The Secret of Monkey Island é um dos mais clássicos jogos dentro do gênero adventure (ou point and click) e, sem dúvidas, um dos meus títulos favoritos, que mais me marcou ao longo de quase trinta anos. Até hoje há algo de mágico nele, nesse mundo fantástico repleto de figuras que sabem como não levar nada a sério na medida certa, e que sempre conseguia criar a sensação de que havia uma nova surpresa nos esperando logo em seguida. Isso sem contar a luta de espadas na qual o que mais importa são os insultos usados em vez dos golpes; é absurda a quantidade de adventures atuais que colocam alguma referência a isso (ou ao macaco de três cabeças) até hoje, mas quem sentiu a euforia de derrotar a Mestra da Espada entende o porquê.

The Secret of Monkey Island

The Secret of Monkey Island

Essa pérola de uma era bem específica dos videogames está completando 25 anos no mês de setembro e, em razão disso, Ron Gilbert – a principal mente por trás da obra – compartilhou algumas curiosidades sobre a primeira aventura de Guybrush Threepwood. Por exemplo, a própria medição de quanto tempo faz desde que o jogo lançou é algo complicado por conta de como as coisas se davam. “Diferente de hoje em dia,” comenta Gilbert, “você não apertava um botão e soltava seu jogo para bilhões de pessoas. Era um processo lento de enviar os disquetes ‘gold master‘ para produção, que frequentemente ficavam no exterior, e então esperar para que elas fossem enviadas às lojas, para que as massas comprassem. (…) É difícil saber quando [The Secret of Monkey Island] apareceu pela primeira vez nas lojas. Pode ter sido no final de setembro ou até mesmo em outubro, e aconteceu sem chamar muita atenção. As gold masters foram feitas no dia 2, então essa é a data que estou chamando de aniversão de The Secret of Monkey Island.”

Ao explicar sobre como bugs eram arrumados depois de encontrados (e avaliados se sequer valia a pena corrigi-los, algo que pode soar esquisito, porém é comum – e na verdade, se feito direito, é mais positivo do que negativo -, já que a correção de um bug mínimo, que poucos encontrarão, pode provocar a criação de diversos outros), Gilbert descreve um processo que aparenta alienígena para a maioria de nós. “Tenha em mente que quando eu fazia uma nova versão, eu não simplesmente a copiava para a rede e a deixava com os testers, ela precisava ser copiada a um set de quatro ou cinco disquetes para que pudesse ser instalada em cada uma das máquinas dos testers. Era um processo demorado e perigoso. Não era incomum que problemas surgissem quando eu estava criando os masters, tendo então que reiniciar todo o processo. Podia demorar horas para criar um novo set de cinco discos de teste.”

The Secret of Monkey Island

The Secret of Monkey Island

Fora isso, havia também tropeços encontrados na própria distribuição, que às vezes tinham de ser solucionados pela própria equipe. Aqui, Gilbert fala de uma tática que eles utilizavam que é basicamente impossível de ser replicada nos dias de hoje dado como a segurança de aeroportos mudou. “Quando um candidato a lançamento passava da fase de testes, ele era enviado para a manufatura. Às vezes esse era um processo louco. As versões destinadas a Europa seriam duplicadas na Europa e nós precisávamos enviar o gold master para lá, e se alguma coisa dava errado não havia tempo de enviar via correio para eles. Então, nós dirigíamos até o aeroporto e encontrávamos um voo que estivesse destinado a Inglaterra, íamos até o portão de embarque e pedíamos a um passageiro se ele não se importaria de levar os disquetes para nós, e alguém o encontraria no portão quando eles desembarcassem. Você pode imaginar algo assim nos dias de hoje? Você não pode nem chegar perto do portão, quanto mais encontrar uma pessoa que pegaria o pacote de um estranho e o levaria em um voo para você. Mundo diferente.”

Curiosamente, apesar de muitos considerarem o título como um dos gigantes dos videogames, ele não foi um sucesso comercial estrondoso. “Monkey Island nunca foi um grande hit. Ele vendeu bem, mas nem de perto tão bem quanto qualquer coisa lançada pela Sierra,” complementa Gilbert. “Eu comecei a trabalhar em Monkey Island II cerca de um mês após Monkey Island e entrei em produção sem a menor ideia se o primeiro jogo seria bem recebido ou se seria uma bomba. Eu acho que essa foi parte da minha estratégia: começar a trabalhar nele antes que qualquer um dissesse ‘não vale a pena, vamos fazer mais jogos de Star Wars’ “.

Gilbert encerra dizendo que Ilha dos Macacos é uma das coisas das quais mais se orgulha ter feito e da quantidade de pessoas que dizem a ele o quanto foram marcadas pelo jogo. Casamentos foram realizados com a temática desse Caribe fantástico e ao menos um casal nomeou seu bebê de “Guybrush”. O desenvolvedor disse sempre pensar na série como uma trilogia e, apesar dela tecnicamente ter cinco jogos, Ron Gilbert trabalhou apenas nos dois primeiros. “Monkey Island hoje em dia é da Disney e eles não mostraram interesse em me vender a propriedade intelectual. Eu não sei se poderia fazer Monkey Island 3 sem controle completo sobre o que seria criado e o único jeito de fazer isso seria sendo dono da franquia. Disney: me liga.”

The Secret of Monkey Island

The Secret of Monkey Island

Desde que a LucasArts foi adquirida pela Disney, a empresa tem sido bem mais leniente com as propriedades que vieram parar em seu colo. Exemplo disso é o relançamento do excelente Grim Fandango, de diversos jogos que finalmente apareceram no GOG e, futuramente, do remake de Day of the Tentacle. Quem sabe isso abra precedentes para que vejamos uma nova linha temporal de Guybrush Threepwood, uma que continue a partir do estranho final de Monkey Island 2: LeChuck’s Revenge (que, para ser justo, é explicado em The Curse of Monkey Island, mas outras justificativas serão sempre bem-vindas).

Eu sei que, se bem feitas, mais histórias nesse universo seriam algo que certamente apreciaria. Tales of Monkey Island, da Telltale, não foi ruim, mas está longe de ter a qualidade que os títulos originais da série possuíam. Ao menos parece que, independente de quanto tempo passe, ainda haverá pessoas cujos olhos brilharão à menção da possibilidade de vermos Guybrush, Elaine, LeChuck e tantos outros novamente. Há algo muito certeiro nessa obra que fez com que muitos se apaixonassem, algo que, apropriadamente, é um enigma mais complexo do qualquer um que tenha aparecido nos jogos, um que nem Gilbert sabe responder.

“Vinte e cinco anos. Isso é bastante tempo. Me impressiona que pessoas ainda joguem Ilha dos Macacos. Eu nunca teria acreditado nisso lá atrás.”

“É difícil a mim entender o que Monkey Island significa para as pessoas. Sempre me perguntam por que ele é um jogo tão duradouro e importante. E minha resposta sempre é ‘eu não tenho ideia'”.

“Eu realmente não tenho.”