A primeira coisa que José Teixeira, artista de efeitos visuais da CD Projekt Red, disse aos jornalistas que jogariam livremente uma versão antecipada de The Witcher 3: Wild Hunt na última terça-feira (15) em um evento pré-lançamento do jogo em São Paulo, foi um aviso sobre os problemas de taxa de quadros e bugs da build. Embora eles já estivessem sendo corrigidos, a versão disponibilizada para testes era de janeiro. Quando Teixeira nos liberou, corri discretamente para uma das disputadas estações do jogo no PC, junto de outros jornalistas. Talvez eu tenha sido discreto demais. Foi como estar no meio de uma multidão esperando o metrô no fim de um dia de trabalho e, ao abrir das portas, ver todos que estavam atrás de mim ocuparem os assentos livres com uma rapidez voraz. Corri instantaneamente para o andar de cima e me garanti na versão de PlayStation 4.

Quando Teixeira falou dos problemas daquela versão do jogo não imaginei que seriam tantos. Da belíssima sequência de animação em CG inicial ao final das minhas duas horas de jogo, tive que lidar com um frame rate inconstante, além de uns quatro ou cinco crashes arbitrários, que me obrigaram a reiniciar o jogo e carregar o último ponto de checagem. Os problemas em meu jogo foram tantos que até o Luciano Amaral, o apresentador da Play TV (e em meu coração, para sempre Lucas Silva e Silva), se cansou e foi assistir ao jogo em uma outra estação.

Teixeira garante que The Witcher 3 chegará sem nenhum desses graves problemas que assolavam a build que joguei. No entanto, ele assume: “A versão dos consoles está excelente e acho que ninguém vai se queixar de qualidade, mas é fato que quem tiver um PC suficientemente poderoso, terá um jogo muito mais bonito.”

Mais mulheres, menos prostitutas

Uma coisa que sempre me incomodou na série The Witcher é seu tratamento a personagens femininos. Geralt de Rivia, o protagonista da série, é um galanteador mulherengo, e ao disponibilizar diferentes mulheres à conquista e ao sexo, o jogo impele o jogador a agir como tal. Como consequência disso, a maioria das personagens femininas são fortemente objetificadas e tratadas como “recompensa” pelas ações e escolhas do jogador. No primeiro jogo, as mulheres que você havia levado para cama eram representadas por cartas colecionáveis eróticas, bem ao estilo “temos que pegar”, de Pokémon, só que com mulheres. Também não ficaria surpreso se fosse comprovado que prostitutas compunham metade da população feminina dos jogos da série.

Me lembro que um dos trailers originais de The Witcher 3 tinha uma presença feminina quase nula, e as poucas personagens que apareciam eram claramente objetificadas. Assim, não fiquei tão surpreso com sua cena inicial que, tal como The Witcher 2 fazia, mostra momentos de intimidade entre Geralt e uma mulher – neste caso, Yennefer, uma bruxa de aparência pouco atraente, que usa encantamentos para se tornar mais bela e sedutora. Embora Teixeira tenha me dito que Game of Thrones é uma referência inevitável para a equipe, devido os temas e o tom de ambas as séries, parece que o estúdio polonês ainda tem algo a aprender com a maneira desprendida e natural da franquia da HBO em tratar sexualidade e nudez, masculina ou feminina: Geralt ainda é visto nu apenas da cintura para cima, enquanto que Yennefer aparece de corpo inteiro, com direito a uma câmera que passeia pelo seu corpo.

The Witcher III: Wild HuntThe Witcher III: Wild HuntThe Witcher III: Wild HuntThe Witcher III: Wild HuntThe Witcher III: Wild HuntThe Witcher III: Wild HuntThe Witcher III: Wild HuntThe Witcher III: Wild HuntThe Witcher III: Wild HuntThe Witcher III: Wild HuntThe Witcher III: Wild HuntThe Witcher III: Wild HuntThe Witcher III: Wild HuntThe Witcher III: Wild HuntThe Witcher III: Wild HuntThe Witcher III: Wild HuntThe Witcher III: Wild HuntThe Witcher III: Wild HuntThe Witcher III: Wild HuntThe Witcher III: Wild HuntThe Witcher III: Wild HuntThe Witcher III: Wild HuntThe Witcher III: Wild HuntThe Witcher III: Wild HuntThe Witcher III: Wild HuntThe Witcher III: Wild HuntThe Witcher III: Wild HuntThe Witcher III: Wild HuntThe Witcher 3: Wild HuntGeralt confronta uma matilha de lobos em The Witcher 3: Wild HuntThe Witcher 3: Wild HuntThe Witcher 3: Wild HuntThe Witcher 3: Wild HuntThe Witcher 3: Wild HuntThe Witcher 3: Wild HuntGeralt enfrenta um enorme monstro em The Witcher 3: Wild Hunt

“De certa forma, The Witcher 3 se assemelha muito a Game of Thrones: tem muita luta, muita violência, sexo, algumas mulheres a utilizar sexo como arma”, explica Teixeira, com seu característico sotaque português de Portugal. “O que aconteceu com Game of Thrones que foi interessante para nós durante o desenvolvimento de The Witcher 3 é que essa série provou que há um grande público para este tipo de história mais brutal, mais violenta, que toca em alguns pontos mais arriscados. Enfim, há pessoas que estão a procura de histórias que sejam mais adultas.”

