Durante a Brasil Game Show 2015 tivemos a oportunidade de conversar um pouco com Anderson Gracias, diretor sênior de PlayStation no Brasil. Entre um amendoim (para ele) e uma bala de goma (para mim, hey, ele que é o business man aqui!), o papo com o executivo foi interessante para pontuar algumas dúvidas e mostrar como o mercado de games navega o turbulento cenário econômico do País.

“É interessante falar sobre a crise”, começou. “Hoje de manhã eu estava assistindo Bom Dia São Paulo. Lá eles abriram uma matéria sobre a BGS com a manchete ‘O Mercado que Não Sente a Crise’. Não é bem assim.” Gracias destaca dois pontos que estão enforcando o avanço do segmento, sendo eles a demanda, já que com uma situação econômica fragilizada o consumidor simplesmente prefere escolher mais criteriosamente onde gastará o seu dinheiro, e o maior vilão na visão do executivo: o dólar alto. “Mas me falam ‘Ah pô, mas a produção é brasileira’, sim, mas todas as peças vêm de fora. Nossa indústria não é especial para conseguir escapar disso. ”

Porém, o diretor aponta que mesmo com os problemas macroeconômicos do Brasil, a situação da PlayStation em si acaba correndo um pouco na contramão: “acabamos de lançar uma produção local, investimos em fábrica, em geração de empregos, em infraestrutura e logística. Tudo isso faz com que nós sejamos uma certa exceção. Todo mundo (a concorrência) está quietinho, esperando o tsunami passar. Como estamos, coincidentemente, lançando um produto novo manufaturado aqui em um momento de crise nos deslocamos para um cenário um pouco mais favorável. ”

O ecossistema tem de estar saudável

Star Wars Battlefront

Star Wars Battlefront

Tudo bem, PlayStation consegue ter uma certa força para ir na contramão e investir enquanto os outros acumulam comida para o frio da retração econômica. Mas quando os outros lados do ecossistema do qual a marca faz parte começam a dar sinais de aumento ainda mais alto, como, por exemplo, Need for Speed e Star Wars: Battlefront sendo anunciados por R$ 300? “Temos visto anúncios de jogos sendo reposicionados. É triste ver. Tem gente que…. Outro dia escutei de um ‘pô, vai ficar bom pracaramba para você! Com third-parties aumentando e você com seus first-parties conseguindo manter preço! ’ Engano seu. Não queremos ver third parties aumentando desse jeito, afeta o sistema todo“, afirma Gracias, indicando que PlayStation sozinha não consegue segurar o mercado inteiro.

“Outro dia estava assistindo uma entrevista do Phil Spencer e achei genial, ele falando de indústria, da gente (Sony). É importante os dois estarem indo bem, é importante o segmento estar indo bem. Então não queremos o mal da nossa concorrência e, dentro da nossa plataforma, não queremos os third-parties aumentando o preço também”, diz o executivo.

Já que o ecossistema é tão importante de se manter, o movimento da Nintendo deve ter sido visto de maneira pessimista pela Sony. “O primeiro impacto que (a saída da Nintendo) teve foi a alta gestão nossa lá fora ficar desconfiada. Os caras olharam ‘Opa… Por que a Nintendo tá saindo do Brasil? Será que nós não temos de reavaliar nossa presença no País?’ , ou seja, isso gerou um questionamento. A partir do momento que se entende o contexto no qual eles estão saindo do País, aí sim, que pena. Porque primeiro, sabemos que existe uma legião de fãs gigantesca. Foi um problema de modelo de negócio, a gente passou por isso quando anunciamos os famosos R$ 4 mil (o PlayStation 4 foi lançado oficialmente no Brasil pelo valor e os fãs ficaram indignados – com razão), no modelo de importação. Importar para o Brasil eletrônicos, da maneira correta, pagando os impostos, inviabiliza o negócio.”

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O execrável

É bem fácil para o executivo apontar o responsável pelos preços atuais e porque o PS4 (e seus concorrentes) não estão mais acessíveis: o dólar. “Para nós e para eles (Xbox), é o maior vilão. Se tivermos recuo da moeda frente a nossa, vai ajudar muito.” E isso acontece porque tanto o PlayStation 4 quanto o Xbox One são apenas montados no Brasil. Todas os componentes dos videogames são importados.

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E não é só no hardware que a moeda dos EUA afeta. “Não queremos nem pensar, e nem entrou na nossa pauta, a questão de verba para localização de dublagem. Existem outras linhas que podem ser cortadas antes de chegar nesses investimentos – que, sim, fazem muita diferença nas vendas de jogos. Mas não há como negar que tudo entra em jogo quando a situação fica crítica.”

Mas mesmo com tudo isso acontecendo, com o ecossistema de games sendo duramente atacado pela crise, Gracias prevê crescimento para o PlayStation no Brasil. “Para nós, por conta do momento que estamos, se compararmos o meu ano fiscal deste ano (que acaba em março 2016) com ano passado, eu vou crescer muito, claro, eu não tinha o console ainda. O nosso crescimento será estrondoso e isso impactará o mercado como um todo. (Mas) Se você tirar o console, passaríamos um ano parecido com o do ano passado, pouca coisa de crescimento.”

Perigo interno

Enquanto PlayStation vive a turbulência econômica do País, um outro problema também povoa a cabeça do executivo: os videogames abaixo do preço oficial que os grandes varejistas têm vendido. Em uma pesquisa rápida você consegue encontrar PlayStation 4 e Xbox One por R$ 1.900 e R$ 1.700 respectivamente. Enquanto o preço oficial fica em R$ 2.599 para o videogame da Sony e R$ 2.499 para o da Microsoft.

“Comercialmente falando esse é o nosso maior desafio, e tenho certeza que é para o nosso concorrente também. Não podemos fazer ninguém usar o nosso produto, é contra lei. Mas é um problema de qualidade, de onde vem esse produto? Tem loja vendendo produto que pode ser remanufaturado (produtos que já apresentaram problemas e foram refeitos). E o consumidor também não sabe que isso tá acontecendo. ”

E suporte para essas pessoas?

“Não é um produto nosso, né? Fica difícil ajudar o consumidor nesse caso.”

Foto: IGN Brasil

  • Marcello Duarte Crescencio

    É interessante pensar que a B2W, por exemplo, tem vendido os consoles por um preço abaixo do mercado e seus parceiros (Lojas que só se aproveitam da plataforma) meio que mantém o preço sugerido.

    • Thales Pedrosa

      É que a B2W tem o sistema de marketplace né, eles (além de venderem os produtos da loja submarino), fazem o intermédio de outras lojas menores. Não é raro ver jogos e aparelhos com mais de um preço no site deles. Normalmente o PS4 a menos de 2 mil fica como “vendido e entregue por X”.

  • leoleonardo85

    A entrevista partiu de ponto algum e não chegou a lugar nenhum.