A especialista em marketing de produtos da Nintendo, Alison Rapp, foi demitida nesta quarta-feira (30) após ser alvo de uma campanha machista intensa que durou meses, entretanto a empresa nega que a ação tenha sido responsável pela demissão.

Para Rapp, o que levou ao seu desligamento foi uma campanha de meses liderada por machistas e até um site pró-supremacia branca (The Daily Stormer). A funcionária afirma que começou a ser atacada após a Nintendo aumentar seu cuidado com conteúdo sexualizado em seus jogos, o que fez com que pessoas encontrassem nela o seu bode-expiatório.

"Hoje a decisão foi tomada: não sou mais uma boa e segura representante da Nintendo e fui demitida."

“Hoje a decisão foi tomada: não sou mais uma boa e segura representante da Nintendo e fui demitida.”

A ação coordenada contra Rapp atingiu seu ápice quando a Nintendo anunciou que uma mecânica de “fazer carinho” em personagens de Fire Emblem Fates fosse retirada da versão ocidental do jogo. Isso fez com que os perseguidores achassem que a culpa era de Rapp (sendo que nem era esse o trabalho dela) e voltassem a ataca-la com mais força do que nunca.

Nos meses seguintes foi desenterrado um artigo acadêmico de anos atrás da funcionária no qual ela defendia que os valores culturais do Japão deveriam ser protegidos, incluindo uma argumentação meio obtusa de que a sexualização dos adolescentes japoneses estava encravada na cultura nipônica. Isso fez com que a ação contra Rapp centralizasse seus esforços em acusá-la de ser pró-pedofilia, enviando e-mails disfarçados de “pais preocupados” para executivos da Nintendo:

Site pró-supremacia branca divulga contatos de executivos da Nintendo para seus leitores forçarem Rapp para fora da empresa

Site pró-supremacia branca divulga contatos de executivos da Nintendo para seus leitores forçarem Rapp para fora da empresa

A Nintendo divulgou uma nota oficial sobre o caso:

“Alison Rapp foi demitida devido a uma violação de uma política interna da companhia que a proibia de ter um segundo emprego enquanto trabalhava para a Nintendo. Apesar da demissão da Srta. Rapp acontecer após críticas realizadas por certos grupos nas mídias sociais várias semanas atrás, os dois fatos não estão relacionados de maneira alguma. A Nintendo é uma empresa comprometida com a promoção da inclusão e diversidade, tanto dentro de nossa empresa quanto da indústria videogames e nós rejeitamos com firmeza o assédio dos indivíduos com base em sexo, raça ou crenças pessoais. Desejamos à Srta. Rapp sorte em seus empreendimentos futuros.”

Após a nota, Rapp foi ao Twitter dar o seu lado dos detalhes por trás de sua demissão:

Alison Rapp

“Para pagar empréstimos estudantis (weee), eu comecei a fazer ‘trabalhos por fora’ com um outro nome e sem nenhuma identificação. Um anônimo descobriu e contou à Nintendo e aqui estamos nós. Foi desse segundo trabalho que a Nintendo não gostou, mesmo sendo algo que eu fazia anonimamente. Mas olha só: vocês realmente acham que sem os ataques do GamerGate, o ‘movimento paralelo’ e a procura obsessiva por coisas privadas teriam acontecido? Vocês acham que se a indústria não tivesse medo mulheres, ‘sex-positivity’, etc. o meu segundo emprego teria sido um problema?”. A funcionária continua por mais outros tweets apontando o quanto a indústria de games sofre com esse ataque incessante contra mulheres e como esse movimento é mais proeminente especificamente nos games.

Mesmo que a Nintendo esteja no direito dela de demitir uma funcionária que quebrou um contrato, é realmente triste ver o quanto Rapp e milhares de outras mulheres sofrem de perseguição em nosso meio apenas por serem mulheres e até onde estas pessoas estão dispostas a ir apenas para denegrir a imagem delas.