Em novembro de 2014 demos início à série 31 Gaems, idealizada por Diego Castillo, da equipe indie Loud Noises, com um texto divertido e instigante da game designer Thais Weiller, sobre Super Metroid.  Quase um ano e muitos ensaios depois, cheios de histórias humanas de pessoas que cresceram e amadureceram ao lado de jogos, chegamos ao seu fim. Quem encerra é Carlos Corrales, criador do site de cultura pop Delfos, há mais de 10 anos no ar, com memórias sobre a dificuldade de acesso a certos jogos em uma era sem internet e como ToeJam & Earl ajudou a amarrar o que viria a ser um longo relacionamento.

O 31 Gaems é um dos conteúdos que mais me orgulho em ver no Overloadr, não apenas por ter unido pessoas incríveis mas também pela vastidão de ideias, histórias, lembranças, análises e estilos que ele contém. A liberdade que demos aos autores fez com que cada texto tivesse uma abordagem diferente, e essa diversidade só contribuiu para o que o 31 Gaems se tornou: uma janela para as múltiplas perspectivas sobre os jogos e o impacto dessas experiências em nossas vidas pessoais, do ponto de vista mais humano possível. Agradeço imensamente a todos que tornaram isso possível.

Fique agora com o último ensaio da série 31 Gaems.

– Henrique Sampaio

 

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Muito tempo atrás, em uma era conhecida como época de outrora, videogames ainda não eram o entretenimento mainstream que são hoje. Apesar de consoles e jogos serem lançados no Brasil, era realmente difícil encontrar alguns games específicos. Uma busca que realmente me marcou foi a caçada a Toe Jam & Earl, do Mega Drive.

Os consoles da Sega e seus jogos eram lançados no Brasil pela Tec Toy. Porém, no início dos anos 90, eles eram vendidos em lojas de brinquedos, que obviamente tinham prioridades outras que não videogames. Era muito fácil encontrar títulos como os também excelentes Golden Axe ou Castle of Illusion, mas outros mais específicos e menos populares exigiam um esforço considerável.

Não existiam sites como hoje, onde você procura por um lançamento e ele mostra onde encontrar e por quanto. O negócio era mais manual, um processo árduo que definitivamente não deixa saudades.

Quando convencíamos a família a nos dar um jogo de presente, era comum irmos de loja em loja procurando o que queríamos. Em outros casos, íamos para alguma loja grande e escolhíamos dentre as opções presentes a que mais apetecia. Quando não se buscava lançamentos, uma boa opção era comprar os jogos usados em locadoras (para os mais jovens, locadoras eram lugares mágicos onde você pagava um valor módico para levar um jogo ou um filme para casa por uma noite).

tje05Porém, as poucas locadoras que tinham Toe Jam & Earl não o vendiam, pois ele era bem procurado. Veja bem, a aventura dos alienígenas de Funkotron nunca foi um sucesso de vendas imediato, como um Sonic da vida. No entanto, aqueles que o conheciam gostavam bastante dele. Foi um lançamento que atingiu status de cult antes mesmo da gente saber o que isso significava.

Na época havia uma revista chamada Supergame, especializada nos consoles da Sega, e eu tinha uma edição cuja capa era justamente Toe Jam & Earl. A matéria falava muito sobre o jogo, sobre sua história e apresentava cada um dos inimigos. Eu lia aquilo e salivava de vontade de colocar minhas pequerruchas mãos nele.

Além da revista, tinha um amigo de escola cujo vizinho era aquele menino lendário que tinha “todas as fitas de Mega Drive” e o cara vivia fazendo invejinha em mim dizendo quão legal, divertido e engraçado era o jogo. Somando a matéria da Supergame aos papos com este colega, eu sentia que já sabia tudo sobre o game. Mas queria ver com meus próprios olhos, mais ou menos como todo mundo quer ver a Mona Lisa pessoalmente mesmo já tendo visto centenas de reproduções.

Veja também:
– Retroscópio – ToeJam & Earl
– Novo ToeJam & Earl bate meta no Kickstarter

A busca por Toe Jam & Earl foi árdua e durou mais de cinco anos (em anos de criança, isso deve ser o equivalente a uns cinco meses). Finalmente, minha família descobriu um caboclo que ia a toda hora para o exterior e aceitava encomendas de jogos. Imediatamente, pedi meu sonho de consumo para ele. Dias depois, chegou. E o timing não poderia ter sido melhor: coloquei minhas mãos no dito-cujo no último dia de aulas, o que significava que eu podia acordar no dia seguinte e imediatamente ligar meu Mega Drive para explorar o mundo do jogo. Isso é o que eu chamo de férias felizes!

Neste ponto, seria fácil dizer que tamanha expectativa levou a uma inevitável decepção. Mas não, amigão. Apesar de eu já conhecer todas as piadas e saber quase tudo sobre o jogo, ainda me divertia muito com ele.

tje04Os gráficos são bonitos até hoje, muito por causa do design caprichado e da personalidade forte dos seus personagens. Um inimigo inesquecível é o que chamávamos de Buga-buga. Era um fantasminha que aparecia na sua frente gritando “buga-buga-buga!”. O susto que seu personagem levava era até engraçado, mas a quantidade de vida que você perdia era tão grande que ele logo se tornava o arqui-inimigo de todos os jogadores.