Uma personagem feminina, no entanto, me surpreendeu: Ciri é apresentada logo no começo da aventura como uma garotinha tomboy, de cabelos platinados, ousada, inteligente e destemida. Em alguns poucos diálogos, ela já se mostra uma personagem de grande potencial, e considerando o peso que ela terá na história, há grandes chances de ser uma das melhores personagens femininas da série e do próprio The Witcher 3.

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Ciri, uma das novas personagens de The Witcher 3, será jogável em alguns momentos do jogo

“A Ciri é uma personagem importantíssima em todo o jogo”, conta Teixeira. “The Witcher 3 é quase tão centrado nela quanto no Geralt. Ela é quase uma arma humana, tem poderes muito fortes mas ainda não os domina totalmente. O Geralt é quase um pai para ela. Ela é adotada pelo Geralt. E existe essa força sobrenatural, o Wild Hunt, que também quer apanhar a Ciri para usar os poderes dela. A Yennefer tem uma personalidade mais difícil, a Triss é a mais feminina, e a Ciri é aquela jovem corajosa porém, ao mesmo tempo, frágil, com um certo medo de suas capacidades.”

Ciri é também a única personagem jogável de The Witcher III além de Geralt, ainda que essa possibilidade esteja limitada a um único trecho do jogo. “Anteriormente tínhamos uma parte do jogo em que o jogador tinha que descobrir o que aconteceu com a Ciri, e isso era apenas um diálogo”, diz. Depois pensamos que seria muito mais interessante deixar que o jogador descobrisse o que aconteceu jogando da perspectiva dela própria, o que foi um trabalho enorme para nós – uma situação nova, movimentos novos, ataques novos. Mas isso ajudou imensamente na narrativa.”

Teixeira me garante que a equipe da CD Projetk está tratando todos os personagens, masculinos ou femininos, em pé de igualdade. “Todos têm um caráter e personalidade muito forte e distintos”, diz, “e as mulheres não são princesas que precisam ser salvas – pelo contrário, muitas vezes elas que salvam Gerald de alguma situação. E está tudo na história. Se a história der um contexto para esse tipo de situação, acaba por ser justificado, e as pessoas não levam a mal.”

Os desafios de dar vida a um mundo imenso

The Witcher 3 é tão amplo e aberto que as duas horas que tive com o jogo não foram suficientes para que eu pudesse terminar sua primeira grande missão, por conta até da quantidade de coisas que ele coloca em nosso caminho. Segundo Teixeira, em torno de 230 a 250 pessoas trabalharam no jogo, quase o triplo da equipe de The Witcher II. “The Witcher 3 é tão grande que, eu por exemplo, que sou artista de efeitos visuais, conheço todas suas partes, mas não tenho uma noção do todo. Por isso estão tão ansioso para jogá-lo desde o início, quando ele for lançado.”

O próprio fato de haver alguém só para cuidar de efeitos visuais (como as faíscas que saem das mãos de Geralt durante o uso do ataque de fogo) já indica o quão específicos podem ser os cargos dos desenvolvedores, em uma equipe tão grande. “Antigamente o artista que fazia o ambiente geralmente também fazia os efeitos especiais. Mas agora são tantas coisas que não dá, temos que ter mais especialistas: há uma pessoa só para efeitos visuais, outra só para luzes e iluminação, etc. Para um jogo desta escala, não há outra hipótese.”

The Witcher III: Wild Hunt

The Witcher III: Wild Hunt

Nesta questão de proporção, é inevitável sua comparação com Skyrim, tanto no que diz respeito às suas qualidades quanto seus defeitos, consequência de jogos enormes. Ao mesmo tempo que uma vila repleta de vida, abarrotada de pessoas ocupadas com seus afazeres, pode ser interessante de se observar e interagir, as múltiplas falas simultâneas sobre bobagens irrelevantes que se sobrepõem durante uma andança deixam tudo muito tumultuado e artificial, tal como notar diferentes NPCs com as mesmas falas. E como é estranha a discrepância de qualidade de interpretação dos personagens principais em relação a muitos dos NPCs.

