20xx já está disponível há algum tempo no PC, tendo aparecido inicialmente via Early Access do Steam em novembro de 2014 e ganhando sua versão final em agosto do ano passado. Apesar de já serem anos, ele só agora saiu para os consoles e por conta disso queria aproveitar a oportunidade para falar um pouco sobre ele, porque se trata de um jogo bem legal que pode passar batido.

A maneira resumida de descrever 20xx é: trata-se de Mega Man X mais roguelike. É provável que essa descrição por si só mais te afaste do que te anime porque, apesar das mecânicas de roguelikes estarem sem dúvidas em alguns dos melhores jogos dos últimos anos, títulos inspirados pelo gênero aparecem com tanta frequência em plataformas como o Steam, e são tão comumente de baixa qualidade, que a tag “roguelike” pode para alguns mais desagradar do que atrair.

20xx está na parte positiva dessa escala, sendo um dos exemplos que usam bem os conceitos de roguelikes. Na verdade, o mais correto seria usar aqui roguelite, já que o jogo tem uma progressão permanente na forma de upgrades que compramos com uma moeda específica, da mesma maneira que é feito em Crypt of the Necrodancer e Dead Cells, por exemplo. Mas vamos a 20xx em si.

No início de uma partida selecionamos entre Nina e Ace, cada um deles claramente inspirados por Mega Man X e Zero, respectivamente, além de dois personagens disponibilizados via DLC, e partimos para as diferentes fases. A cada momentos, três delas podem ser selecionadas e, quanto mais avançado for seu progresso, mais difíceis serão os desafios encontrados nelas, assim como os chefes em si.

Dessa maneira, a ordem que as fases são passadas muda nossa experiência e aprender aos poucos que tipo de obstáculos elas possuem faz parte do aprendizado do jogo. Isso envolve um pouco de sorte também, pois não é possível escolher quais três estágios são selecionáveis em cada momento, então esse ato de aprender envolve também um certo jogo de cintura e adaptação, já que você nunca tem certeza completa de qual estágio estará habilitado em seguida.. Uma tática viável é a de tentar matar o mais cedo possível as fases que são mais problemáticas para você – no meu caso, a Sky Temple, que é cheia de buracos e elevadores, para garantir que eu não teria de lidar com a versão mais difícil dela em uma partida.

Junto disso, ver que tipos de armas secundárias são dadas por cada um dos chefes é também importante, porque, dependendo de onde estão suas fraquezas como jogador, tentar obter algumas delas o mais cedo possível fará toda a diferença. Comigo, o escudo de fogo dado pelos Gêmeos Astrais salvou minha vida diversas vezes, então eu sempre tento adquiri-lo rapidamente – o que, é claro, nem sempre é uma certeza, porque pode ser que esse chefe apareça como uma das última opções a ser enfrentada.

Não que seja exclusivo a 20xx – o já citado Dead Cells faz isso também muito bem -, mas essa mescla da imprevisibilidade dos roguelikes com características concretas que serão sempre as mesmas, independente de quantas vezes você jogue, faz com que o jogo como um todo não dependa (ou dependa muito pouco) de sorte. Ainda existem elementos que não podem ser previstos. As fases são procedurais e não há como saber que tipo de melhorias, que podem fazer toda a diferença, aparecerão nos estágios se eles forem explorados mais a fundo.

20XX

20XX

Isso é referente ao que ele tem de roguelike, mas são as pitadas de Mega Man X que realmente me fizeram gostar do título. A série X, que teve sua estreia no Super Famicom em 1993, tem um monte de qualidades. Uma trilha sonora muito boa, estágios variados e divertidos, segredos a serem descobertos e outras coisas mais. Porém, possivelmente a coisa mais importante que mudou do Mega Man clássico para o Mega Man X foi sua mobilidade.

20xx não só tem controles precisos e gostosos, como também reproduz a mobilidade deliciosa que X possui, capaz de escalar paredes e dar dashes – aquelas corridinhas – à vontade, mudando completamente a maneira como lidamos com controle aéreo e com a verticalidade das fases. Mesmo nos jogos mais fracos da franquia Mega Man X, correr e saltar, atravessando inimigos sem que eles mal notem nossa presença, é prazeroso.

O curioso é que, apesar dos ótimos controles, a série X como um todo é muito menos sobre desafios de plataforma do que seu irmão mais velho. Claro, buracos e espinhos nunca desapareceram, mas os estágios eram muito menos definidos por essas características quando comparado aos Mega Man originais.

20xx retoma isso e plataforma volta a ser algo integral de suas fases. E como a estrutura delas não é fixa você não pode contar só com aprendizado, pura e simplesmente. Sempre há chance de um obstáculo inesperado estar a sua frente, além de mais armadilhas aparecerem nas últimas fases e da velocidade das plataformas aumentar. Eu não estou querendo comparar aqui os jogos para ficar apontando qual é melhor e qual é pior, até porque por suas diferenças isso não faria sentido. Porém, eu diria que em certos aspectos 20xx aproveita melhor essa mobilidade de nossos personagens, inspirada diretamente pelo trabalho da Capcom, e nos desafia mais a entendê-la e dominá-la do que Mega Man X o fez, o que eu vejo como algo bem positivo.

O roguelike não é sempre problemas. A ironia é que se ele acerta na plataforma, acaba por errar no combate, com chefes que no geral não são particularmente desafiadores. Alguns deles, especialmente utilizando Ace, podem ser derrotados sem problemas se nos atirarmos para cima deles e os matarmos antes que eles causem muito dano. Fora isso, o jogo está em português do Brasil, o que é muito legal, mas infelizmente a tradução deixa a desejar às vezes, em alguns casos causando confusão sobre o efeito de um item ou sobre o objetivo de uma área bônus. Não é nada muito terrível ou que não dê para entender testando por conta própria e, com certeza, nenhuma dessa características é ruim o suficiente para estragar 20xx, que é um jogo bem divertido.

20xx está disponível para PC, PlayStation 4, Xbox One e Switch.