No último final de semana, o Google se viu envolvido em uma polêmica: um memorando interno, escrito por um engenheiro da companhia, afirmou que as diferenças biológicas entre os gêneros eram a razão para a escassez de mulheres em cargos técnicos ou de liderança. Segundo o autor, que não teve seu nome divulgado, homens teriam maior capacidade para pensamento sistemático enquanto que as mulheres, “uma maior abertura para sentimentos e estéticas em lugar de ideias.” Isso explicaria, segundo ele, o baixo número de mulheres na área de tecnologia. Depois da polêmica, o Google demitiu o funcionário, alegando que partes do memorando violam o código de conduta da empresa, promovendo estereótipos de gênero nocivos.

Este é apenas um dos diversos casos de desigualdade de gênero que têm surgido à tona na indústria da tecnologia. Em julho, o The New York Times destacou diversas histórias de assédio de mulheres que trabalham no Vale do Silício.

A indústria de videogames possui proximidade com a da tecnologia e, da mesma forma, mulheres deste meio também lidam diariamente com assédio, salários mais baixos e outras consequências da desigualdade. Em um esforço coletivo, mulheres das áreas de tecnologia, design e videogames estão usando o Twitter para demonstrar visibilidade através do talento. Desde o final de semana, quando o caso do Google explodiu, milhares de mulheres de todo o mundo estão se apresentando e exibindo seus trabalhos, por meio da hashtag #VisibleWomen.

Dentre as mulheres que já participaram do movimento estão Ashley Swidowski, artista conceitual responsável pelo design de personagens da Naughty Dog, Ami Thompson, diretora de arte da Walt Disney Animation Studios, Leighton Gray, co-criadora de Dream Daddy, Marion Esquian, game designer de FlinthookPaloma Dawkins, desenvolvedora de jogos independentes, artista e animadora, Cornelia Geppert , game designer e criadora de Sea of Solitude, Danette Beatty, artista 3D de Monument Valley 2, dentre milhares de outras. Artistas brasileiras também participam em peso, como Luciana Nascimento, Rafaella RyonKaol Porfírio e Luiza McAllister.

Dream Daddy, jogo sobre relacionamentos entre pais gays que bombou recentemente, foi co-criado pela artista Leighton Gray

Dream Daddy, jogo sobre relacionamentos entre pais gays que bombou recentemente, foi co-criado pela artista Leighton Gray

A maioria dos tweets são de artistas, provavelmente devido a facilidade de apresentar trabalhos por meio de imagens, como artes conceituais e modelos 3D. Contudo, há programadoras mostrando partes de seus códigos.

Em uma das minhas primeiras reportagens sobre desigualdade de gênero em videogames, publicada em 2012 no iG, Kirsten Forbes, executiva da área de games e atualmente vice presidente de desenvolvimento do estúdio Shoal Games, já afirmava que a escassez de mulheres nos campos de tecnologia são reflexo da dominância masculina. “Essa tendência da área da computação é um exemplo de como um campo dominado por um único gênero se torna cíclico – conforme as mulheres o abandonam, ele se torna mais dominado por homens, então cada vez menos mulheres entra e o ciclo se fortalece.”

Assim, campanhas de visibilidade feminina que surgem ocasionalmente em redes sociais são uma forma de enfraquecer esse ciclo de dominância masculina, mirando o equilíbrio. E, nas áreas de games e tecnologia, eles servem não apenas como incentivo a mulheres jovens que queiram trabalhar nessas áreas, mas também como vitrine do talento de artistas, desenvolvedoras, designers e programadoras.

Eis alguns de meus tweets favoritos do #VisibleWomen. Aproveite para seguir os perfis no Twitter e deixar sua timeline mais bonita:

  • Márcio Barbosa

    Uma arte melhor que a outra, meu deus. Eu fiquei muito tempo olhando, e aqui na matéria ainda tem coisa que eu não tinha visto, como esse porquinho sensual. XD Essa foi uma das melhores tags do twitter de acompanhar.

  • Paulo Pinheiro

    Esse episódio da Google mostra como ainda conseguimos ser bem babacas para justificar coisas erradas, mesmo hoje em dia.