Você pode discordar dela ou dizer que seu discurso é extremista, mas é inegável que Anita Sarkeezian levantou um debate extremamente importante no meio de videogames — na internet como um todo, eu diria. Os avanços recentes na representação feminina nos games e na discussão sobre igualdade de gêneros foram amplamente contribuídos por suas análises em sua série Tropes vs. Woman in Video Games. E o mais recente episódio tem alguns dos discursos mais importantes já ditos por ela em toda a série.

Com aproximadamente 30 minutos de duração, o vídeo mostra uma miríade de exemplos de como, ao longo das décadas, os jogos trataram o tropo da mulher enquanto recompensa, que traz alguma similaridade com o da dama em perigo, já abordado no passado por Anita. Como sempre, os apontamentos feitos por ela podem gerar muito desconforto, dada a quantidade de vezes que vemos mulheres sendo retratadas meramente como prêmio ao jogador, muitas vezes reduzidas a um corpo para ser consumido e descartado pelo herói, como uma forma de validação de um jogador supostamente masculino e heterossexual.

A crítica mais contundente, contudo, vem mais para o final, quando Anita aborda o “male entitlement”, um conceito que pode ser traduzido como merecimento masculino ou legitimidade masculina. Traçando uma interessante relação com os sistemas de conquistas, como os achievements do Xbox e os troféus do PlayStation, ela mostra como jogos muitas vezes reforçam a ideia pervasiva, presente na sociedade como um todo, de que sexo é uma conquista masculina.

“Essa mentalidade carrega uma correspondente série de expectativas sobre o que mulheres deveriam fornecer a homens”, ela explica. “É uma visão de mundo que primariamente define o papel social da mulher como receptáculo de sexualidade e o dos homens como consumidores e patronos desta sexualidade. Diferentemente do acesso à água potável ou sistema de saúde, que deveriam ser considerados direitos básicos para todas as pessoas, simplesmente por serem seres humanos, contudo, o acesso aos afetos de uma mulher, seu corpo e sua sexualidade não é um direito devido a ninguém a não ser ela própria. Isso deveria ser óbvio, mas infelizmente o merecimento masculino é um problema em nossa cultura atual.”

A explicação da Sarkeesian reforça por que o combate a esse tipo de comportamento é importante, principalmente no meio de games e tecnologia, predominantemente masculino e ainda bastante hostil à mulheres: “A mentalidade da legitimidade masculina tem um profundo impacto sobre a forma como os homens se relacionam e interagem com as mulheres. Podemos vê-lo sempre que um homem pede a uma mulher para que lhe mostre os peitos, ou faz exigências durante um jogo online para que ela lhe envie fotos nuas ou sexuais. Também o vemos em espaços do mundo real sempre que homens direcionam cantadas às mulheres na rua. Vemos sempre que um homem tateia uma mulher em um evento ou convenção. Quando um homem espera sexo em troca do pagamento de um jantar a uma mulher. Na sua forma mais grave, a legitimidade masculina é a mentalidade que serve como base para as epidemias de estupro e agressão sexual em nossa sociedade.”

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Sarkeesian reforça que nem todos, obviamente, possuem essa mentalidade, mas que trata-se de uma construção social enraizada na cultura e um aprendizado que homens e mulheres, inseridos dentro deste contexto, acabam possivelmente adquirindo, mesmo que inconscientemente.

“Essa atitude é ensinada através de um complexo processo de socialização impactado por uma série de fatores. Famílias, religiões, grupos de pessoas, filmes, música pop, pornografia popular e videogames todos fazem parte da construção e perpetuação desta mentalidade. Então, obviamente videogames sozinhos não são responsáveis por criar a legitimação masculina, mas uma vez que se tratam de sistemas interativos, eles podem ser programados para reforçá-la de formas únicas, diferentes das outras encontradas na mídia.”

Anita, então, cita conquistas dadas por jogos aos jogadores como recompensa à atitudes que, justamente, invadem a privacidade feminina, como em Asura’s Wrath e Lollipop Chainsaw, nos quais, se você focar a câmera por um certo tempo nas partes íntimas das personagens (que, por sua vez, foram criadas com toques de erotismo, ou seja, com a intenção de fazer com que o jogador olhe para elas), mesmo que elas tentem se cobrir, é recompensado com troféus. Já Saboteur recompensa o jogador por beijar 50 mulheres na rua aleatoriamente, sem seu consentimento, como uma forma de se camuflar e não ser detectado pelos inimigos.

“Essas conquistas estão diretamente recompensando os jogadores por comportamento in-game que equivalem ao assédio sexual. Jogadores estão ativamente sendo encorajados para pensar no corpo das mulheres como algo com os quais eles possuem o direito de interagir.”

Para Sarkeesian, quando as expectativas baseadas em merecimento não são realizadas, homens tendem a recorrer à agressão, e não apenas física. A perseguição, os insultos e a ira coletiva de grupos inteiros acabam sendo uma forma de resposta à negação desta mentalidade.

“Na comunidade de games, vemos essa afronta alimentada pela legitimação masculina quando alguns jogadores encontram indicações de que seus jogos não foram feitos exclusivamente para suas fantasias em mente. Birras públicas de jogadores heterossexuais ocorreram quando RPGs os obrigaram a interagir com personagens gays ou apresentaram a eles personagens lésbicas que não estavam disponíveis como opções românticas a avatares masculinos.”

