É interessante encontrar grandes executivos fora dos eventos internacionais de games. Por mais que a Brasil Game Show tenha se estabilizado como o maior evento da América Latina, a atenção dada pelos figurões das grandes empresas do setor ainda é tangencial. Então encontrar com o chefe da divisão Xbox, Phil Spencer, na BGS 2015 acaba criando um pequeno choque de “parece que você tá meio perdido por aqui, cara”, seja pela exacerbação do público com um executivo que não significa tanto assim para eles, tietagem pesada mesmo, com pessoas pedindo autógrafos e gritando seu nome pelos corredores do evento, seja por estar fora do eixo usual da figura.

De qualquer maneira, Spencer mantém a postura relaxada que sempre exibe em suas aparições. Dois dias antes de conversarmos (quarta-feira, dia 07), a Xbox realizou uma festa pré-BGS na qual mostrou alguns vídeos e deixou o executivo conversando diretamente com alguns fãs. Já naquele evento ficou claro como ele é admirado, parecendo mais uma figura pública como Shigeru Miyamoto (da Nintendo) do que alguém acostumado a salas de reuniões fechadas. “Não sinto que é uma jogada de marketing ou de relações públicas (a proximidade com fãs). Me parece natural, gosto do que eu faço e quando estou apresentando os jogos fico tão empolgado quanto os que estão assistindo”, conta Spencer.

Mas deve ser difícil manter a tranquilidade quando nem uma semana antes de desembarcar no Brasil foram anunciados aumentos nos preços tanto do Xbox 360 quanto do Xbox One. “Não adianta contornar a situação: com a economia brasileira flutuando dessa forma e a força do dólar aqui não tivemos outra escolha que não fosse nos reposicionar. ” E sem hesitar Spencer afirma saber não só que Xbox 360 continua vendendo muito bem, como sabe muito bem que videogames são itens de luxo, logo, preços altos não são nada atrativos nesse cenário, “mas realmente não tivemos como escapar dessa vez”. “Há anos montamos nossa operação de manufatura no País, criamos empregos e agora estamos estreitando nossa relação com desenvolvedores de jogos locais. Nós sabemos que o mercado aqui é forte e estamos no Brasil para o longo-prazo. ”

Diplomacia

Já conversamos com Esteban Lora, executivo do programa ID@Xbox que tem se firmado como uma importante plataforma para novos desenvolvedores entrarem nos sistemas Xbox. E é interessante ver essa aproximação da iniciativa especificamente com desenvolvedores brasileiros, mas para Spencer isso é mais acaso do que uma tentativa de mirar especificamente no público local.

Aritana e a Pena da Harpia

Aritana e a Pena da Harpia

“De onde a pessoa é, qual a cultura que tem, se é homem ou mulher, isso são apenas elementos separados. Para nós o que importa é ter jogos legais na nossa plataforma. Por exemplo, estive conversando com alguns desenvolvedores brasileiros e eles me falaram que muitos dos jogadores locais não querem jogar títulos feitos aqui. Para mim não tem problema algum. O que quero oferecer são bons jogos”, diz o executivo. “Além disso, é muito importante diversificarmos o desenvolvimento, pois só assim novas ideias aparecem. Olha que interessante: eu estava jogando Aritana e a Pena da Harpia e os desenvolvedores colocaram o botão de pulo no gatilho direito, não no A como todos fazem. Eu estranhei no começo, mas depois me acostumei e faz sentido para o jogo. Não acho que isso aconteceu porque os desenvolvedores são brasileiros, mas sim porque são diferentes e é isso que queremos”.

Para Spencer, além das inovações propostas nos jogos da ID@Xbox, o programa também abre as portas para novas práticas. “Do ponto de vista financeiro é ótimo, já que com jogos menores e mais baratos de serem feitos, novos preços começam a aparecer, saindo do usual dos jogos AAA. Além disso, com desenvolvedores não tentando ter um escopo gigante dos jogos AAA eles ficam livres para explorarem novas ideias.”

Olhando para frente

Enquanto o ID@Xbox olha para os novos desenvolvedores em busca de ideias, a divisão Xbox também trilha o caminho da evolução. Um exemplo é de como a mensagem passada do pacote inicial do Xbox One (com Kinect incluso) mudou desde o seu lançamento, retirando o sensor de movimento e baixando o preço de entrada na plataforma. “Não foram decisões difíceis, só queremos fazer uma boa plataforma. Por exemplo, no caso do Kinect: muitas pessoas adoram o periférico, nós temos os dados de acesso dos nossos consumidores. Mas precisávamos decidir entre forçar nosso usuário a pagar mais caro, mesmo se não conhecesse o Kinect, ou oferecer um pacote mais barato sem o aparelho, assim o consumidor poderia escolher depois se gostaria de comprar ou não o sensor”, diz Spencer.

Xbox One e Kinect

Só que esse tipo de decisão, ainda mais depois de toda a mensagem passada no lançamento do Xbox One, com a ideia do “sempre online” e a ênfase que a Microsoft dava ao seu sensor de movimento, parece mostrar que estão desistindo do Kinect como a Sony fez com a câmera do PS4. “Olha, a tecnologia definitivamente não está morta. Boa parte do que aprendemos com o Kinect está sendo usado no Hololens, é como o novo aparelho vê as mãos do usuário e lê o ambiente a sua volta. Então a tecnologia (de sensor de movimentos) possui um grande futuro e continuaremos a inovar”, afirma o executivo.

Se a ideia é inovar, algo que tem se mostrado como o (ou pelo menos “um dos”) futuro é a tecnologia de realidade virtual. Mas, ao mesmo tempo, o alto custo dos visores não transformaria a novidade em algo como o 3D – que tinha tudo para se fixar como o novo alvo das empresas e acabou esquecido? “De maneira alguma. O VR é algo completamente diferente do 3D. Isso porque a realidade virtual se mostra mais natural ao ser humano. Enquanto o 3D se esforça para emular profundidade numa tela 2D – e o usuário ainda percebe a sua volta como um ‘3D de verdade’ –, o VR coloca você dentro de uma experiência completamente crível.” E para Spencer não fica só na questão sensorial, o processo de criação também pesa mais para o lado do VR. “Hoje temos 100 jogos que estão sendo desenvolvidos para realidade virtual no Windows, possivelmente mais. Eu e você podemos montar um estúdio agora para criar coisas para o VR. É só pegar um PC e algumas ferramentas open source que estamos prontos. No caso do 3D o processo é mais restritivo, difícil de começar e caro. Acredito firmemente que se dermos tempo aos especialistas o VR se tornará algo realmente incrível. Porém, no momento, o nosso foco, na questão do Xbox, ainda fica na TV.”

  • leoleonardo85

    Adoro a maneira pé no chão que o Spencer fala.

  • rodrigo

    Spencer gato…

  • XboxDeuso

    Legal. To começando ficar empolgado com esse tal de VR. Tomara que seja viável.