O artista que queima na madeira seu amor por videogames

Ao procurar material sobre um jogo ou série em específico, não é incomum nos depararmos com diversas criações artísticas e artesanais baseadas naquele mundo de fantasia. Camisetas, colares, anéis, adesivos, mochilas e muitos outros são itens que comumente vemos adornados com personagens, logos e referências a franquias amadas e consagradas, como Final Fantasy The Legend of Zelda.

Apesar da regularidade com que nos deparamos com isso – especialmente se entrarmos no mundo de camisetas que trazem o mashups de duas sérias -, o trabalho de Daniel Coutinho de Morais me chamou a atenção imediatamente. A arte dele, a pirografia, é considerada uma das primeiras manifestações artísticas desenvolvidas pelo homem, e disso vem um choque ao mesmo estranho e interessante: o de misturar algo tão antigo – e que ainda carrega essa aura de existir há muito tempo – com algo tão atual quanto os videogames.

Daniel tem consciência do incomum dessa mescla e essa foi uma das coisas que chamou a atenção dele. “O pirógrafo é uma coisa antiga, o pessoal da minha idade não costuma conhecer. Até acha bem estranho, diferente, nunca ouviu falar.” Considerando isso, como alguém hoje em dia se depara com um desses instrumentos? No caso de Daniel a descoberta ocorreu quando ele encontrou um baú, tal qual como em tantos jogos que inspiraram o trabalho dele. “Eu estava mexendo em coisas antigas e achei um pirógrafo que era de uma tia-avó, que há muito tempo estava guardado. Foi como um tesouro que você descobre e fica ‘nossa, o que é isso aqui?’ Cresci jogando videogames com aquilo na mente, de achar algo diferente, achar um item, uma coisa exclusiva.” Depois de perguntar para sua mãe o que era aquele instrumento que ele havia encontrado, Daniel foi imediatamente testá-lo. “Comecei a brincar um pouco na própria caixa dentro da qual o pirógrafo estava. Foi a primeira caixa que eu fiz.”

A curiosidade em testar o aparelho foi a mesma que o motivou a fazer outros desenhos em outras caixas, melhorando de pouco em pouco suas habilidades de queimar madeira. “Eu comecei, fui testando. Fiz um primeiro, acho que foi uma caixa do Link do Wind Waker. Uma caixa bem pequena que fiz e postei em um fórum. O pessoal gostou pra caramba, ainda tenho fotos dela. Hoje em dia a acho horrível porque eu fiz o traço todo torto, mas mesmo assim o pessoal gostou muito. Na verdade, a reação me surpreendeu bastante.” Nessa primeira caixa, ainda usando o pirógrafo que era da tia-avó, era preciso se adaptar às limitações do aparelho antigo. “Se você quer uma tonalidade mais fraca no desenho precisa ter menos calor. Só que o nível mais baixo [do pirógrafo da tia-avó] era muito fraco, então eu colocava mais alto e ficava assoprando a ponta ao mesmo tempo que fazia o desenho, para que ele ficasse em uma temperatura em meio termo.” Hoje em dia, além de utilizar um pirógrafo que comprou novo, com um maior número de ajustes de potência, Daniel também passou a utilizar outras ferramentas para ajudá-lo no planejamento dos desenhos das caixas. “Antes de fazer uma caixa eu faço todo o projeto dela no computador. Eu pego, pesquiso algo sobre o tema, monto o layout e depois eu começo a passar todo ele para a caixa em si.” Em suas confecções, há também todo um cuidado com detalhes metálicos no exterior e desenhos feitos em veludo, no interior.

Caixa de Super Mario Bros.

Caixa de Super Mario Bros. (Morart Pirografia)

De pouco em pouco, especialmente por causa de sua conta no Deviantart e da página no Facebook, ofertas foram feitas nas caixas e as encomendas foram surgindo. “A caixa do Fallout [que é a mais recente publicação de Daniel na página do Facebook] é uma encomenda. Tem outras. Na verdade eu tenho encomendas até dezembro já. Eu as faço, mas não é meu trabalho principal, eu trabalho na parte criativa de uma gráfica. A gente vende alguns produtos e eu faço o desenvolvimento desses produtos lá. Então eu faço o trabalho na gráfica e no meu tempo livre eu faço o trabalho com o pirógrafo.”

O interesse pelas caixas criadas pelo Daniel só tem aumentado e as respostas ao trabalho dele têm sido cada vez mais positivas. Pergunto a ele se ele já indagou por que as pessoas tem um amor tão grande por esses objetos que ele cria. Parte disso, ele acredita, vem da adoração que as pessoas têm por franquias específicas. “Existem outras pessoas que fazem pirografia, você até acha, só que geralmente o pessoal faz desenhos de coisas que você não é fã. Por exemplo,  um desenho de uma flor, de uma paisagem, de um animal; pessoas não são fãs dessas coisas. A coisa que eu mais gostei quando comecei a trabalhar com o pirógrafo era pegar jogos nos quais só o fato da pessoa olhar para o objeto faz despertar nela um sentimento. Principalmente franquias clássicas. Se você vai lá e pega uma caixa do Zelda, uma do Mario, só de você olhar já traz um monte de memórias e o pessoal fica maluco. Todo mundo é fã de coração mesmo dessas coisas.”

