Divulgado pela BGS como uma iniciativa de promover o mercado de jogos independentes nacionais, o “pavilhão indie” ficou relegado a uma das áreas menos movimentadas da feira. Em um estande discreto, pude jogar uma versão atualizada de Toren, o jogo da gaúcha Swordtales que recentemente teve sua data de lançamento divulgada: começo de 2015 para PC e PS4.

Como Vitor Severo Leão, produtor de Toren, me explicou, a demo da BGS traz apenas fragmentos do jogo completo (que deve durar em torno de cinco horas), mais focados em ação, e não uma única sequência, uma vez que é difícil apresentar um jogo introspectivo como ele em um feira de games. Começo a demonstração já notando um curioso detalhe: os logotipos do Ministério da Cultura e da Lei Rouanet aparecem antes da tela inicial do jogo, tal como filmes brasileiros que também recebem incentivos do governo, que é o caso de Toren.

Na demo, passei por diferentes fases “das vidas” da protagonista Moon Child, que tem como objetivo escalar uma torre na qual está aprisionada. “Das vidas” pois, em diversos momentos da história, a garota é petrificada e renascida logo em seguida, podendo utilizar a estátua em que ela se transformou na vida passada como forma de atingir uma nova área da torre.

Em certo momento, controlei ela ainda bebê, engatinhando e dando seus primeiros passos desajeitados, com suas perninhas gordas. Em outro, já era uma versão mais madura da garota, capaz de empunhar uma espada, saltar e empurrar estátuas. Boa parte da jogabilidade vista na demo consistia nestas ações básicas, quase isentas de desafio: saltar buracos, atacar pequenas criaturas com sua espada e interagir com objetos de forma a permitir sua progressão pelo cenário e solucionar pequenos puzzles.

Quando a linearidade e a frequência de ações “roteirizadas” começaram a me incomodar, Toren me confrontou com uma tomada de decisão: eu poderia, se quisesse, sacrificar um animal inocente para me tornar mais forte. Optei em mantê-lo vivo, sem saber que a dificuldade que tive para enfrentar um monstro logo em seguida estaria diretamente ligada a esta decisão. Se o jogador for curioso o suficiente, ele encontrará escondido no cenário uma máscara, que também o ajudará diretamente na batalha contra a criatura gigante, ainda que isso não fique muito claro.

Essa batalha segue uma formula simples: mantenha-se próximo de estátuas para evitar a onda de energia emitida pelo monstro, aproxime-se dele e ataque-o, o que faz surgir uma espécie de campo de força ao seu redor, o que me deu a impressão de que meu golpe não estava sendo efetivo.

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Essa sequência parece apontar um problema em Toren: a comunicação entre o jogo e o jogador, que, ao menos na demo, foi falha para mim. Se não fosse pela explicação de Vitor, eu não teria entendido as consequências do sacrifício do animal, a utilidade da máscara e que meu golpe estava, de fato, causando dano ao inimigo. Embora eu estivesse apreciando o estranho e exuberante mundo de Toren, as delicadas animações da garota e o fato do jogo me dar uma certa liberdade de exploração, em determinados momentos, a falta de feedback me me deixou um pouco frustrado.

Posteriormente, Vitor me mostrou outras sequências de jogo, que não estavam presentes na demo. Em uma delas, ele controlou a garota em uma espécie de mundo onírico e surreal, andando sobre ruínas flutuantes e desviando de estátuas móveis, que poderiam empurrá-la para o limbo que existia abaixo de tudo. Em cada canto da estrutura, ele precisava derrubar sal sobre símbolos religiosos no chão, formando um desenho, enquanto um bando de pássaros vermelhos o sobrevoava – uma cena ao mesmo tempo bela e esquisita.

Conforme Vitor me apresentava diferentes partes do jogo, reparava o quão eu gostava da maneira como ele aborda misticismo. Além da linguagem poética e dos cenários surreais, Toren é repleto de imagens místicas e simbólicas, e a incompreensão imediata destes elementos só acentua a sensação de estranheza que ele causa. Segundo Vitor, Promethea, de Alan Moore, foi uma das maiores inspirações para a equipe, o que explica muito do tom folclórico, das metáforas e dos simbolismos religiosos de Toren – ainda que, pra mim, o jogo carregue também um pouco do misticismo de A Montanha Sagrada (talvez você não queria clicar, se estiver no trabalho) de, Alejandro Jodorowsky.

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Em outro momento, Vitor enfrentou o mesmo monstro que eu havia sido incapaz de derrotar, em uma sequência diferente. Tal como Ripley para Samus, em Metroid, essa criatura retorna diversas vezes ao longo do jogo. Diferente do jogo da Nintendo, contudo, enfrentá-la acaba sendo mais uma tarefa de identificar o que o jogo quer que você faça do que combates diretos e fluidos. Nesta nova sequência, Vitor precisava se segurar em estátuas para evitar que a garota fosse carregada pelas fortes correntes de vento geradas pelo monstro, aproximando-se da estátua mais próxima entre uma ventania e outra, até alcançá-lo.

Por mais que ainda careça de um certo polimento, Toren já se mostra um jogo bastante único e original. Dispensando elementos de fantasia tradicionais, o jogo apresenta um mundo e linguagem próprios, instigando o jogador a decifrar suas metáforas e símbolos. De certa forma, para mim, ele me remete ao excelente e um pouco obscuro El Shaddai: Ascension of Metatron (ainda que mais sóbrio e enrijecido, até por se tratar de um adventure aos moldes de Alone in the Dark, e não de um jogo de ação), dada a forma como ele trabalha com mitos religiosos para compor um novo e estranho universo.

  • Matheus Rodrigues

    Realmente me interessa os jogos feitos por estúdios brasileiros, acredito que as pessoas aqui tem tanta criatividade pra tanta coisa ruim, que já ta mais que na hora de aplicar em alguma coisa boa!!!! rs

  • Gustavo Freitas

    Não quero ser o chato…mas vou ser…

    O grafico parece ser MUITO RUIM, seria melhor ter feito algo mais caricato, do que ter a apariencia de um jogo do PS2. Por outro lado, como ainda esta em desenvolvimento, isso pode ser uma asneira colossal.

    Ver a Lei Rouanet sendo usado para jogos, me trouxe um sorriso gigante na cara =D. Quero muito ver outros casos.

    A historia parece ser boa e esse lance de ir e voltar no desenvolvimento do personagem é bem legal.

    Vou acompanhar esse Toren !!!

  • Membro Desmembrado

    Polimento Rique? Cê tá sendo bonzinho. Tá faltando capricho gráfico. Nem que fosse pra estilizar… existe tanto jogo em cel shading que deixa o realismo do Unreal Engine no chinelo

    • Gustavo Freitas

      aiohhh… concordo plenamente. Não sou amante de cel shading, mas para alguns jogos, funciona muito bem!!!

      Creio que esse seria um deles…

  • Gabriel Pinheiro

    Queria saber onde vocês viram tanto problema com os gráficos. O jogo pode não seguir uma linha fotorealista, mas tem sim muita originalidade em sua estética visual e impressiona principalmente na iluminação. Na minha impressão, o outro trailer de anuncio do jogo parecia fazer mais jus a esse visual, apesar de eu não não ter certeza do tanto que mudou de lá pra cá.

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