Isso tudo sem falar da trilha sonora, que mesmo com os canais de áudio limitados do Mega Drive, são tão legais que eu nunca as esqueci e curto até hoje – obviamente, tenho todas no meu MP3 e as ouço com frequência.

Existiam duas modalidades, Random e Fixed. Como eu era apenas um pimpolho, ainda não falava inglês, então não sabia a diferença e jogava em qualquer um. Logo, acabei percebendo que o Fixed era sempre igual, o que tornava mais fácil encontrar as peças da nave e os elevadores cada vez que você jogava. O Random, por outro lado, era gerado aleatoriamente (talvez tenha sido um dos primeiros jogos a usar deste artifício, ou pelo menos foi o primeiro que eu joguei), fazendo com que o jogador sempre tivesse que procurar por seus objetivos.

O jogo era bastante longo para a época. Chegar ao final levava algumas horas e ele não tinha saves. Mesmo assim, joguei muitas vezes até o fim. Foi o primeiro que eu vi que deixava você “jogar” o final.

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Muitos anos depois, não mais na época de outrora, agora já na época de antigamente, minha então namorada estava dormindo no quarto e eu estava buscando por jogos antigos para brincar no meu emulador de Mega Drive. Rodei Toe Jam & Earl, que tem aquela abertura inconfundível, com o tema tocando e um espirro enquanto o navinha desvia do logo da Sega.

Quando a garota acordou, ela perguntou se eu tinha baixado Toe Jam & Earl e se a gente poderia jogar, pois era um jogo que marcou a infância dela também. Hoje, somos casados, e obviamente, quando o jogo foi lançado para PS3 em 2012, fizemos questão de comprar para jogarmos juntos novamente. E nos divertimos tanto quanto 10 anos atrás quando jogamos juntos pela primeira vez. Ou 20 anos atrás, quando jogávamos separadamente, e ainda não nos conhecíamos.

carlos-corralesSobre o autor

Carlos Eduardo Corrales é o criador do site nerd de jornalismo parcial reflexivo Delfos, onde costuma contar várias historinhas sobre coisas da cultura pop que marcaram sua vida. Também já teve seus textos publicados em veículos como Mundo Estranho Games, Kotaku Brasil, AOL, CD Expert e outros.

 

Leia todos os ensaios do 31 Gaems publicados no Overloadr:

Super Metroid – simulador de sobrevivência solitária – Thais Weiller
Super Mario Bros. 3 – entretenimento e magia – Marcos Venturelli
We Love Katamari – mas eu amo um pouquinho mais que você – Karen “bitmOO”
Warcraft III – herói sem luzinha – Lucas Molina
A densa névoa de Kentucky Route Zero  George Schall
Streets of Rage 2: Ruas da Treta  Danilo Dias
Não preciso de vida, já tenho Mass Effect – Bárbara Bretanha

Super Mario Bros.: The zoeira levels  Thiago “Beto” Alves
Skyrim: O Dovahkiin desperta
 – Eduardo Emmerich
Pocky & Rocky 2: shmup sem navinha – Amora Bettany
Como abri uma porta que não existia em Versailles 1685 – Mauricio Perin
X-COM: Terror das profundezas (da memória) Ivan Garde
Rez: Nós somos performers eletrônicosHenrique Sampaio
Metal Gear Rising: Valeu, Samuca – Glauber Kotaki
Donald Duck: Goin’ Quackers – Sobre não estar mais aqui – Julianna Isabele
Jet Set Radio: A paixão segundo J.S.R. – Lucas “Midio”
Vamos assaltar com Pokémon! – André Asai

Mother 3: A virtude dos defeitos – Marina Val
Super Soccer e futebol no plural – Enric Llagostera
Max Payne 2: Como pude matar um homem – Diego Castillo
Sengoku Rance: apenas um jogoBruno Bulhões
Fatal Frame II (ou sobre como eu nunca precisei de um irmão mais velho) – Anita Cavaleiro
Bioshock Infinite e a feliz causalidade de ter um irmão mais velho – Giovana Penatti
Shining Force II – Um jogo brilhante, com o perdão do trocadilho – Marcos Castro
The Legend of Zelda: Majora’s Mask – O inimigo é o tempo – Marcus Oliveira
Sobre mundos ocultos e Gabriel Knight 2 – Caio Teixeira

A primeira sétima fantasia final – Ricado “Ryot” Tokumoto
Entre midis, mixtapes e Top Gear – Thiago Adamo

Ocarina of Time e a invenção do zero Marcellus Vinícius
The Sims, duas amantes e um funeral – Arthur Protasio

  • ToeJam & Earl é incrível, talvez o jogo mais marcante da minha infância

  • Rogerio

    Eu fui muito feliz na época dos 16 bits, pois, meu tio tinha uma locadora, mas eu era um adolescente burro fanboy do SNES e não pude aproveitar o mega drive por conta disso, me arrependo muito disso até hoje.

  • João Gabriel

    Sou outro q foi marcado por esse game na infância, ele é muito divertido até hoje e serve de exemplo para muitos games atuais