O mercado de games é uma área de atuação profissional muito empolgante hoje em dia. É também extremamente assustadora. A multitude de modelos de negócio, plataformas, novas tecnologias, gêneros e formatos de games torna praticamente impossível prever os caminhos de desenvolvimento futuros dentro da indústria.

Essa realidade é ainda mais aterrorizante para estúdios grandes que precisam fazer apostas altas e assumir riscos sobre projetos que levam vários anos para serem concluídos, sem nenhuma garantia de que as condições de mercado se manterão iguais às suas projeções durante esse tempo. Será que os games como nós os conhecemos hoje, nas plataformas e modelos de distribuição consagrados nos últimos 30 anos, estão fadados a morrer em um futuro próximo?

Esse assunto voltou à tona com bastante força recentemente devido a um artigo do Brian Crecente no Polygon (em inglês). Nele, o autor argumenta que videogames em consoles de mesa são um arranjo ultrapassado e inútil, que precisa ser descartado o mais rápido possível para que a indústria continue se movendo para a frente.

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A Konami, de Metal Gear Solid, anunciou recentemente uma transição de foco dos consoles para o mercado mobile

Decidi puxar essa conversa com amigos e fazer uma pesquisa mais extensa para tentar entender melhor a opinião do público e da crítica de games sobre o assunto. Apesar de eu já ter uma posição formada há alguns anos a respeito dessa questão, achei que era o momento de me reciclar e questionar novamente meus pontos de vista – quem sabe as mudanças de contexto não me levariam a uma conclusão diferente desta vez?

Enumerei a seguir alguns dos argumentos mais comuns que encontrei durante essa pesquisa, e adicionei a eles as minhas considerações.

Consoles são inúteis. Para minha surpresa, um dos argumentos mais frequentes entre os que se consideram “entendidos” do assunto, e também um dos principais pontos no artigo do Brian, é que os consoles de mesa não fazem mais sentido como um equipamento dedicado exclusivamente aos games. Uma das analogias que encontrei compara os consoles aos players de música (iPods e afins), que se tornaram completamente obsoletos a partir do momento em que smartphones passaram a servir o mesmo propósito, além de terem inúmeras outras funções.

Na minha opinião, essa analogia só fará sentido quando as soluções alternativas aos consoles forem “feature-complete”, ou seja, cobrirem todas as funcionalidades e facilidades de uso que os consoles oferecem hoje em dia: setup instantâneo e fácil para leigos, garantia de funcionamento de todos os games, estrutura unificada de serviços online, etc. As alternativas conhecidas (PCs, Steam Machines, AppleTV e similares) ainda deixam muito a desejar em vários desses pontos.

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Consoles são um ambiente hostil aos indies. Vários são os argumentos apresentados para provar esse “fato”: tempo e custo de produção mais altos devido ao processo de certificação, dificuldade em obtenção dos kits de desenvolvimento dos consoles, falta de canais de comunicação e exposição dos games. As histórias de terror contadas por Jonathan Blow e Phil Fish sobre a odisseia de publicar seus games nos consoles são apresentadas como evidências dessa constatação.

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As dificuldades de publicação de Fez (2012) nos consoles é um dos temas do documentário Indie Game: The Movie

Novamente, acredito que há algumas falácias e interpretações erradas nessa argumentação. O extinto serviço Live Arcade do Xbox 360, apesar de falho em alguns desses pontos, ainda assim foi a primeira grande vitrine dos jogos indie nos consoles. E mais importante: foi o aprendizado desses 10 anos, particularmente nas sagas amplamente documentadas de Braid e Fez, que pavimentou o caminho de acesso mais fácil dos indies às grandes plataformas que vemos hoje.

A Sony hoje demonstra uma maior maturidade no tratamento dos indies, o que se evidencia na qualidade dos jogos independentes presentes no PS4, uma parte importantíssima do portifólio desse console até hoje.

Quanto ao processo de certificação, ele serve para garantir um mínimo de qualidade dos games publicados, uma prática que há 30 anos resgatou a indústria do colapso que havia sofrido em 1983. Se por um lado esse filtro torna mais díficil, demorado e caro o processo de auto-publicação de um game indie nos consoles, por outro ele nos defende contra o sucateamento do mercado. O próprio Steam, referência em abertura e facilidade de auto-publicação, descobriu a importância de atacar esse problema com o programa Greenlight – no caso deles, crowdsourced, devido à quantidade gigantesca de novos games que lhes é oferecida todos os dias.

Serviços de assinatura matarão a venda de unidades de games. Claramente, serviços de assinatura que dão acesso a games são uma parte importante do presente e futuro da indústria. Games with Gold e PS Plus já são uma versão, apesar de limitada, desse modelo de negócio em ação, e o sucesso deles só nos diz que a ideia será cada vez mais expandida. Mas os profetas do apocalipse dos consoles vão muito mais além, utilizando o exemplo do Netflix no mercado de vídeo domiciliar como prova irrefutável do fim iminente dos games de caixinha.

Acho que esse é mais um caso de argumentos retorcidos de outras mídias sendo aplicados aos games, cujas condições de mercado são bem diferentes. Não consigo ver como chegaremos a um modelo de distribuição de games no qual uma única assinatura dá acesso a tudo – uma segregação massiva ainda vai existir, pelo fato de termos donos de plataformas tão fortes. O Netflix se aproveitou que não havia grandes empresas no modelo de distribuição sob demanda de filmes e séries com assinatura, e praticamente dominou esse mercado por muito tempo. Agora já estamos vendo alguns concorrentes, como a HBO, com conteúdo exclusivo entrando nesse mercado, e a própria Netflix produzindo seus próprios shows pra competir. Múltiplas plataformas, cada uma com a sua assinatura, produzindo exclusivos in-house pra bater a concorrência – soa familiar?

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Serviços de assinatura como PlayStation Plus serão cada vez mais comuns no mercado de games

Além disso, acho que precisamos de cuidado ao pensar que nós, consumidores hardcore que compram jogos suficientes para economizar grana com um eventual modelo de assinatura, somos representantes da maioria do mercado – é uma suposição perigosa. O mercado mainstream ainda se apoia muito nos métodos de descoberta e distribuição tradicionais, e mesmo que esses hábitos estejam mudando, não acho que isso acontecerá com uma velocidade tão grande ao ponto de tornar o modelo de caixinha obsoleto em um futuro próximo.

Por tudo isso, diferentemente de Brian Crecente e tantos outros nay-sayers, acredito fortemente que os consoles ainda sobreviverão por muito tempo, representando a experiência premium de consumo dos games, com qualidade, tecnologia e facilidade de uso que outras plataformas, como PCs e dispositivos móveis, não conseguirão emular. Ofertas de produtos como jogos em caixinha e serviços de assinatura ou fidelidade vão continuar co-existindo enquanto atenderem a parcelas tão distintas, mas igualmente importantes, do mercado consumidor dos games.

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Sobre o autor

Gilliard Lopes é produtor dos games da série FIFA na Electronic Arts, em Vancouver, Canadá, e colabora de forma independente com o Overloadr, além de participar do PodQuest, um podcast sobre desenvolvimento de games na indústria internacional. As opiniões expressadas aqui são unicamente do autor e não representam necessariamente a visão da Electronic Arts ou do Overloadr.