Rainy Day, da game designer Thais Weiller, uma das mentes por trás do selo JoyMasher, de Oniken e Odallus: The Dark Call, é um bom exemplo da capacidade dos jogos de transmitir emoções e simular estados de espírito. Você pode jogá-lo gratuitamente aqui.

Baseado em experiências pessoais, trata-se de uma narrativa interativa sobre a incapacidade física e mental de se preparar para mais um dia de trabalho, da perspectiva de alguém deprimido. Tudo se passa em uma manhã chuvosa e, embora você, no controle da personagem, tenha diferentes opções de como começar o dia, ela não é capaz de realizar nenhuma delas adequadamente. O tempo se arrasta e, quanto mais você insiste em se arrumar para sair de casa, mais fica claro que algo está errado.

As opções do jogo estão sempre embaçadas, como se você não pudesse tomar uma decisão com muita clareza. E quanto mais você insiste em realizar algo, menos contrastantes as cores do texto e do fundo se tornam, dificultando cada vez mais a leitura e transmitindo a sensação de sufocamento e incapacidade vivida pela personagem. Ao final, há uma mensagem clara: “Ansiedade é um assunto sério. O jogo tem como objetivo ilustrar como a ansiedade pode entrar na frente de uma vida feliz. Se você lida com problemas similares aos da protagonista, não diminua a importância deles e, por favor, fale com alguém sobre isso.”

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Thais me contou que, apesar de ser um projeto pequeno, ele levou mais de um ano para ser lançado, justamente por que ela sofria da mesma exaustão reproduzida em seu próprio jogo. “A Amora [artista de Towerfall e Skytorn] ter aceitado fazer a arte me ajudou bastante na época, me deu um boost, mas então a vida aconteceu e parei de mexer nele por mais algum tempo.” Após ter se mudado de Manaus, onde trabalhava como game designer em um estúdio, ela começou a melhorar e, com isso, a dar prosseguimento ao desenvolvimento de Rainy Day. Neste momento, contudo, o medo da exposição contribuiu para que o projeto se alongasse mais um pouco.

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Com o tempo, Thais percebeu que seu jogo poderia ajudar não apenas outras pessoas mas a si própria. “No começo eu tinha um pouco de vergonha, sabe? Eu não sou muito comunicativa e achava que esse jogo não ia me ajudar muito a melhorar”, conta. “Eu também acabava não falando muito com outras pessoas sobre isso. Mas nos últimos momentos do desenvolvimento, eu acabei mostrando-o para alguns amigos e muitos se identificaram. Era reconfortante saber que eu não era a única a ter esses problemas, que muita gente se sentia assim.”

“Eu achava que eu era defeituosa, que era o único ser humano incapaz de se comunicar direito e passei a ficar ansiosa com isso, mas no processo descobri que muita gente também se sente desta forma. Imagina quantas pessoas também não acham que tem algo terrivelmente errado com elas e que estão sozinhas? Foi neste momento que eu coloquei a mensagem no final. Foi a última página a ser adicionada.”

Thais publicou Rainy Day na manhã desta quarta-feira (27) e vem recebendo, nas redes sociais, inúmeras respostas de pessoas que se identificaram com seu jogo.

Transparência: os membros do Overloadr são amigos pessoais de Amora e Thais.

  • Paulo Henrique

    Dei uma pesquisada no Google e não achei o jogo, queria dar uma olhada.

  • Bruno Oliveira

    Overloadr, melhor site ou melhor site?

  • Carlos Augusto Leão

    Overloadr sempre nos trazendo esses pequenos tesouros. Muito bom.

  • Clara Gonçalves

    Muito bom o jogo, mas no final diz que tem três outros finais diferentes e eu só consigo chegar no mesmo… É assim mesmo ou eu to fazendo errado?

  • Tablis Costa Junior

    tem como sair de casa? pq eu nao consegui em nenhuma das tentativas

    • Sofia

      Tem. Mas tem que ter paciência. Você tem que pensar mais em como fazer a pessoa se sentir melhor do que como sair de casa. Tome um banho. Eu consegui fazer chegar ao trabalho.

      • Tablis Costa Junior

        a entendi…estava jogando mais tomando decisões q eu tomaria e não focando em fazer ele se sentir melhor

      • Keity Menezes

        Que roupa você a fez vestir?

  • Danielle Andrade

    Tem algum final em que a personagem pelo menos fique satisfeita ou algo do tipo ? Porque sempre eu consigo levá-lá até a livraria, então ela lê, come e aparentemente se mantém estável, porém quando ela chega até o trabalho, ela fica triste, e se eu faço ela voltar pra casa, ela se sente deprimida da mesma forma !

    • Marcio Roberto

      Engraçado porque eu acho que fiz todos os fins mas parece que nenhum é de fato positivo!

  • Pedro Paulo Pinheiro

    Passei EXATAMENTE por esse situação no estágio que eu fazia, de ter uma crise antes de sair de casa e finalmente sair pra ser enlatado igual sardinha no metrô que parou por problemas de chuvas daí descer na estação que ele parara pra pegar o táxi enfrentando um trânsito tenso por conta da chuva e por conta do dinheiro do táxi ter que deixar de almoçar (mais uma vez) naquele dia.
    A única diferença é que durante todo esse trajeto eu tinha uma chefe questionando onde eu tava a cada 10 minutos, questionando minha responsabilidade, minha dedicação ao trabalho, meu controle do tempo… Eu tinha que agir como o irresponsável que acordou mais tarde ao invés de contar que na verdade eu nem mesmo havia dormido.