2015 foi um ano excelente para os jogos brasileiros. Com intervalos curtos entre um lançamento e outro, Chroma Squad, Odallus, Horizon Chase, TorenPainters Guild e tantos outros deixaram claro que a produção nacional nunca esteve tão fortalecida. Mas após essa excelente safra, 2016 parece ter sido um ano menos recheado de bons jogos criados no Brasil, ainda que uma nova e promissora leva esteja em produção. Star Vikings chega para preencher essa lacuna.

O novo jogo da Rogue Snail, estúdio criado pelo game designer Marcos Venturelli, cujo portfolio inclui alguns nomes de peso como Dungeonland, da extinta Critical Studio, Chroma Squad, da Behold Studio, e Relic Hunters, de sua própria empresa, é um puzzle engenhoso, que brilha com mecânicas inventivas e deliciosamente cativantes, um charme à altura de Plants vs. Zombies e um senso de humor tipicamente brasileiro.

O brilhantismo de Star Vikings está na eficiência e simplicidade de suas mecânicas. Em uma espécie de tabuleiro, devemos mover os heróis em linha reta, da esquerda para a direita, encontrando formas de eliminar os oponentes espalhados pela grade, evitando que eles nos ataquem.

Isso envolve explorar o principal recurso do jogo: as reações em cadeia. Ao ser atacado (seja pelos heróis, seja por outros inimigos), cada oponente reage de uma forma diferente. Alguns golpeiam a casa à frente, outros as casas adjacentes ou ainda qualquer coisa que esteja em sua linha de ataque. Assim, antes de agir, é preciso analisar o estado do tabuleiro para prever a consequência de um ataque, e optar por aquele que possa causar a maior reação em cadeia ou o resultado que desejamos. Adicione a isso a eventual possibilidade de mudar peças de lugar ou alterar a direção do ataque de alguns inimigos, dentre outros twists, e você tem um jogo tão elaborado e estratégico quanto o xadrez, porém mais simpático, divertido e engraçado.

Os heróis (cabulosos, no idioma HUE-BR, que pode ser ativado a qualquer momento no menu de opções) ganham dinheiro para comprar itens em lojas (camelô) no mapa principal, experiência (nerdice), usada para aprimorá-los com novas habilidades e melhores atributos, além de outras coisinhas adicionais. O resultado é uma combinação coesa e integrada de sistemas que dão ao jogador um senso de progressão tão gratificante, que me vi lidando com o bom e velho “ah, só mais uma fase”, o que é sempre um sinal de engajamento pleno do jogador.

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A mesma mensagem em dois “idiomas”, o HUE-BR, à esquerda, e o português comum, à direita

O que acontece é que, conforme você avança, os inimigos vão se tornando mais resistentes e variados, exigindo do jogador mais cautela e novas estratégias. E quando o grau de desafio parece ter ultrapassado suas capacidades, tornando as partidas quase impossíveis, ele eventualmente é recompensado com uma nova habilidade que amplia suas vantagens e possibilidades estratégicas, resultando em um sentimento delicioso de revanche, de virada.

Não bastasse ser um exemplo notório de bom game design, Star Vikings é também charmoso em seu visual e dotado de um humor honesto, debochado e ousado, ao menos em seu “dialeto” HUE-BR. Não sei como são os textos ou mesmo como a trama é tratada nos idiomas normais, mas sendo sincero, não faço questão, visto que a experiência no idioma “zuero” parece única demais para ser desperdiçada.

Os botões da interface dão lugar a “blz”, “pode ce”, “partiu”, “não krai” e coisas do tipo, que a gente encontraria em um chat de WhatsApp. Há inúmeras referências à cultura pop brasileira e memes de internet, de Bambam a Faustão, como o inconfundível “Errrroou” na tela de game over.

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A ideia veio de uma brincadeira feita pelo animador Glauber Kotaki em Out There Somewhere, jogo da Miniboss, e se estende aqui, aliado ao humor dos jogos da Behold, que por sua vez é amplamente inspirados pela cultura pop. É uma reafirmação de um estilo tipicamente brasileiro de se fazer jogos, com uma pegada debochada e “popular”.

Lançado nesta quinta-feira (7), Star Vikings chegou às plataformas Steam, Nuuvem e GOG por R$ 19,90 — no Steam e no GoG, ele está custando R$ 17,99 na primeira semana. Uma demo, contendo o primeiro ato do jogo (uma porção generosa da aventura), está disponível para download, aos que quiserem testá-lo gratuitamente.

  • Preciso comprar esse jogo só por causa do Hu3 BR