Há anos tenho priorizado jogos que realmente possuem algo a dizer com suas mecânicas, estética e narrativa. Que consigam tocar e transformar o jogador de alguma forma. Que dialoguem com a natureza humana, com a sociedade e com o mundo no qual eles estão inseridos.

Se minha lista de melhores jogos do ano não contemplam muitos títulos de grande orçamento, não é por que sou avesso às grandes publishers ou a diferentona dos indies obscuros. Se o que mais aprecio em videogames atualmente é o impacto emocional, é na produção independente que vou achar as experiências mais transformadoras e poderosas. Isso não significa que, para mim, jogos não possam mais ser puramente divertidos — pelo contrário, há momentos em que estes são tudo o que eu preciso –, mas quando o videogame consegue aliar a diversão e o engajamento a uma mensagem, ele deixa de ser supérfluo para se tornar relevante.

10. The Flame in the Flood (The Molasses Flood)

O primeiro jogo da The Molasses Flood, estúdio fundado por ex-desenvolvedores de BioShock, é um roguelike de sobrevivência como tantos outros por aí, mas com uma identidade tão poderosa que o destaca em meio ao amontoado de jogos do gênero. Dotado de uma enorme sensibilidade artística e musical, ele nos insere em uma road trip pelo interior dos Estados Unidos, em uma sociedade devastada por uma inundação causada pelo aquecimento global. Em vez de um carro e rodovias, no entanto, temos aqui uma jangada e um rio, em uma jornada imprevisível, guiada pelos seus meandros e correnteza.

Assista ao Shuffle de The Flame in the Flood

9. Abzû (Giant Squid)

Espanto e admiração são constantes em Abzû, um jogo tão puramente belo que consegue dispensar mecânicas elaboradas e desafios sem que isso o torne enfadonho. Suas formas, cores e movimentos abastecem a experiência de sensações e poesia, nos envolvendo em um mundo submarino instigante e cheio de vida. A exploração não é guiada pela recompensa, mas sim pelo próprio prazer de explorar e interagir com a rica vida marítima simulada com perfeição. Ao canalizar Journey, Abzû se manteve em um ambiente relativamente seguro, o que o torna certamente menos relevante do que o título da thatgamecompany, mas isso não significa que ele não tenha seus próprios méritos.

Leia a análise de Abzû

Abzû

Abzû

8. Fragments of Him (Sassybot)

Fragments of Him não é o único jogo com um protagonista gay da história, mas é um dos poucos — e certamente o mais sensível. Foi difícil segurar as lágrimas durante suas duas horas de duração, seja pela sua forma delicada de abordar as relações mais importantes que marcaram a vida de seu protagonista, seja pela história trágica, porém esperançosa, que ele nos conta. Fragments of Him parece recorrer às alegorias e fisicalidade do teatro para nos envolver em suas cenas, em vez de replicar as influências cinematográficas que jogos narrativos costumam carregar, e isso é maravilhoso. Sua forma delicada e profundamente humana de lidar com temas complicados como rejeição e perda faz dele um dos jogos mais emocionalmente profundos de 2016, juntamente com a minha próxima escolha.

Artigo: Fragments of Him me fez dizer “eu te amo” para pessoas importantes a mim

7. That Dragon, Cancer (Numinous Games)

Saber que, ao contrário de Fragments of Him, That Dragon, Cancer é baseado em uma história real, o torna instantaneamente um jogo difícil — não mecanicamente, mas emocionalmente. Testemunhar os últimos dias do filho de Ryan e Amy Green, os criadores do jogo, passando pelo pesado processo de aceitação da perda até a eventual morte da criança, foi uma experiência que jamais imaginei viver em um videogame. E como ela me tocou. That Dragon, Cancer reforça o poder dos videogames de gerar empatia, ao nos colocar na pele de pessoas com diferentes perspectivas e problemas muito diferentes dos nossos. E, neste processo, temos um valioso aprendizado sobre aquilo que nos une. Se há jogos capazes de tornar o mundo um lugar melhor, That Dragon, Cancer, sem sombra de dúvidas, faz parte deles.

Artigo: That Dragon, Cancer é sobre perder quem você ama incondicionalmente

That Dragon, Cancer

That Dragon, Cancer

6. Firewatch (Campo Santo)

O primeiro jogo do estúdio Campo Santo faz junções interessantes: ele pega uma estrutura mainstream e a subverte, usando-a para reforçar o tema central de sua trama: o isolamento como forma de fuga de problemas pessoais. A química incrível entre os personagens centrais da trama e o senso de humor que permeia os diálogos fazem de Firewatch um dos jogos mais bem escritos da história recente dos videogames. As guinadas imprevisíveis da trama e a forma como ele confronta o próprio jogador na construção da tensão nos leva a uma resolução inesperada, que funciona tanto como um soco no estômago quanto um comentário sobre a linguagem de videogame em si. Sua complexidade e subjetividade gera discussões e interpretações até hoje, e por isso, Firewatch merece ser lembrado como uma das grandes surpresas de 2016.

