O comprometimento da Sony com desenvolvedores independentes se estende por vários anos. No final de 2013 a companhia fez um evento em São Paulo destacando sua aproximação a pequenos estúdios brasileiros, anunciando que 19 deles já estavam desenvolvendo títulos para consoles PlayStation.

Salte para 2015 e você vê a mesma atitude e estratégia por parte da Microsoft. A começar pela E3 deste ano, na qual a companhia colocou jogos independentes lado a lado com produções de grande orçamento no palco de sua conferência. A abordagem é a mesma que ocorre no enorme e vistoso estande do Xbox na BGS 2015: jogos independentes brasileiros e estrangeiros dividindo espaço com títulos AAA. Em um certo momento, presenciei até um mini-espetáculo de Cuphead, uma das maiores apostas indie da Microsoft, em que uma pessoa vestida como o simpático personagem do jogo tirou gargalhadas do público, enquanto lindas animações rolavam no telão ao fundo.

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Cuphead é um dos jogos independentes mais promovidos pela Microsoft

Esteban Lora, executivo do programa ID@Xbox, fez de tudo durante nossa conversa para reforçar o compromisso da Microsoft com os indie brasileiros — a ponto de desviar completamente de algumas perguntas para priorizar informações relacionadas ao programa, o que me fez questionar se ele estava realmente me entendendo ou se apenas limitava-se a dizer aquilo que sua companhia lhe pediu, perante o gravador.

Lora afirmou que 30 desenvolvedores locais já trabalham com a Microsoft para levar seus jogos ao Xbox One e Windows 10, sendo Aritana e a Pena da Harpia, da Duaik, lançado recentemente ao console, o primeiro título brasileiro do programa ID@Xbox. A equipe de desenvolvimento do jogo, inclusive, chegou a receber de Phil Spencer, chefe da divisão Xbox, um prêmio durante a coletiva pré-BGS, realizada na noite desta quarta-feira (8), também em São Paulo, pela mesma razão.

“Eu acho que o Brasil é um grande país para o desenvolvimento de jogos indie. Há aquele espírito de ter algo diferente, algo novo. Aritana é um bom exemplo disso, pois além de ser um jogo divertido de jogar, também um pouco da cultura brasileira”, disse, provavelmente se referindo aos temas indígenas explorados pelo jogo.

Além da Duaik, Lora cita outros desenvolvedores, como QUByte, Garage 227 e Cyber Rhyno (de Gryphon Knight, já lançado no PC) como parte do ID@Xbox. Os 30 estúdios brasileiros compõem uma pequena parcela dos mais de mil desenvolvedores ao redor do mundo que já fazem parte do programa.

Fazer parte do ID@Xbox é simples, como me explicou posteriormente o cofundador do estúdio paulistano Garage 227, Ed Marks. O desenvolvedor submete um jogo à avaliação e, assim que seu projeto é aprovado, ele recebe um kit de desenvolvimento para Xbox One, o que já o torna, automaticamente, um integrante do programa. Embora isso lhe garanta o benefício de autopublicação de seu jogo na plataforma, a responsabilidade de desenvolvimento e finalização do projeto ainda é do estúdio.

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Cada cartão representa um jogo e um estúdio, parte do programa ID@Xbox

Ainda em minha conversa com Lora, em certo momento ele se levantou e pegou em suas mãos uma caixinha, me deixando bastante curioso. Ao levantar a tampa, notei que ela comportava centenas e centenas de cartões. Ele tirou alguns aleatoriamente e me mostrou: cada cartão apresentava, na frente, o nome de um estúdio independente e, no verso, uma screenshot do jogo em desenvolvimento por ele — todos parte do ID@Xbox. Talvez a ideia fosse traduzir fisicamente a quantidade de parceiros que a Microsoft possui em seu programa, ainda que fosse difícil ter certeza se todos os mil estúdios estavam representados ali. De qualquer forme, fiquei bastante impressionado.

Lora afirma que desenvolvedores que fazem parte do programa se beneficiam da integração entre dispositivos Xbox One, Windows 10 e tablets da plataforma Windows, reverberando os anúncios feitos por Phil Spencer, chefe da divisão Xbox, no início do ano. Na ocasião, ele falou sobre as vantagens do ecossistema Windows/Xbox, que permite o “cross-buy e cross-use” entre diferentes plataformas compatíveis. ou a possibilidade de realizar transmissões caseiras, via Wi-Fi, do Xbox One para qualquer PC ou tablet com o Windows 10. As funções, contudo, ainda não estão totalmente disponíveis aos usuários.

“Os desenvolvedores podem optar lançar seu jogo primeiro para Windows e, posteriormente, no console. Ou vice versa. O legal do nosso programa é que eles podem ter a liberdade de fazer o que quiserem.”

Pergunto se a Microsoft tem algum plano para evitar que suas plataformas se tornem muito saturadas de jogos, a ponto de comprometerem a visibilidade aos títulos — como vem acontecendo com o Steam ou a AppStore –, dado até os mil estúdios independentes que já desenvolvem para elas. Lora, contudo, se limita a dizer que acredita que a dashboard do Xbox One e suas funções sociais darão conta do recado. Aqui, novamente, ele reforça: “No Xbox One”, ele me diz, apontando para a interface inicial do console ligado a uma TV, “você tem jogos AAA e indie e eles estão juntos, compartilhando o mesmo espaço. Temos uma curadoria e os mecanismos para certificar que os indies terão o nível adequado de exposição, não apenas no dashboard do console, mas em eventos.”

Então lembro da pequena apresentação de Cuphead que eu havia visto há pouco e me feito sorrir. Obviamente, o jogo canadense é um dos únicos a receber esse tratamento dentre os tantos outros que fazem parte do programa, mas fica claro que, se o título tiver potencial, a Microsoft não hesita em ajudar a promovê-lo da melhor maneira possível.

  • Jonathan B.

    A Microsoft está mandando muito bem apoiando os indies. Até o seu estande esse ano estava mais interessante do que o da Sony… Enquanto a Sony desperdiçava estações de jogos com games como Transformers (que além de ser horrível, ninguém liga), a MS tinha estações de jogos com joguinhos indies bacanas, como Cuphead, que gostei muito de testar.