Veja também:
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Alex Boiret, coordenador de localização da CD Projekt, me deu uma resposta para isso. “Obviamente tentamos [evitar essa discrepância entre a qualidade da dublagem dos personagens principais e dos NPCs] mas devido o enorme volume [de falas], é inevitável. É um problema de todo jogo muito grande, em qualquer língua. Temos esse problema também em inglês ou em polonês”, algo que eu mesmo pude notar quando cheguei em um ponto do jogo no qual a dublagem em polonês ainda não havia sido substituída. E, de fato, não é preciso saber polonês para identificar um NPC sem expressão.

“A questão é: nós focamos nossa atenção nos personagens principais e nos diálogos mais importantes”, disse. “A verdade é que, às vezes, eles são apenas aldeões e podem soar meio estúpidos de propósito. A maneira como videogames funcionam é diferente de cinema, por exemplo. Primeiro por que não são apenas duas horas de material de dublagem e a outra coisa é que os atores não têm nenhuma referência quando eles gravam. Eles possuem o script, com muitos contextos, mas eles não vêem nada. É meio que um tiro no escuro. No caso dos personagens principais, os atores podem realmente interpretar o personagem. Mas quando você tem que fazer o aldeão número cinco, nós nem falamos pra você quem é o aldeão número cinco… ele é triste por que sua esposa morreu ou algo assim? Não importa. Ele é somente o aldeão número cinco.”

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Em relação à dublagem dos personagens principais, não há muito o que reclamar. A voz de Geralt, em especial, soa compatível com o protagonista e evita exageros caricatos, ainda que isso aconteça com frequência com outros personagens. Considerando o escopo do projeto, que envolveu em torno de 100 atores para dublar os mais de 700 personagens do jogo todo (em sua grande maioria, NPCs, obviamente), em geral, o estúdio Synthesis (localizado no Rio de Janeiro, o mesmo que dublo Destiny, Watch Dogs e Call of Duty: Advanced Warfare) parece ter feito um bom trabalho.

A quantidade de personagens é compatível com a imensidão do jogo, que num speedrun sem a exibição de cutscenes e diálogos, pode durar em torno de 25 horas, como evidenciado pelos testadores da CD Projekt Red. Até tentei cavalgar longas distâncias pelos campos abertos do jogo, encontrando pelo caminho inúmeros elementos que despertavam minha curiosidade, mas como sempre me dava mal ao enfrentar criaturas mais fortes que eu (o que fica indicado pela cor do nível da criatura), preferia me manter na missão, o que significava dar um comando para que meu cavalo me guiasse até meu objetivo automaticamente, me restando apreciar a bela paisagem. The Witcher 3 pode ser bem conveniente.

Depois de algumas subquests, uma briga de bar, o uso de encantamentos para persuadir indivíduos (para o bem, juro), notei que eu jamais encontraria um ponto “ideal” para parar, uma vez que o jogo estava de fato me prendendo. Eu poderia continuar por horas e provavelmente nunca me daria por satisfeito. Sempre acharia mais coisas a serem vistas. Apesar da evidente falta de polimento da versão (que, segundo Teixeira, não será o caso do jogo que chegará às lojas físicas e digitais no dia 19 de maio), The Witcher 3 me cativou, seja com seus personagens, seja com seu mundo aberto, que me pareceu tão convidativo quanto o de Skyrim e menos intimidador que o de Dragon Age: Inquisition – o que é ótimo.

  • Gabriel.psd

    Fico feliz em saber que a CD Projekt Red está investindo no público brasileiro não só com a dublagem mas também no meio jornalístico da coisa. Se torna bem interessante quando dois lados da indústria se encontram pra discutir um jogo tão esperado quanto The Witcher 3, só me deixa meio preocupado a build do jogo ainda estar com alguns problemas, talvez seja por isso que o jogo foi adiado… Enfim, bom trabalho como sempre!

  • rodrigo

    muito bom por parte da CD PR, grande investimento na localização de seu produto., favorece e muito em jogos com tamanho consideravel

  • Alexandre Cassemiro

    Parabéns para a CD Projekt Red pela aproximação com o jornalismo no Brasil. Uma pena que essa build estava com problemas. Li entrevistas de pessoas que foram para a Polônia jogar e não tiveram esses problemas.

    Um ponto que gostaria de ressaltar é sobre o debate da forma que mulheres são tratadas na série. A forma que conduz mulheres no primeiro jogo é horrível, no segundo jogo temos um tratamento melhor. Existem varias cenas de sexo, mas normalmente elas são contextualizadas e não estão ali para justificar o caráter mulherengo do personagem principal.