Interessantemente, seu discurso termina citando seus próprios agressores como exemplos da mentalidade do merecimento masculino – e ela, tal como tantas outras mulheres que se manifestam a favor de igualdade de gênero nos videogames ou na sociedade como um todo, como vítima. “Da mesma forma, quando apresentados com análises críticas sobre a pobre representaçao feminina em jogos populares, esse intenso senso de direito masculino se manisfesta em agressões, abuso e ameaça.”

  • Glauber Kotaki

    Obrigado Rique e Overloadr por ser um dos pouquíssimos grandes sites brasileiros de games a lidar, ou melhor, sequer tocar no assunto de sexismo em games. E obrigado também por traduzir as partes do que eu também acredito ser o tema mais importante que ela já abordou na série dela, acho que quanto mais gente entender isso, melhor!

  • FHC

    Parabéns pra Anita e pro site! Overloadr fazendo o que poucos sites brasileiros fazem!

  • Filipe Sampaio

    Existe tanta coisa que eu, por exemplo, como hetero, branco e homem tenho “garantido” desde que nasci, que preciso que me apontem algumas que podem não ser tão óbvias. E esse vídeo, juntamente com o excelente texto do Rique, abriram um pouco mais os meus olhos.

  • Aperipe

    É realmente os videogames são um modo de reforçar mentalidades culturais de forma unica e diferente de outras midias, nos influenciando a fazer na vida real aquilo que fazermos nos games.
    Sobre como games influenciam a vida real, o overload já publicou uma matéria sobre o relatório da Associação Americana de Psicologia (APA) sobre a relação da agressividade e jogos violentos. Deem uma conferida.
    http://overloadr.com.br/noticias/2015/08/existe-uma-ligacao-entre-agressividade-e-jogos-violentos-aponta-associacao-americana-de-psicologia/
    Acredito que estas matérias se complementam.

  • O vídeo é longo e aqui não tá gerando a legenda em inglês para eu acompanhar melhor, então vou pelos highlight que o Rique comentou:

    Estava até discutindo esses dias sobre racismo e preconceitos com uns amigos e levantei que o maior problema nesses casos é justamente não reconhecer aquilo que está errado porém tão infiltrado em nossa cultura que acaba passando batido.

    Todos nós temos preconceitos com alguma coisa, porém uma boa parte(para não dizer a maioria) apenas absorveu isso cutaneamente da sociedade, sem realmente pensar porque não gosta de algo. O processo mais difícil é entender que isso é errado e mudar isso.

    Ver filmes/jogos medievais em que a vestimenta da mulher não protege de forma alguma, apenas objetifica e achar ruim quem acha isso errado… Parece que as pessoas não pensam nisso verdadeiramente para entenderem o que estão pensando.

  • Elton Alves Do Nascimento

    Agora imaginem o leitor médio do BJ se deparando com isso. Dá até ânsia imaginar. Por isso overloadr é o melhor site br de notícias de jogos

  • Gilliard Lopes

    O que mais me impressiona no trabalho da Anita é que tudo que ela fala parece tão óbvio, mas ainda assim nos passa batido na maioria das vezes. É mais uma prova de que esses tropes reforçam ideias tão enraizadas nas nossas cabeças que é preciso alguém como ela para recortar e colar as ocorrências e organizar as ideias para demonstrar sua existência e frequência.

    E como disse o Glauber, obrigado ao Oveloadr pela coragem de trazer o assunto à tona para o público brasileiro.

  • Theya

    Sarkesian é ídola! Exemplo de que ser feminista não é ser mimizenta e sim apresentar argumentos de uma forma extremamente didática e simples. E olha que essa moça já sofreu tantos ataques mas continua mostrando a cara e combatendo esses problemas.

    • Elton Alves Do Nascimento

      Pior são as ameaças veladas, do tipo “vamos debater, Anita, pode levar os seguranças que quiser e colocar seus termos, mas quero debater”. Não lembro quem fez isso, mas ela recebeu esse tipo de “convite” totalmente intimidador. Povo goste ou não, essa mulher tá trazendo a tona verdades importantes e essa discussão é essencial pro mundo geek / nerd / gamer

  • Elton Alves Do Nascimento

    Agora imaginem o leitor médio do BJ se deparando com isso. Dá até ânsia imaginar. Por isso overloadr é o melhor site br de notícias de jogos

  • José Cordeiro

    Gosto de ver essas matérias e vídeos que buscam esclarecer as diferenças de gêneros, mas vez ou outra tem coisas que são apontadas que eu não consigo deixar de pensar que são resultado de uma busca um tanto tendenciosa por possíveis evidências pra crítica que se quer construir.
    Não tiro a validade do fato apresentado, mas alguns argumentos dela – principalmente no início do vídeo – soam forçados e quase cortaram a minha “conexão” com a mensagem. Mas resolvi assistir o resto e a análise no geral é muito boa. Posso não concordar com tudo mas a reflexão inspirada é legal 🙂

  • Vinicius Costa

    Obrigado novamente ao Overloadr por ser o único site de games que acesso a tocar nesse assunto =)

  • Mrwho23

    É muito fácil falar de sexismo nos vídeo games, mas é muito mais difícil ouvir as criticas e aceitar que nem tudo o que ela diz esta correto ou esta fora de contexto.