A cena independente tem sido um bom refúgio para quem busca temas LGBT nos videogames. Embora a presença de personagens gays nos jogos seja cada vez mais significante, eles raramente alcançam o protagonismo nos títulos mais populares – The Last of Us e Gone Home talvez sejam os maiores exemplos.

O aprofundamento da temática gay (com o perdão da cacofonia), contudo, tem sido mais amplamente explorada em jogos menores e autorais, como o excelente Coming Out Simulator, que como o nome denota, simula a tensão e angústia da saída do armário para os pais, ou a brilhante série de Robert Yang, que explora diferentes facetas da sexualidade masculina moderna, como em Hurt Me Plenty e Stick Shift.

No campo das visual novels, um dos proeminentes é Coming Out on Top, um simulador de namoro sobre um jovem calouro de uma universidade e suas desventuras sexuais. Embora seja um jogo bem escrito (e criado por uma mulher heterossexual, vale notar), capaz de explorar as nuances do jogo de sedução ao ato sexual em si, de forma provocativa e bem humorada, ele se foca nos tipos clássicos do homoerotismo: corpos sarados e musculosos, com a opção de ligar ou desligar os pelos faciais e corporais.

Uma das coisas que torna Tusks: The Orc Dating Sim tão interessante é o fato de ele tratar de relacionamento gay em uma comunidade de orcs masculinos. A proposta de Mitch Alexander, seu criador, que também escreve para o tradicionalíssimo GayGamer, é injetar humanidade em orcs, normalmente retratados como monstros cruéis e isentos de sentimentos.

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“Monstros são eternos forasteiros e eu acho que muitas pessoas que não se adequam muito bem tendem a simpatizar mais com monstros do que com heróis, que tomam o centro do palco”, diz Alexander. Para ele, Orcs ficam relegados aos estereótipos e tropos enraizados em racismo, misoginia e homofobia. “Em vez disso, quero elencar os orcs como protagonistas e mostrar que muito do que pensamos sobre eles tende a refletir coisas das pessoas que os escrevem.”

Em Tusks, somos inseridos em uma pequena comunidade de orcs durante uma celebração anual, na qual todos se reúnem para dançar, comer e fazer novas amizades. O jogo se passa no fim deste período de festividades, quando eles formam grupos para voltar para seus lares, te colocando no papel de um novo membro do bando. O jogo se passa ao longo de vários dias de viagem, na qual você pode criar relacionamentos com um ou mais indivíduos. Durante a caminhada do grupo, humanos comuns lançam a eles olhares de desprezo. Aos poucos, Tusks começa a nos convencer de que é menos fantasioso do que parece.

Nesta jornada, você pode interagir com oito orcs, todos retratados como ursos, que na cultura gay são homens grandes e peludos. E apesar de suas aparências brutas, os orcs de Tusks são dóceis e gentis, e ficam felizes em te acolher. Mitch explora a diversidade de personalidades e características físicas: a figura mais madura e experiente; o deficiente físico que, apesar de ter perdido um braço, é valente e protetor; orcs gordos e magros; ou até mesmo um humano, inseguro por ser o único do grupo de uma espécie diferente.

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Interessantemente, todos eles são retratados com um leve erotismo, destacando seus atributos físicos, mesmo que fujam dos padrões de beleza do mundo real. Ao usar a metáfora dos orcs, Tusks acaba apresentando com naturalidade a diversidade das formas masculinas. E na era da spornosexualidade – a obsessão masculina pelo corpo escultural de atletas e atores pornô –, do Instagram e dos aplicativos de namoro, na qual homens são tão cobrados quanto as mulheres por sua aparência, Tusks faz algo poderoso: erotiza e humaniza justamente aquilo que é tratado como feio ou pouco sensual. Desvia até mesmo dos clichês e preconceitos existentes no próprio universo gay.

Embora ainda exista apenas no formato de uma pequena demo, Tusks, em desenvolvimento e sem previsão de lançamento, já é interessante por amplificar ainda mais a representação e riqueza do sexo e suas inúmeras variantes nos videogames. Você pode testá-lo gratuitamente aqui.

  • Xua

    Caramba cara, lembro de jogar o Coming Out Simulador depois de um Tweet seu, agora esse texto cara….parabéns.

  • rodrigo

    que estranho, os Orcs tudo maludo

  • Aperipe

    Orc gay, me lembra a hq casa dos mistérios da vertigo, tinha um orc gay que se torna lider de seu povo. Sobre o jogo, já fizeram um dating com pombos, depois desse espero qualquer coisa.

  • Did you say: URSOS? :p

  • Muito legal o texto e a ideia do jogo. Interessante mesmo como ele tenta subverter vários temas. Mas eu pessoalmente nunca tive a menor vontade de jogar um dating sim.

    • riquesampaio

      Eu tb não tinha até jogar Coming Out on Top. Achava que o gênero era limitadíssimo e a experiência seria chata, mas me peguei me importando pelos personagens e me esforçando ao máximo para conquistar os personagens. É uma história interativa com elementos eróticos, e pelo que sei, tem jogos do tipo pra todos os gostos e temas. Esse parece seguir o mesmo caminho.

      • OfudouMyou

        dating sim + vr + emprego freela = 50 anos sem sair do quarto
        é o futuro ;D

  • OfudouMyou

    hein?!.. orcs? que bizarro …. pra que humanizar orcs? kkkkk pega uma figura de poder, de preferência humana… ou que nem seja humana, mas… orcs?
    achei legal o argumento de que é exatamente para ir contra o culto da imagem, mas.. orcs?
    … orcs?! ORCS?!
    wtf….

    • Leonel Marconi

      tá vendo como vc ficou? justamente por isso que pegaram pra fazer com Orcs

  • Fernando Torelly

    Melkor criou Gorbag e Gorbagda, não Gorbag e Gorgol.