    Henrique, não que isso seja necessário, mas acredito que você deveria ler um dos contos da série de livros em que exibe o relacionamento entre Yennefer e Geralt. O conto seria o “Um fragmento de gelo” que fica no segundo livro(A espada do destino). Ali temos o exemplo da maturidade do livro e do universo de the witcher ao tratar de sexo e relacionamentos, assim como exibindo a fragilidade emocional do “mulherengo”. O conto é pequeno e significativo….

    Uma ultima coisa, não acho Yennefer uma bruxa pouco atraente. Por exemplo nessa imagen de divulgação do The Witcher 3:
    http://du60gmv0v2ung.cloudfront.net/wp-content/uploads/2014/12/geralt_yennefersize_1920x1080.jpg

    E muito bom trabalho pela matéria!

  • Fabiano

    Não é só a Yennefer, todas as feiticeiras na verdade são mulheres feias que usam magias pra ficarem bonitas. A razão disso no livro era que (lá vem o machismo) “se elas tivessem nascido belas elas teriam arranjado um bom casamento e não precisariam ter uma profissão pra ganhar a vida”.

    Aliás, parabéns pelo artigo!

    • Felipe de Albuquerque

      Acho que pode ser mais uma representação de um mundo medieval do que machismo do próprio autor mesmo. Não tenho certeza pois ainda não li o material original.

  • Leonardo Avila

    Adorei o texto, expectativa alta (hype 😉 ) para esse jogo.

    Uma coisa que me incomoda nas dublagens de jogos, além de Rogers e Pitys, é o desequilíbrio no volume das falas. As vezes é alto, as vezes é baixo, e é sempre uma desgraça. Tomará q nesta eles tenham mais cuidado nesse quesito.

  • Não estou no Hype, mas fiquei curioso pra jogar. Porém, alguém acredita do fundo do coração que esse jogo vai realmente rodar liso no lançamento?

    • Alex Palomino

      Confesso que até o Dragon Age Inquisition deu uma decepcionada em relação a otimização. Só pude jogar com o real potencial da minha gpu com quase um mês de atraso (depois que eu já estava bem no finalzinho do jogo). E mesmo assim rolaram uns bugs que quebravam as mecânicas de batalha do jogo (a classe rogue é de longe a mais penalizada).

      • Mario Porfírio Souza

        Nunca tive problemas com Dragon Age no PS4

  • Leonardo Schmidt

    Que bom que vc gostou Henrique! Confesso que estava preocupado com tanto hype nesse jogo.

  • Felipe Moura

    Parabens pelo texto. Nas ultimas 24h li em vários sites mate rias sobre as 3h que passaram jogando The Witcher 3. Mas o do Henrique é de longe o texto mais completo publicado sobre o jogo

  • Renato Araujo

    É engraçado esse Gerald mulherengo dos jogos, sendo que nos contos em que os jogos foram baseados, mesmo com o tom sexual explícito, o bruxo é até meio recatado, e na maioria das vezes são as mulheres que “atacam”, enquanto ele sempre respeitoso. E é interessante ver tambem que diferente dos jogos, desde o primeiro conto, personagens femininas já possuem personalidade forte e são importantes na trama, inclusive o Gerald depende em vários momentos da ajuda dessas personagens.

    • Alex Palomino

      Eu andei lendo todos que foram traduzidos para o inglês e percebi o oposto. Mas, bem, talvez seja questão de posicionamento.

  • Jonathan Brian Dos Santos

    Sensacional, muito legal os questionamentos feitos aos produtores. Agora é esperar que esses problemas sejam de fato resolvidos na versão final e pronto, grande concorrente à game of the year!

  • Alex Palomino

    O livro mata um pouco da contextualização as vezes. Mas isso é uma coisa que só incomoda gente chata (que nem eu).
    Fico feliz com o trabalho que a CD Project fez com a série… o segundo jogo é bem coeso e permite algumas escolhas que criam uma noção de se estar ouvindo uma história, um conto, das implicações de suas ações. Não consegui me perceber fora da narrativa em nenhum momento. Esse fator sozinho já me conquistou.

  • Alex Palomino

    Uma coisa ainda não ficou claro pra mim… se vai rolar uma integração da minha narrativa própria em The Witcher 2, de tal forma que eu fique satisfeito ou até que eu lembro de alguma decisão. O Dragon Age Keep fez um belo trabalho. Acho que a ideia surgiu meio tarde… mas mesmo assim. Será que vai ter integração?

    * do The Witcher 1 pro The Witcher 2 já existia uma integração… mas eram um itens bem mixurucas. E algumas poucas falas… nada demais.

    Spoiler: Estou bem preocupado com o destino da Síle, Henselt e Leto. O quais só deixei vivo pra ver quais eram as consequências narrativas.