“Bowser, você praticamente deu o machado a ele. Será que foi acidental, eu me pergunto.”

Esta foi a primeira indagação que Luigi teve em Ennuigi. Ennui, palavra francesa, expressa a ideia de imobilidade, ausência de ânimo, um tédio proveniente da falta de qualquer interesse. Em Ennuigi, criado por Josh Millard, o irmão do encanador mais famoso do mundo vaga pelas terras do Reino do Cogumelo, elocubrando sobre os feitos dele e Mario nessa terra.

“Eu me lembro de quando vimos pela primeira vez um tijolo voando. Eu o olhei com espanto, aterrorizado. Ele disse: ‘vamos quebrá-lo’.”

Luigi anda de um lado para outro, parando para tragar seu cigarro e ruminar seus pensamentos quando queremos. Fatos concretos e conhecidos de Super Mario Bros., que já estão fixos em nosso imaginário, são questionados sempre que decidimos fazer isso. Qual a natureza da possessão de uma nuvem? Qual a obrigatoriedade sentida por Peach em estar com Mario por ter sido resgatada? O afundamento de Luigi em sua própria incapacidade de tomar alguma ação é exponencializada pela trilha sonora, que ameaça ser alegre em seus primeiros segundos, porém em sua repetição constante nos faz pensar ainda mais sobre o caminhar em círculos do encanador de suspensório verde.

“Eu olho para uma tartaruga e penso: você usa um casco. Eu me tornei um.”

Millard diz o seguinte sobre Ennuigi: “Esta é uma tentativa em uma coleção de ideas que tive há alguns anos, sobre olhar criticamente o universo de Super Mario Bros. devido à ausência de narrativa do primeiro jogo em particular. Quem são esses estranhos homens? O que os motiva? Com que direito eles causam caos nesse estranho lugar? O que eles sentem em relação ao lugar em que eles estão e o que estão fazendo?”

Qualquer universo que é tão estabelecido e tem ao mesmo tempo pontas tão abertas já passou, em alguma roda de conversa, pelo escrutínio de ter a ele aplicado uma série de regras da nossa realidade. Onde fica o refeitório e os banheiros da Estrela da Morte? Por que o Professor Girafales salta de uma matéria a outra em questão de segundos na sala de aula? Se o Pato Donald não usa calças, por que ele enrola uma toalha na cintura a sair do banho etc.

Essa visão analítica do fantasioso por vezes cai apenas na esfera do chato (“como ninguém reconhece que Clark Kent é o Super-Homem”, sei lá, de que importa?), mas dependendo do seu direcionamento ela pode ser divertida. Ennui cai neste último caso, alimentado pela ideia já explorada algumas vezes pela própria Nintendo de que Luigi sofre eternamente por viver à sombra do irmão (fazendo com que a subversão desse tema surja às vezes de forma fantástica). Há algo de bonito no ponto de vista sombrio que Luigi tem do Reino do Cogumelo e nas coisas que foram feitas por lá.

“Eu costumava correr. Eu costumava saltar. Eu estou tão cansado.”

Ennuigi pode ser jogado gratuitamente.

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  • Manoel Ricardo

    ZZzzzz….

  • Insidia Rock

    “fumar e indagar”…………..

  • Carlos Augusto Leão

    Ual. Por essa eu não esperava. Excelente matéria.

  • Eu achei a fonte que utilizaram no jogo muito ruim e difícil de ler. Me desanimou a continuar.