Outra parte, no entanto, vem da exclusividade e, por assim dizer, raridade que as caixas possuem. Há uma grande parcela de pessoas que gostam de videogames que se interessam por objetos únicos, por itens de colecionador, estatuetas em quantidade limitada etc. “Eu até consigo refazer um modelo que já foi feito antes. Mas, geralmente, quando alguém pede uma encomenda eu peço uma liberdade criativa. Essa do Fallout, por exemplo. A pessoa que encomendou falou que queria só a tampa, que é êxodo do pessoal indo para a Vault. Ele deixou eu fazer o resto de acordo com o que tivesse em mente. Eu peço isso porque, como faço principalmente por hobby, e é uma coisa que eu acho que envolve muita criatividade, se a pessoa for lá e me travar demais eu já não me sinto tão bem de fazer.” Dessa forma, mesmo que possuam a mesma temática, duas caixas raramente serão iguais. E existem aqueles também que pedem especificamente para que o modelo nunca seja repetido. “Uma pessoa encomendou um  porta-joias e pediu que fosse exclusivo. Ele ia dar para a namorada dele, e pediu que eu fizesse uma arte exclusiva e que eu garantisse que essa não fosse ser reproduzida novamente. Teve uma do Link, que eu enviei recentemente, que a pessoa comprou uma réplica da Ocarina do Tempo, que é funcional inclusive. Ela é feita de cerâmica, super bonita. Aí o cara ia usar a caixa para guarda-la. Isso eu acho super legal. Então eu acredito que sim, a raridade desses objetos influencia no interesse do público.”

Caixa de The Legenda of Zelda (Morart Pirografia)

Apesar de estar com muitas encomendas e gostar de criá-las, viver da venda das caixas não é uma opção atual para Daniel, nem algo que ele necessariamente queira. “Eu gosto muito desse trabalho mais manual. Eu até brinco com meus amigos que se vivêssemos em uma era medieval eu provavelmente não seria o guerreiro, seria o ferreiro, para mim é muito mais interessante (risos). Trabalhar e desenvolver uma habilidade até criar algo que as pessoas olhem e falem ‘puxa, que legal!’, ou que causa na pessoa uma vontade de ter aquilo, isso me motiva bastante. Mas, ao mesmo tempo, eu não tenho como replicar isso de forma rápida. Não tem como eu pensar, pelo menos momentaneamente, em uma forma de empreender esse negócio. Eu faço sozinho e não posso ter ajuda, porque é uma  habilidade pessoal. Eu não tenho como passar isso para outra pessoa a não ser que ela esteja disposta a aprendê-la. Já pensei sobre isso, mas não sei se teria de fazer me dedicando o dia inteiro nisso para criar muitas caixas, ou se teria que melhorar minhas habilidades para fazer um trabalho tão incrível que eu possa cobrar mais por uma única peça. São coisas em que eu penso sobre, mas não tenho nada decidido. Até porque eu trabalho com criação também no meu trabalho em si, então eu gosto das duas coisas que eu faço.

Independente do tempo dedicado, Daniel não pretende parar de fazer com que recipientes para coisas valiosas tornem-se valiosos também. E caixas podem ser apenas uma das opções oferecidas por ele no futuro. “Já pensei em fazer uma mesa. Pensei em bolar uma arte gigantesca para cobri-la, mas nunca fui atrás disso mais a fundo. Porém existem várias coisas que podem ser feitas em madeira.”

Se o trabalho de Daniel te interessou você pode fazer encomendas com ele através da página Morart Pirografia do Facebook, ou pelo email morart.pirografia@gmail.com.

  • Domingos Junior

    Muito foda esses trabalhos! Tenho uma caixa feita quase como uma mosaico que eu acho foda mais nem chega aos pés de uma caixa temática com essa qualidade toda ai.
    Nem desejo que ele trabalhe exclusivamente com isso mais tomara que nunca deixe de exercer esse trabalho.

  • Luiz Augusto Pereira Rodrigues

    Artistas…

  • SouoMaia .

    Nossa essa do Fallout e Link estão lindas!!!

  • Vitor Valadares

    Eu não teria nada pra por dentro, mas queria muito ter uma haha.

  • Ok! Minha namorada acaba de ganhar um presente foda!

  • Caralho, pensando seriamente em emcomendar uma…

  • OfudouMyou

    sensacionalismo! eu juro como pensei, pela chamada, que era algum game dev queimado na fogueira pela inquisição espanhola =D

  • Diésio Ferreira

    Bacana a matéria e muito bem escrita por sinal….Meus parabéns ao Heitor que deixou a meteria bem light de se absorver.
    O triste da história é o mesmo que arremete alguns de nós, que é o fato de não poder nos manter financeiramente fazendo que realmente gostamos ou temos um dom…mas não deixa de ser um belo hobby.

  • leoleonardo85

    Lembro que no curso técnico tinha aula de Artes, queimei um Sonic na Madeira.

    Deveria ter guardado de lembrança, ficou foda.

  • Engraçado que quando o Kotaku BR postou uma matéria similar tinha vários comentários do tipo “Artesanato no kotaku? RIP KOTAKU!” pra baixo…

    Bom saber que a comunidade do Overloadr ainda não foi infectada pelo mal dos “haters”

  • Lowrrans Maximiano

    Meeeeeeu Deus!!!! Preciso de uma… N tenho o que guardar nela… Mas preciso de uma!

    • Gustavo Freitas

      Ela pode até ficar vazia, que se dane… Ia ficar bonito na estante do mesmo modo…

      • Lowrrans Maximiano

        Siiiim…. simplesmente isso!