Metroid – simulador de sobrevivência solitária – Thais Weiller
Super Mario Bros. 3 – entretenimento e magia – Marcos Venturelli
We Love Katamari – mas eu amo um pouquinho mais que você – Karen “bitmOO”
Warcraft III – herói sem luzinha – Lucas Molina
A densa névoa de Kentucky Route Zero  George Schall
Streets of Rage 2: Ruas da Treta  Danilo Dias
Não preciso de vida, já tenho Mass Effect – Bárbara Bretanha

Super Mario Bros.: The zoeira levels  Thiago “Beto” Alves
Skyrim: O Dovahkiin desperta
 – Eduardo Emmerich
Pocky & Rocky 2: shmup sem navinha – Amora Bettany
Como abri uma porta que não existia em Versailles 1685 – Mauricio Perin
X-COM: Terror das profundezas (da memória) Ivan Garde
Rez: Nós somos performers eletrônicosHenrique Sampaio
Metal Gear Rising: Valeu, Samuca – Glauber Kotaki
Donald Duck: Goin’ Quackers – Sobre não estar mais aqui – Julianna Isabele
Jet Set Radio: A paixão segundo J.S.R. – Lucas “Midio”
Vamos assaltar com Pokémon! – André Asai

Mother 3: A virtude dos defeitos – Marina Val
Super Soccer e futebol no plural – Enric Llagostera
Max Payne 2: Como pude matar um homem – Diego Castillo
Sengoku Rance: apenas um jogoBruno Bulhões
Fatal Frame II (ou sobre como eu nunca precisei de um irmão mais velho) – Anita Cavaleiro
Bioshock Infinite e a feliz causalidade de ter um irmão mais velho – Giovana Penatti
Shining Force II – Um jogo brilhante, com o perdão do trocadilho – Marcos Castro
The Legend of Zelda: Majora’s Mask – O inimigo é o tempo – Marcus Oliveira

  • Grillo

    Deixaram você participar da brincadeira Teixeira?

  • Mauricio

    Sinto muito pelo gol contra Teixeira :’/

  • Tais

    que texto fascinante. o 31 gaems é o que me dá mais gosto de ler nesse site <3

  • Diego Silva

    Putaqueopariu! Obrigado cara

  • reifison

    Cara, que texto foda.. um dos melhores ( se não o melhor ) da serie 31 gaems. Me fez lembrar de uma amizade de infância tmb.

  • “Thomas, Herr Doktor Klingmann here. Show our wolves to Mr. Knight”.

  • Antonio Carlos Bleck Bento

    Putz que texto sensacional, já ouvi o Teixeira comentar partes dessa “aventura” em vários casts, mas achei genuinamente emocionante finalmente ter acesso a historia completa. Juntar isso as historias da sua época de fanzineiro, entre outras, me faz torcer pra que você tenha planos de publicar sua biografia um dia.