Jogar Anatomy é como colocar uma fita VHS amaldiçoada em seu antigo videocassete

Nosso lar é possivelmente o ambiente mais seguro e agradável onde podemos estar. Ele nos envolve, nos isolando do frio, da sujeira e de qualquer mal que possa existir do lado de fora. É um símbolo de proteção inato à natureza humana. A perversão e o brilhantismo de Anatomy está em lentamente trucidar este símbolo na sua frente, distorcendo o senso de familiaridade, humanidade e zelo que há por trás da nossa moradia. E ele faz isso usando uma das coisas mais assustadoras inadvertidamente criadas pelo homem: ruídos e distorções causados por falhas nas leituras de mídias analógicas, como fitas cassetes e VHS.

Vagar pela casa escura, vazia e silenciosa de Anatomy é uma experiência inquietante. Portas fechadas. Os únicos cômodos inicialmente acessíveis são a sala e a cozinha, onde um toca-fitas é visto sobre a mesa. Você leva a fita cassete avistada anteriormente até ele e pressiona o play. O aparelho reproduz uma voz humana (por enquanto, o jogo não oferece opção de legendas), que começa um monólogo filosófico sobre a fisiologia da arquitetura doméstica. A casa, segundo a voz, seria uma réplica da anatomia humana.

Após fazer uma comparação da sala de estar com o coração humano, a fita é interrompida e um texto pixelado, escrito na fonte de videocassetes, informa o jogador que a próxima fita está localizada exatamente no cômodo que acaba de ser analisado pelo estudo. Apesar da sensação de estar sendo observado e manipulado, você vai até a sala, coleta a fita que antes não estava ali e retorna ao tocador.

Anatomy

Eis que, então, você nota um padrão: fita > texto > cômodo. Isso gera familiaridade e conforto, um que você, a essa altura, já desesperadamente busca, tamanha a aflição que a voz desencarnada e seu texto instigam. Mas Anatomy é um jogo perverso. Ele apenas estava esperando o momento certo para subvertê-lo e impiedosamente tirar o senso de tranquilidade que ligeiramente criou para você, unicamente com a proposta de intensificar o medo. Como, por exemplo, dar a entender que você o terminou e subitamente se encerrar e te largar olhando, confuso, para seu desktop.

Um arquivo na pasta de Anatomy diz para você abrir o executável do jogo novamente, mesmo que você acredite que o tenha terminado. Se eu o tivesse recebido de algum desconhecido, eu certamente o trataria como um vírus ou algo saído da deep web.

Novamente de volta ao jogo, as coisas mudaram naquela casa. Portas que antes estavam trancadas estão abertas e as fitas, que já não aparecem mais em uma estrutura lógica, agora reproduzem áudios tão distorcidos e incompreensíveis que, se há como distinguir uma voz entre aqueles ruídos, ela certamente não soa humana. A partir deste ponto, eu já não sabia se eu conseguiria continuar jogando. Eu sentia que estava jogando algo proibido e amaldiçoado, vindo de algum fórum obscuro de internet dos anos 90. Sentia que estava sendo observado em minha própria casa, que a qualquer momento meu celular tocaria e uma voz desconhecida e assustadora me ameaçaria por ter visto aquela anomalia.

Com a intenção de pausá-lo e momentaneamente interromper aquele desconforto imenso, pressionei ESC e o jogo inesperadamente se encerrou. Me peguei questionando se eu teria coragem suficiente de continuar, se eu realmente queria passar por aquilo. Tudo parecia tão instigante até aquele ponto que eu decidi que sim.

Anatomy

A partir daquele ponto, Anatomy durou mais uns 20 minutos. Em menos de uma hora, ele se tornou uma das experiências mais perturbadoras, sufocantes e bizarras que já tive com videogames. Em seus momentos finais, eu senti algo que não me recordo ter sentido antes: uma mistura de aflição e admiração, pavor e êxtase, sentimentos que eu acreditava serem incompatíveis e dissonantes.

Anatomy se mostra uma tomada original e inventiva sobre o tradicional gênero de casa assombrada e uma pequena e arrebatadora pérola do terror psicológico, o que são motivos suficientes para você querer superar o extremo desconforto ocasionado pela sua experiência. É também um exemplo de experiência que respeita o tempo do jogador, capaz de impactá-lo e enfeitiçá-lo dentro de um curto prazo. Sua autora, conhecida como Kitty Horrorshow, consegue entregar um texto excelente, daqueles que, sozinhos, já são arrepiantes, além de ideias frescas, audaciosas e autenticamente assustadoras para os videogames. Apenas certifique-se de que há alguma luz acesa por perto. Jogar este jogo sozinho no escuro poder ser uma experiência possivelmente traumatizante.

Você pode comprar Anatomy por US$ 2,99 no itch.io.

  • Phell

    Me senti levado a comentar apenas para dizer que esse texto está maravilhoso, parece uma creepy pasta, muito bom! Eu sou cagão pra jogo de terror, mas amo, vai entender…

    • Kadu Lourenço

      Concordo com o confrade acima, o texto encaixa perfeitamente com o conteúdo. Espero ler mais textos do tipo futuramente.