Leia a análise de Firewatch

5. Forza Horizon 3 (Playground Games)

Ninguém tinha dúvidas de que a Playground Games seria novamente capaz de oferecer uma experiência incrível em Forza Horizon 3, mas por mais que eu já tivesse me esbaldado no jogo anterior, de 2014, foi impossível não me surpreender novamente. O terceiro jogo da série de corrida é um deslumbre técnico e uma experiência extasiante. Ora intenso e radical, ora relaxante e sereno, o título explora a leveza e o prazer como poucos jogos do gênero (normalmente obcecado pela competição e adrenalina) fazem. Forza Horizon 3 segue a linha “maior e melhor” tão comum aos jogos comerciais, mas no processo, ajuda a mostrar como um gênero inteiro pode se beneficiar de mais diversidade, originalidade e uma boa trilha sonora.

Assista ao Shuffle de Forza Horizon 3

Forza Horizon 3

Forza Horizon 3

4. Watch Dogs 2 (Ubisoft)

Reforçando a teoria de que a Ubisoft só acerta na segunda tentativa, Watch Dogs 2 é não apenas inovador em termos de design mas também ousado em sua crítica ao controle de informação, à gentrificação, ao racismo e a tantos outros assuntos concernentes à nossa própria realidade. Ele é a prova de que jogos de mundo aberto e contemporâneos se beneficiam enormemente de diversidade: de ação, de verbos, de representação, de interação e de perspectivas. O bom e velho atirar é quase que desencorajado, tamanha é a variedade de formas que temos de interagir com o mundo e seus habitantes. Com um elenco inclusivo de personagens, uma representação divertida e fiel da cultura de São Francisco e um forte senso de humor e estilo, ele se destaca como uma das melhores e mais ousadas grandes produções de 2017.

Leia a análise de Watch Dogs 2

3. Planet Coaster (Frontier Developments)

Quem diria que uma das formas mais bonitas de representação do prazer, da alegria e da união humana nos videogames estaria em um simulador de parques de diversão? A Frontier utilizou de todo seu expertise no tema para criar o jogo definitivo de gerenciamento de parques — em um ano que viu o gênero voltar com tudo, com ao menos três títulos disputando pela atenção dos órfãos de RollerCoaster Tycoon. O charme encantador de Planet Coaster está em sua trilha sonora magnífica, nas animações primorosas e em seus sistemas que, como se fosse mágica, gera vida em seus parques, com cada pequena pessoinha reagindo de diferentes maneiras às suas criações. Suas ferramentas de construção são tão robustas que pessoas estão encontrando aqui uma forma deliciosa de explorar e compartilhar sua criatividade. Eu, que desde LittleBigPlanet e Sound Shapes não me envolvia tão fortemente com a criação de conteúdo, me peguei indo dormir mais tarde e colocando o relógio para despertar mais cedo, só aumentar minha dose diária de Planet Coaster.

Planet Coaster

Planet Coaster

2. Virginia (Variable State)

2016 foi mais um ano repleto de bons “walking simulators”, mas Virginia foi o que mais me impactou. A maneira ousada como ele incorpora cortes de cena durante o gameplay, se focando apenas naquilo que é relevante à narrativa, mostra que ainda podemos aprender muito com a linguagem do cinema. Sua coragem não para aí: sem usar uma única palavra e conduzindo sua ação a partir de uma trilha sonora espetacular (o que quase o torna um musical) ele nos conta um thriller psicológico denso e subjetivo, cheio de simbolismos e alegorias, que demandam do jogador uma sensibilidade para a interpretação. Sem respostas prontas, sem a concretude narrativa típica dos videogames e com um forte senso estético e artístico, Virginia foi, para mim, a surpresa inesperada do ano.

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1. Inside (Playdead)

Talvez 2016 seja lembrado como o ano dos jogos mudos. Inside é outro título que, sem recorrer à linguagem verbal, causa impacto — no caso, um equivalente a um soco no estômago. O título minuciosamente arquitetado pela dinamarquesa Playdead é uma experiência provocante e estarrecedora, ora sutil e delicada, ora violenta e visceral. O choque, porém, nunca é gratuito: ele nos leva a refletir sobre o estado opressivo de sua realidade, estendendo sua alegoria até o próprio ato de jogar. Além de desafiar o jogador intelectualmente, seja com seus puzzles elaborados, seja com sua trama subjetiva, ele parece ser um jogo esculpido à perfeição, com animações dinâmicas e contextuais para cada pequeno momento, que aumentam nossa empatia pelo garotinho excessivamente humano — e o inevitável choque de vê-lo exposto a um mundo tão cruel.

Leia a análise de Inside

Inside

  • Marcelo

    Watch dois 2 é o representante mundo aberto deste ano, o do ano passado era Just cause. O Henrique tentando se manter conectado com os “jovens”.

  • Movisterium

    Gosto muito do fato das listas terem poucas repetições entre si. Isso mostra o quão rico foi o ano de 2016 em qualidade e variedade de jogos.
    Além disso, elas também servem como excelentes guias de compra pra quem não jogou um ou outro título que pudesse lhe interessar.

  • Carta

    Muito boa,mas jurava que Bound ia entrar na sua lista. 😀

    • riquesampaio

      Bound eu considerei, mas acabou ficando de fora. É lindo, mas as mecânicas não se destacam muito.