Eu sempre afirmei que Streets of Rage 2 foi o jogo que fez com que eu me interessasse por música, pelo fato de ele ter sido lançado para um console com o qual eu me identificava (o Mega Drive), além de ser totalmente acessível nos arcades de bairro e das praias que eu frequentava nos anos 90 – quem tem mais de 25 deve se lembrar. Porém, eram Top Gear e Superstar Soccer que mais reuniam os amigos da rua em que eu morava.

A primeira vez que joguei Top Gear foi em meados de 1997 na casa de um amigo, que vamos chamar de Rosbife – este era seu apelido na escola, pois ele sempre levava pão com rosbife para comer nos intervalos das aulas. Ele havia acabado de comprar o Super Nintendo, juntamente com o clássico Super Mario World. Logo em seguida, comprou um tal de Top Gear, o qual achávamos meio parecido com Outrun, mas só por que havíamos sido criados com consoles da Sega, pois, na real, nem era tão parecido assim. Uma das coisas que marcavam nossas disputas no jogo era sua trilha sonora, que com suas batidas sincopadas e arpeggios hipnóticos, faziam todos cantarolarem suas músicas até algumas horas depois.

panasonic

Com esse “brinquedinho” eu conseguia transferir as músicas dos cartuchos de Super Nintendo e Mega Drive para fitas cassetes, que ouvia a caminho da escola em meu Walkman

Após dois anos, eu já tinha um Super Nintendo e colocava em prática uma gambiarra para gravar fitas cassetes com trilhas de jogos. Utilizando o lindo modo soundtest dos games, um cabo RCA e um velho conjunto 3 em 1 da Panasonic, muito parecido com esse da foto ao lado, eu ligava a TV no aparelho e gravava as músicas pra escutar no ônibus a caminho da escola, usando um Walkman. Nessa época eu estudava música e fazia aulas de canto e teoria musical.

A música sempre fez parte da minha vida. Meus pais e tios amavam música, e sempre tinham uma quantidade enorme de discos e fitas cassete, de MPB a rock progressivo. Em 1997 eu, que escutava basicamente rock progressivo e heavy metal (pra dizer a verdade, eu também adorava pop e dance music, Duran Duran e Depeche Mode fizeram parte da minha infância tanto quanto Michael Jackson, mas como todo adolescente da época eu tinha vergonha de admitir), tive meu primeiro contato com produção de música eletrônica. Comecei usando o Cakewalk 95 e o ScreamTracker, para criar os famosos MODs (um formato de música para softwares baseados em DOS e Amiga, que infestava a internet na época). Neste período eu já colecionava uma quantidade gigante de arquivos midi com trilhas de games e brincava de remixar. Quando Rosbife me apresentou o Top Gear, eu comecei a ter contato com bandas como Covenant (que tem músicas com um estilo similar ao da trilha de Top Gear), Front 242, Underworld, Prodigy e Chemical Brothers. Meu gosto por tudo isso me fez gravar uma mixtape com músicas destas bandas misturadas às trilhas de Top Gear 1 e 2, Streets of Rage 2 e Verytex (um jogo obscuro de Mega Drive com uma trilha sonora muito boa).

Ouças as mixtapes do Overloadr aqui

Tive bandas e meio que desisti da música como profissão por um tempo para estudar tecnologia e trabalhar na área, porém em 2007 comecei a compor e estudar música eletrônica (produção e mixagem). Toquei e produzi por um tempo, mas não era o que eu queria. Eu queria mesmo era trabalhar com música de games, algo que não se passava de um sonho, na época. Acabei trabalhando com um amigo, também produtor, o Douglas Lali, num remix para a Las Vegas do Top Gear. Foi meu primeiro remix bem feito de games. Nesse tempo meu projeto PXLDJ estava praticamente começando e o remix ficou parado até eu tocá-lo pela primeira vez em 2010, num Anime Friends. Nessa mesma época o enviei para o compositor da trilha do Top Gear, Barry Leitch, que gostou do remix e desde então mantemos contato.

Douglas atualmente não trabalha mais com música eletrônica mas, assim como Rosbife, está sempre jogando. Barry Leitch, com quem continuo falando quase que diariamente sobre música, continua fazendo trilhas sonoras, inclusive, a de Horizon Chase, jogo brasileiro que faz homenagem a Top Gear. Eu, bem, eu não preciso mais fazer gambiarras pra ouvir música de games fora de casa.

 

thiago-adamoSobre o autor

Thiago Adamo trabalha com áudio e música para games desde 2008. Em 2014 criou o site Game Audio Academy para compartilhar o que ele aprendeu apanhando em todos estes anos nessa indústria vital. Ele gosta de cachorros, de alguns JRPGs que todo mundo odeia e qualquer tipo de sintetizador caro e velho.

 

 

Leia os outros ensaios do 31 Gaems já publicados no Overloadr:

Super Metroid – simulador de sobrevivência solitária – Thais Weiller
Super Mario Bros. 3 – entretenimento e magia – Marcos Venturelli
We Love Katamari – mas eu amo um pouquinho mais que você – Karen “bitmOO”
Warcraft III – herói sem luzinha – Lucas Molina
A densa névoa de Kentucky Route Zero  George Schall
Streets of Rage 2: Ruas da Treta  Danilo Dias
Não preciso de vida, já tenho Mass Effect – Bárbara Bretanha

Super Mario Bros.: The zoeira levels  Thiago “Beto” Alves
Skyrim: O Dovahkiin desperta
 – Eduardo Emmerich
Pocky & Rocky 2: shmup sem navinha – Amora Bettany
Como abri uma porta que não existia em Versailles 1685 – Mauricio Perin
X-COM: Terror das profundezas (da memória) Ivan Garde
Rez: Nós somos performers eletrônicosHenrique Sampaio
Metal Gear Rising: Valeu, Samuca – Glauber Kotaki
Donald Duck: Goin’ Quackers – Sobre não estar mais aqui – Julianna Isabele
Jet Set Radio: A paixão segundo J.S.R. – Lucas “Midio”
Vamos assaltar com Pokémon! – André Asai

Mother 3: A virtude dos defeitos – Marina Val
Super Soccer e futebol no plural – Enric Llagostera
Max Payne 2: Como pude matar um homem – Diego Castillo
Sengoku Rance: apenas um jogoBruno Bulhões
Fatal Frame II (ou sobre como eu nunca precisei de um irmão mais velho) – Anita Cavaleiro
Bioshock Infinite e a feliz causalidade de ter um irmão mais velho – Giovana Penatti
Shining Force II – Um jogo brilhante, com o perdão do trocadilho – Marcos Castro
The Legend of Zelda: Majora’s Mask – O inimigo é o tempo – Marcus Oliveira
Sobre mundos ocultos e Gabriel Knight 2 – Caio Teixeira

A primeira sétima fantasia final – Ricado “Ryot” Tokumoto

  • André Luz

    caraca eu joguei tanto esse jogo que a trilha dele ta praticamente gravada a fogo na minha cabeça, sempre cantarolo mentalmente quando estou dirigindo a noite sozinho hehe. Muito legal o texto kra.

    • thiagotd

      Obrigado André!
      Eu até hoje tenho uns setzinhos guardados com essas músicas pra viagens longas de carro, acho que são as melhores músicas pra esse tipo de momento 😀